Depois de ser muito criticada, odiada e às vezes amada pela internet afora, Milena ganha a sua própria revista no recomeço de fase (maio/junho de 2026) dos personagens de Mauricio de Sousa na Panini, e essa chegada já vem com as alterações que tanto foram pedidas ao longo dos anos. Primeiro, temos um desenho mais simplificado para a personagem, aproximando-a de verdade da identidade visual que conhecemos muito bem dos protagonistas do Limoeiro. A roupa cheia de detalhes, os cabelos hiper contornados, o bojudo laço de fita rosa (que é explicado porque “saiu de cena”), tudo isso ganha, aqui, uma exposição estética condizente com os icônicos personagens da Turminha, além da gritante e evidente mudança (para MUITO MELHOR!!!) que a arte dessa nova fase teve. Para quem acompanha os quadrinhos do grupo Mauricio de Sousa, lembra que entre março de 2025 estourou na internet uma exposição bem negativa da aparência fixa dos personagens das histórias da Turma. Estava claro o uso de modelos prontos (mesma expressão copiada e colada em inúmeros quadros, por toda a revista) e PNG do Google. A crítica (certeira, por sinal) veio forte. E parece que o estúdio ouviu, assumiu e consertou o erro.
Esta edição #1 de Milena, que abre com a história O Mistério no Quarto de Dormir, traz créditos em todas as histórias e um desenho realmente expressivo e gostoso de ver, onde brilha o estilo do artista (nesse caso, a deliciosamente exagerada arte de Dennis Oyafuso, algo que gostei muito aqui, mas que imagino que vá enjoar, com o tempo, se não houver boa dosagem. A propósito: os saudosistas da ditadura do “traço mauriciano” vão ter um treco com essa arte mais caricata. Eu adorei. Mas sei que os leitores mais velhos, apegados ao padrão do Mauricio, vão espernear com isso) e começa com chave de ouro esse novo título, trazendo uma ótima sátira para as tramas de detetive. O roteiro de Edson Itaborahy faz uma engraçada oposição narrativa e visual entre a seriedade do método investigativo e o caos de um ambiente infantil, de um quarto extremamente bagunçado de uma garota nerd, ligada à ciência e que tem inúmeras e invejáveis referências, dentre as quais eu destaco essas aqui: o livro Quarto de Despejo; Einstein, Tempestade, Doraemon, Pantera Negra, Kirby, Satoru Gojo, Banksy (Girl with Balloon), Edward Elric, Hello Kitty, Frieren, Sem Rosto e Susuwatari (A Viagem de Chihiro), quadrinho do Chico Bento, Basquiat (Pez Dispenser), Totoro, Rihanna (ANTI), The Weeknd (After Hours), Akuma no Mi, Frank Ocean (Blonde), Freeza, Horácio e balas bilula. Milena não é brincadeira não!

A arte de Oyafuso enche muito bem o quarto da personagem com todos esses ícones da cultura pop e do conhecimento (fora os objetos e brinquedos), dando aquela sensação de que Milena é acumuladora e desorganizada (finalmente tiveram coragem de criar defeitos para ela? Nooooossa!) e, obviamente, hiperativa, porque sua curiosidade e senso de investigação acabam colocando ela (e os outros) em maus lençóis. É um bom mistério, com a presença dos 4 personagens centrais da Turma aparecendo de forma interessante logo no início da trama (exceto no caso da Magali, eu achei hilária a entrada dos outros em cena), uma junção de universos dramáticos que funciona bem e que parte de uma coisa simples para explicar algumas novidades visuais na personagem principal da revista. Um pouco mais desse lado hiperativo e com foco duvidoso de Milena aparece na segunda historinha, que não tem nome, mas vamos chamar de “A Lancheira Perdida“. Os fofuchos desenhos de Daniel Mallzhen e o simpático roteiro de Giulia Ebohon brincam com o apego dramático de Magali à lancheira perdida e a abordagem espalhafatosamente metódica de Milena para iniciar a busca. A discussão sobre a falta de foco e a influência do acaso na procura de algo (ou, no universo de Milena, na “investigação” de algo) dá um sabor todo diferente à história.
