O acordo provisório de Donald Trump para encerrar a guerra com o Irã está sendo duramente criticado por alguns de seus colegas republicanos após cópias do documento assinado ontem pelo presidente americano começarem a circular pelo Capitólio nesta quinta-feira.
Um senador republicano classificou o acordo preliminar como o “pior erro de política externa em décadas”. Outro afirmou que algumas das disposições divulgadas pareciam resultado de “mau aconselhamento”. Comentaristas alinhados aos republicanos também romperam com Trump por causa do pacto.
As críticas representam uma rara reprimenda de integrantes do Partido Republicano, que, em sua grande maioria, vêm demonstrando lealdade total ao presidente. No entanto, alguns deles demonstram crescente insatisfação à medida que os efeitos econômicos do conflito com o Irã prejudicam as chances de que vençam as eleições de meio de mandato em novembro, que definirão o controle do Congresso.
Os democratas, que buscam ter maioria em pelo menos uma das duas Casas legislativas, também têm criticado o acordo.
Parlamentares dos dois partidos afirmaram que querem mais informações da Casa Branca. Até a tarde de hoje, assessores do Congresso disseram que não havia ocorrido nenhuma sessão de esclarecimento sobre o acordo ou os planos do governo. Também não havia nenhuma reunião programada.
Parte das críticas mais contundentes ao memorando são relativas à liberação, por parte do governo Trump, de ativos iranianos congelados, à criação de um fundo privado de US$ 300 bilhões para estimular investimentos para a reconstrução do Irã e ao alívio das sanções.
“Reagan está revirando no túmulo”, escreveu o senador republicano Bill Cassidy, da Louisiana, no X. “As ambições nucleares do Irã não foram contidas, e eles aprenderam que ameaçar o Estreito de Ormuz funciona e, sem dúvida, usarão isso a seu favor no futuro.”
Cassidy observou que, antes da guerra, o Estreito de Ormuz, estava aberto e o Irã enfrentava duras sanções. “Agora, 13 americanos estão mortos, as sanções serão suspeitas e os bombardeiros foram interrompidos. Este é o pior erro de política externa em décadas”, acrescentou Cassidy, que perdeu as primárias republicanas em seu Estado para um candidato apoiado por Trump.
Roger Wicker, do Mississippi, republicano que preside a poderosa Comissão de Serviços Armados do Senado, disse temer que o memorando “abra mão, por meio de negociação”, dos sucessos militares dos EUA.
Wicker também afirmou que seria um erro forçar Israel a interromper as ações contra o Hezbollah no Líbano e se opôs à suspensão de quaisquer sanções ao Irã ou ao desbloqueio de recursos iranianos “em troca do mero compromisso do Irã de negociar por mais 60 dias”.
Trump atacou seus críticos em uma publicação nas redes sociais. “Esses tolos, que acham que eu não fui duro o suficiente com o Irã, quando o mercado de ações acaba de atingir um recorde histórico e os preços do petróleo estão despencando, são invejosos, pessoas ruins ou estúpidos. MAKE AMERICA GREAT AGAIN!!!”, escreveu.
O acordo para encerrar o conflito e reabrir o economicamente vital Estreito de Ormuz é, sob alguns aspectos, positivo para Trump, que precisava de uma saída para um conflito que elevou os preços da energia e drenou recursos militares dos EUA. E o acordo definitivo, que ainda será negociado, pode proporcionar ganhos adicionais aos Estados Unidos.
Mas os críticos argumentam que o acordo provisório oferece benefícios significativos ao Irã em troca de conceder aos Estados Unidos duas coisas que eles já possuíam antes: um estreito aberto e a promessa iraniana de não desenvolver uma arma nuclear.
Ben Shapiro, comentarista conservador e apresentador de podcast que anteriormente havia apoiado os ataques contra o Irã, classificou o memorando de entendimento como um “desastre”, mas atribuiu a culpa ao vice-presidente J.D. Vance. Segundo Shapiro, Vance falhou com Trump ao apoiar o acordo.
“Pelo texto, este memorando parece ser um desastre que não alcança nenhum dos objetivos reais estabelecidos pelo governo”, disse Shapiro à Fox News na quarta-feira.
Mark Levin, um dos apoiadores mais vocais de Trump, também rompeu com o presidente por causa do acordo. Nesta quinta-feira, o comentarista conservador da Fox News criticou o senador republicano Roger Marshall, do Kansas, por sugerir que o Irã deveria poder manter mísseis balísticos para fins defensivos.
“Esse homem jamais deveria ser eleito nem para síndico”, escreveu Levin sobre Marshall em uma publicação no X nesta quinta-feira, chamando de “ultrajante” a decisão do governo de não incluir os mísseis balísticos no acordo.
“Minimizar os danos que esses mísseis causam (perguntem aos países árabes o que pensam sobre mísseis balísticos) e a importância de não os incluir em qualquer acordo é totalmente irresponsável”, escreveu Levin. “O Irã é um regime terrorista que matou nosso povo; quantas vezes mais precisaremos ser lembrados disso?”
Ainda assim, muitos republicanos elogiaram o acordo. Em entrevista à KCMO Radio, Marshall elogiou Trump por escolher “um caminho para uma paz duradoura — e não mais uma guerra sem fim” e afirmou que haverá mecanismos de controle sobre como o Irã gastará os recursos recebidos e que o dinheiro não sairá dos contribuintes americanos.
Os parlamentares poderão eventualmente analisar o acordo. Pela Lei de Revisão do Acordo Nuclear com o Irã, aprovada em 2015 após o pacto nuclear internacional firmado pelo presidente democrata Barack Obama, qualquer acordo envolvendo o programa nuclear iraniano e o alívio de sanções deve ser submetido à revisão do Congresso.
O governo Trump tem emitido sinais contraditórios sobre a intenção de fazê-lo, mas diversos parlamentares, incluindo o senador republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul, um aliado próximo do governo, afirmaram que o acordo precisa ser enviado ao Capitólio.