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quarta-feira, junho 10, 2026

Queda das importações de petróleo da China ajuda a conter impacto sobre preços globais

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Uma forte queda nas importações de petróleo da China está ajudando a conter a alta dos preços globais, apesar da crise de oferta que já dura mais de 100 dias devido às interrupções no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas do comércio mundial de energia.

Ainda assim, analistas, investidores e empresas do setor começam a alertar que o mercado se aproxima de um ponto de inflexão, com risco de novas altas caso a demanda chinesa volte a crescer nas próximas semanas ou meses.

As importações chinesas de petróleo bruto caíram para o menor nível em oito anos em maio, à medida que refinarias reduziram suas taxas de operação durante a guerra envolvendo o Irã, ajudando a compensar o choque de preços no mercado internacional.

Segundo dados alfandegários divulgados nesta terça-feira, as importações totalizaram 33,08 milhões de toneladas métricas no mês passado, queda de 14% em relação a abril e de 29% na comparação anual.

O petróleo Brent, referência global, é negociado abaixo de US$ 100 por barril há mais de uma semana. Os preços ainda permanecem mais de 50% acima dos níveis anteriores ao conflito, mas recuaram dos picos superiores a US$ 110 registrados no início de maio.

“A China está atuando como a principal força de reequilíbrio do mercado”, escreveu Mike Haigh, chefe global de pesquisa em commodities do Société Générale, em relatório divulgado na segunda-feira.

Ele observou que a queda das importações chinesas, de cerca de 3 milhões de barris por dia — de 11,7 milhões em fevereiro para pouco menos de 9 milhões no fim de maio — equivale praticamente à demanda total de petróleo do Japão.

“Esse movimento representa uma das maiores compensações ao choque de oferta, atrás apenas do redirecionamento dos fluxos pela Arábia Saudita e superior às liberações coordenadas de reservas estratégicas realizadas pelos EUA, Europa e Japão”, acrescentou.

Segundo a consultoria OilChem, a utilização das refinarias chinesas caiu de 73,2% no início da guerra, no fim de fevereiro, para 61% no começo de junho.

As refinarias independentes conhecidas como “teapots”, grandes compradoras de petróleo iraniano com desconto, parecem ter sido especialmente afetadas, afirmou Duncan Wrigley, da Pantheon Macroeconomics.

Impacto na economia chinesa

Os preços elevados da energia também estão pressionando a atividade econômica na China.

As companhias aéreas estão entre os setores mais afetados. O número médio diário de voos domésticos caiu para 11.873 em maio, recuo de 6% em relação a abril e de 8,3% na comparação anual, segundo a VariFlight.

Analistas do JPMorgan, que visitaram a China no fim de maio, afirmaram que a principal conclusão das reuniões realizadas no país foi que “a demanda por petróleo não apenas caiu, mas pode ter recuado até 9%, ou 1,5 milhão de barris por dia, de forma abrupta, inesperada e com surpreendentemente pouca interrupção visível na economia”.

Segundo eles, a queda não parece resultar de uma campanha oficial de economia de energia.

“Parece que os consumidores fizeram uma escolha econômica silenciosa. Diante do aumento dos preços da gasolina, do diesel e das passagens aéreas, muitos parecem ter migrado para alternativas de transporte mais baratas e de menor emissão de carbono”, escreveram.

Um morador de Xangai, na faixa dos 30 anos e funcionário de uma empresa internacional de tecnologia, disse ter adiado a compra de uma passagem para Shenzhen até que as sobretaxas de combustível diminuam. Segundo ele, a cobrança adicional de 170 yuans (US$ 25) por trecho era excessiva para uma passagem que custava menos de 1.000 yuans.

Os preços mais altos do petróleo também pressionam a indústria e o consumo, elevando custos logísticos e de matérias-primas.

A produção industrial chinesa cresceu apenas 4,1% em abril na comparação anual, o ritmo mais fraco em quase três anos.

Um funcionário da Petalent, fabricante de produtos para animais de estimação sediada na província de Zhejiang e que vende em plataformas como Amazon, afirmou que os pedidos de clientes americanos vêm diminuindo.

