O mercado de crédito privado brasileiro está mais arriscado do que há alguns anos, mas isso não significa que o investidor deva fugir dele — pelo contrário, é justamente nesse cenário que aparecem as melhores oportunidades. Essa é a avaliação de Marcelo Urbano Dias, gestor de crédito privado multiestratégia da XP Asset Management, que destacou a importância de selecionar bem os ativos e ter cautela na montagem das carteiras.
“Eu vejo oportunidade porque o meu trabalho é procurar oportunidade o tempo inteiro para alocar”, afirmou. Segundo ele, depois de anos de juros baixos, o mercado se acostumou a um cenário mais tranquilo, e agora os problemas de crédito devem aparecer com mais frequência simplesmente porque o volume de operações cresceu muito. Ainda assim, ele diz:
“Não vejo ali uma questão sistêmica dentro dos nossos portfólios”
As declarações foram dadas durante participação no programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo.
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Para explicar como lida com o aumento do risco, Urbano usou uma analogia com caminhadas. Segundo ele, um trilheiro experiente pode enfrentar uma rota selvagem mesmo em condições mais difíceis, como chuva, porque sabe como se proteger e seguir em segurança. “Ele sabe lidar com aquilo muito bem”, disse, ao comparar a situação com a de um gestor de crédito experiente diante de um mercado mais arriscado.
A receita, aponta, está em dois pontos principais: cuidado redobrado na entrada das operações e diversificação da carteira. “Muito cuidado na entrada, porque se você errar na entrada é difícil consertar”, afirmou. Para o gestor, errar na escolha inicial de um ativo é o problema mais difícil de corrigir depois. Quando isso acontece, a equipe consegue, na maioria das vezes, recuperar entre 50% e 70% do valor investido, mas raramente recupera tudo.
Crescimento dos FIDCs preocupa pela falta de profundidade técnica
Um dos pontos centrais da entrevista foi o crescimento acelerado dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, os FIDCs. Urbano contou que estruturou seu primeiro fundo desse tipo ainda em 2006, ligado a crédito consignado, e que considera o veículo “sensacional”. O problema, segundo ele, é que a indústria cresceu rápido demais e ainda não tem maturidade suficiente para que todos os investidores saibam avaliar corretamente esses produtos.
Ele alertou que o setor deve fechar o ano com cerca de R$ 100 bilhões em emissões, depois de já ter passado dos R$ 80 bilhões. “É lógico que vai ter problema, é natural. Muita quantidade, a probabilidade de você ter mais problemas aumenta”, frisou, reforçando que isso faz parte do jogo e não significa que o investidor deva evitar a classe de ativos como um todo.
Segundo ele, um erro comum entre investidores é olhar apenas para a valorização da cota subordinada do fundo como sinal de qualidade, sem entender o que está por trás desse número. Ele explicou que essa valorização depende diretamente da provisão para devedores duvidosos definida pelo administrador do fundo, e que esse valor é, em boa parte dos casos, uma escolha discricionária, e não um reflexo real da qualidade da carteira. “Isso não informa absolutamente nada sobre a qualidade do que está entrando lá”, resumiu.
Gestor explica como avaliar corretamente um fundo de recebíveis
Para o gestor, a forma correta de avaliar um FIDC é olhar o fluxo de caixa real do fundo, entender qual é o critério de seleção usado pelo originador dos créditos e verificar se o gestor de fato confere se as informações declaradas são verdadeiras. Ele recomenda acompanhar as chamadas curvas de safra, que mostram a taxa de retorno de cada lote de créditos adquiridos pelo fundo ao longo do tempo, comparando o resultado de cada safra com o custo do próprio fundo.
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Urbano destacou ainda que fundos com prazos mais curtos podem dar uma falsa sensação de segurança. Como a carteira se renova com grande frequência, um erro do gestor em um único mês pode comprometer todo o fundo, já que não existe um colchão de operações antigas para amortecer o impacto. “Se ele errar um mês, já era. O fundo vai por água abaixo”, afirmou.