A frase “o sertão vai virar mar“, atribuída ao beato Antônio Conselheiro e imortalizada por Euclides da Cunha em Os Sertões, sempre teve o peso de profecia e tragédia, gerando um certo medo em quem ouve, como se anunciasse um apocalipse. Conselheiro, o cearense de Quixeramobim (à época, Nova Vila de Campo Maior) que fundou o Arraial de Canudos no interior da Bahia e liderou o movimento popular massacrado pelo Exército da República entre 1896 e 1897, jogou no ar essa frase, indicando uma alteração cósmica, promissora e também punitiva do universo, realidade que Al Stefano leva em conta e explora brilhantemente em Piratas do Cangaço. A obra constrói um universo alternativo onde o sertão realmente foi alagado, transformando a região Nordeste num grande e perigoso mar, cheio de ilhas onde antes haviam as antigas capitais e cidades icônicas, e onde os cangaceiros-piratas usam diversos tipos de barcos e navios para realizar resgates de prisioneiros e pilhagens, além de fugir de uma República tão autoritária quanto a de carne e osso. A ideia em si é fascinante e já valeria a leitura de 80 páginas, mas o que eleva Piratas do Cangaço acima de qualquer premissa é a qualidade com que Al Stefano trata esse cenário em personagens, traço e drama.
Os muitos anos de experiência do artista aparecem aqui com seus traços expressivos, múltiplas texturas e riqueza na composição das cenas, dando bastante personalidade para cada membro do trio protagonista, Carcará, Vela Seca e Fogueteira, além do antigo capitão Labareda, que o grupo tenta resgatar das garras da República. Gostei muito do trabalho do autor com os animais antropomorfizados, um recurso manejado com grande competência, mesmo que não represente de maneira direta as características do bicho desenhado, mas a sua personalidade ou papel social aplicado a uma representação humanizada. Cada um carrega, na forma e nos movimentos, uma aceitável função dramática, sem cair naquela seara do alegórico barato ou do cartoon bobo e vazio, e o resultado é um conjunto de personagens com identidade genuína e rostos e gestos marcantes. Os desenhos engajam o leitor quadro a quadro, com composições que administram bem o ritmo entre ação e pausa, e há sequências de aventura marítima que fazem brilhar o olho de quem gosta de aventuras que mesclam gêneros. A figura do Padim, referência ao Padre Cícero Romão Batista (1844 – 1934), o popular Padim Ciço do Juazeiro que marcou o imaginário nordestino como nenhum outro líder espiritual, recebe tratamento e desfecho que surpreendem de verdade, e é daquelas soluções narrativas que impactam o leitor.

No decorrer da história, temos reviravoltas bem construídas, todas com propósito dentro de uma larga teia de eventos. O autor sabe trabalhar com perspectivas múltiplas e relatos que se contradizem ou se complementam, deixando o leitor em permanente suspensão sobre o que é verdade e o que é conveniente para quem narra. Esse efeito Rashomon aparece ligado ao cangaço de forma natural, como se a instabilidade da verdade fosse só mais uma característica desse mundo onde até a geografia está irreconhecível. As versões dos personagens sobre os mesmos acontecimentos criam densidade moral na aventura, transformando a leitura num exercício de crítica das motivações humanas. Faço apenas uma ressalva quanto ao desfecho, que opta por uma abertura muito mais ampla do que eu gostaria, criando curiosidade por futuros desdobramentos nesse universo, mas também uma sensação de ligeira incompletude.
Piratas, cangaceiros, aventuras e aproximação com importantes figuras da história e do imaginário nordestino são itens que Piratas do Cangaço mistura com uma inteligência que vai além do mero exercício de gênero. Al Stefano transforma a profecia de Conselheiro num parquinho simbólico e histórico, onde o Nordeste deixa de ser só um “cenário exótico” e vira o gordo tutano da narrativa, com sua geografia, sua espiritualidade, seus conflitos com o poder central e sua resistência irredutível a qualquer forma de apagamento. A mistura das sagas de pirataria com toda a dinâmica do cangaço merece aplausos, porque o autor demonstra que os dois universos compartilham uma lógica comum, a do marginalizado que desafia a ordem estabelecida por força de necessidade e de identidade, e é dessa sobreposição que nasce o vigor real da obra. Al, meu caro, cadê os outros volumes dessa saga? Apoiei (no Catarse) e já li A História de Biu Marrento (2025) e ainda quero mais!
Piratas do Cangaço (Brasil, 2022)
Roteiro: Al Stefano
Arte: Al Stefano
Editora: Zapata Edições
Editoria: Daniel Esteves, Al Stefano
80 páginas