“Os custos de transporte têm sido instáveis, e as matérias-primas têxteis ficaram muito mais caras”, disse à Nikkei Asia.

Analistas da Jefferies também observaram na semana passada “quedas severas” nas vendas de eletrodomésticos nas plataformas JD.com e Tmall, apesar do início antecipado do festival de compras 618.

Ainda assim, os dados divulgados nesta terça-feira mostraram que as importações totais de mercadorias da China cresceram 27,4% em maio na comparação anual em termos de valor em dólar, enquanto as exportações avançaram 19,4%.

Refletindo a recente queda dos preços internacionais, o governo chinês reduziu na quinta-feira o teto dos preços da gasolina em 525 yuans por tonelada, enquanto as companhias aéreas diminuíram as sobretaxas de combustível em até 20 yuans a partir da última sexta-feira.

Vista aérea do petroleiro HELGA atracado em um dos terminais petrolíferos offshore do sul do Iraque, perto de Basra, enquanto se prepara para carregar petróleo bruto , tornando-se o segundo navio a chegar desde o fechamento do Estreito de Ormuz, em 24 de abril de 2026 — Foto: REUTERS/Mohammed Aty/Foto de Arquivo

Mercado se aproxima de ponto de inflexão

Apesar do alívio recente, participantes do mercado alertam para novas oscilações à medida que os estoques globais são consumidos em ritmo recorde.

A trading Trafigura afirmou em seus resultados semestrais divulgados na quinta-feira que o mercado global de energia “está agora em um ponto de inflexão” e continua operando em déficit.

Neil Chapman, vice-presidente sênior da Exxon Mobil, declarou em uma conferência para investidores que os estoques estão se aproximando de níveis “sem precedentes”, o que acabará pressionando os preços para cima.

Grande parte das expectativas agora depende da trajetória das importações chinesas nos próximos meses — questão que divide analistas.

A incerteza sobre o tamanho real das reservas estratégicas chinesas dificulta as previsões.

Embora se estimasse que os estoques superassem 1 bilhão de barris no início da guerra, a falta de dados oficiais impede saber qual é o volume atual e se o governo autorizou empresas a utilizar parte dessas reservas.

“Ninguém sabe realmente qual é o volume verdadeiro”, disse um gestor de investimentos baseado em Hong Kong.

Thomas Gatley, da Gavekal Dragonomics, afirmou que Pequim “não recorreu de forma significativa às reservas”, mesmo diante da forte queda nas importações, sugerindo que as compras externas podem permanecer reduzidas.

Da mesma forma, Bi Xinxin, da Wood Mackenzie, afirmou que as importações “devem continuar moderadas devido aos altos preços do petróleo, aos estoques existentes e à fraqueza da demanda doméstica”, acrescentando que os estoques comerciais poderiam compensar uma interrupção da oferta do Oriente Médio por mais de 150 dias.

Bridget Payne, da Oxford Economics, disse que o mercado tem “capacidade limitada de prever quando as importações chinesas voltarão ao normal, porque ainda não está claro como a China está absorvendo esse choque”.

Segundo ela, há indícios de que o país esteja mantendo estáveis seus estoques visíveis utilizando reservas subterrâneas.

“Se a China estiver recorrendo a estoques subterrâneos pouco transparentes, não sabemos o quão cheios eles estão, e as importações podem voltar rapidamente ao normal caso essas reservas se esgotem.”

Analistas do Morgan Stanley afirmaram que a China “travou volumes excepcionalmente baixos de petróleo bruto nos últimos meses”, o que provavelmente levará à continuidade da redução dos estoques no curto prazo.

“Há, porém, uma probabilidade significativa de que compradores chineses retornem ao mercado para cargas com entrega em setembro, a fim de conter a queda dos estoques”, disseram.

Segundo eles, as compras para entrega em setembro normalmente começam em meados ou no fim de junho.

“Se o estreito for reaberto em breve, isso poderá ocorrer sem apertar ainda mais o mercado. Mas, se essa perspectiva continuar se afastando, o risco de alta para os preços aumenta.”

[Fonte Original]

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