“Uau! Que lugar maneiro! Valeu, cérebro!“, essa frase de Milena durante um sonho é uma com a qual eu me identifico muito. Aliás, todo o dilema dela aqui em Quase Lá, querendo voltar a dormir e descobrir o que vai acontecer depois naquele sonho, é uma situação com a qual me identifico demais. Essa história de “voltar para um sonho” às vezes funciona, e é ótimo quando isso acontece. Curiosamente, o texto curtinho de Maria Clara Portela fala sobre controle, uma ânsia que a protagonista realmente tem, mas aqui não é exatamente algo negativo, apenas uma vontade legítima — que faz todo sentido para a personalidade curiosa dela — em passar por essa fronteira onírica que os desenhos de Lino Paes deixam ainda mais cativantes e descobrir o que tem dentro de uma caixa. Nem que seja necessário mudar de cama para pegar no sono por mais tempo e encontrar a resposta. Escrita por Emerson Abreu, A Pacificadora é a minha história favorita do volume, uma daquelas aventuras da Denise que é tão absurdamente espontânea que a gente não consegue segurar a risada e que faz amarmos (com uma pitadinha de ranço, por que não?) a personagem. É uma verdadeira aula de desconstrução da hipocrisia nas dinâmicas sociais e deixa claro o falso moralismo para poder atingir interesses pessoais. Aliás, palmas para Aline Dutra por conseguir desenhar tantas carinhas diferentes, de tantos personagens no meio de uma discussão por conta da festa de aniversário da Carminha Fru Fru, para a qual nenhum deles foi convidado…

Das tramas menores da reta final, temos Leitura Dinâmica, onde Maria Del Mar Valenzuela fala sobre suspensão da descrença na literatura e sobre ler rápido, às vezes de qualquer jeito mesmo, apenas para chegar na página/parte tão almejada e se decepcionar com o que leu. Que Bolada e Lição de Casa são historinhas de uma página focadas em ação e piadas rápidas, ambas lidando com um coleguinha tentando ajudar o outro, mas com resultados bem diferentes. Na primeira, com belos desenhos de Reginaldo Almeida, temos uma consequência inesperada das ações de uma bola desenhada com o lápis mágico da Marina, uma piscadela para a ideia de autonomia da arte, depois de pronta, de “jogada no mundo“. Já na segunda, temos o Cebolinha dando uma de esperto para cima da Milena, tentando fazer com que ela o ajude em um plano infalível disfarçado de lição de Física, uma ótima ideia de Emerson Abreu para elencar um novo plano do troca-letras, sem seguir pelos caminhos batidos.
Encerrando a edição, temos Espelho, Espelho Meu, que pega carona no clássico Branca de Neve para discutir sobre autoimagem e insegurança infantil. Eliana Alves Cruz levanta um problema real, que é muito mais presente na realidade das meninas, de um cuidado neurótico com a aparência que parece nunca chegar a um lugar de conforto, de que “está bom“. Essa imagem do “espelho criticador” é o foco do roteiro, que mostra como a negatividade em relação à própria imagem pode isolar os jovens e causar alguns outros problemas emocionais no meio do caminho. A afirmação da beleza pessoal, no final, foi uma sacada quase didática, mas que, para o propósito dessa história, com essa mensagem, acaba sendo ideal. Na página seguinte, na tirinha que fecha a revista, temos uma piadinha muito boa com a bagunça do quarto de Milena e a procura de um livro (vejam só a ironia) chamado Como Manter Seu Quarto Organizado. Esta é mesmo uma primeira edição que diverte, com histórias interessantes, boas piadas e as tão esperadas mudanças para a quinta protagonista da Turma. Se partir daqui e crescer em qualidade, tanto de texto quanto de desenhos, o título tem tudo para ser um sucesso.
Milena #1 e 2 (Brasil, maio e junho de 2026)
Roteiro: Edson Luís Itaborahy, Giulia Ebohon, Maria Clara Portela, Emerson B. Abreu, Maria Del Mar Valenzuela, Raimundo Guimarães de Cerqueira Júnior, Eliana Alves Cruz
Arte: Dennis Oyafuso, Daniel Mallzhen, Lino Paes, Aline Dutra, Emy T. Y. Acosta, Reginaldo S. Almeida, Fernando Luís Campos, José Aparecido Cavalcante
Arte-final: Paulo de Tarso Souza
Design: Bruno Moreno, Marina Ongaro, Helio Rubio
Layout: Felipe Marcantonio
Letras: Lua Azul
52 páginas