Nas florestas da região de Chapare, na Bolívia, Evo Morales observa — e espera.
De seu reduto rural num local sigiloso, o ex-presidente e líder histórico da esquerda continua sendo uma força política poderosa enquanto 50 dias de bloqueios em rodovias, promovidos por sindicatos e grupos indígenas, paralisaram o país, deixaram pelo menos 14 mortos e levaram o governo de centro-direita de Rodrigo Paz à beira do colapso.
Em entrevista exclusiva à Reuters por videoconferência, Morales afirmou que tem mantido contato regular com os manifestantes e que a onda de descontentamento popular nas ruas o fez “refletir” sobre um retorno à política, embora diga não estar fazendo campanha ativamente.
Os bloqueios interromperam importantes vias de transporte, deixando caminhões parados e comprometendo o abastecimento de combustível, alimentos e suprimentos médicos.
A agitação começou em resposta à decisão repentina de Paz de cortar subsídios aos combustíveis, mantidos havia décadas, para reduzir o déficit orçamentário do país — uma potência mundial do lítio — em meio à crescente escassez de dólares e às negociações em andamento com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para um pacote de resgate financeiro.
Paz adotou medidas para estabilizar os preços dos combustíveis e posteriormente revogou reformas agrárias impopulares. Ainda assim, os bloqueios continuaram a se espalhar à medida que os protestos evoluíram para um movimento mais amplo de insatisfação. Os sindicatos exigem aumentos salariais, o fim da escassez de combustíveis e dólares, além da renúncia de Paz.
Paz, que assumiu o cargo em novembro de 2025 com o apoio do presidente Donald Trump, como parte de uma estratégia mais ampla para ampliar a influência dos Estados Unidos no hemisfério, acusou Morales — figura emblemática da esquerda que governou o país por quase 14 anos — de alimentar a instabilidade.
Andrés Arauz, do Centro de Pesquisa em Economia e Políticas Públicas (CEPR na sigla em inglês) em Londres, afirmou que o governo tem se apoiado fortemente na narrativa de que Morales é o principal responsável pela crise, numa tentativa de desviar a atenção dos problemas sociais enfrentados pela população. Segundo ele, Paz está “tentando transformar a situação em um confronto político e, basicamente, ganhar tempo”.
Morales é alvo de um mandado de prisão sob acusação de tráfico de menor, relacionado a alegações de que teria tido um filho com uma adolescente em 2016, quando era presidente. Ele nega qualquer irregularidade, classificando as acusações como “fabricadas” e politicamente motivadas.
Na entrevista à Reuters, Morales negou qualquer participação na organização dos protestos, afirmando que a “rebelião indígena” é motivada pelas dificuldades econômicas.
“Pela minha experiência como ex-presidente, quando existe um conflito relacionado a uma demanda social, a responsabilidade é do Estado”, afirmou Morales. Ele acrescentou que Paz fez “compromissos que não foram cumpridos”.
A influência de Morales continua pairando sobre as negociações cada vez mais frágeis conduzidas por Paz para pôr fim aos bloqueios.
Paz adotou um tom conciliador ao iniciar conversas com líderes sindicais na quarta-feira (17), em La Paz. “Precisamos construir a nação, mas devemos fazê-lo aceitando diferentes formas de pensar”, afirmou, pedindo o fim da desconfiança entre as partes.
Uma cidade à beira do limite
Na capital andina de La Paz, situada em grande altitude, instalou-se uma sensação de cerco: restaurantes vazios, hospitais com escassez de medicamentos e supermercados apagando as luzes de balcões de carne já esgotados.
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“Estamos profundamente sufocados”, disse Pamela Espada, gerente regional de uma rede de supermercados. Ela relatou que precisou transportar carne de avião a partir de Santa Cruz e acorda às duas da manhã para procurar ovos.
A disparada dos preços colocou produtos básicos fora do alcance de muitos bolivianos. Desde o início dos bloqueios, o preço do tomate dobrou e o do frango aumentou 70%.
O impacto se espalhou por toda a economia da cidade. Ernesto Olivares, presidente da Associação Gastronômica de La Paz, afirmou que 42% dos restaurantes foram obrigados a fechar. “O esgotamento chegou ao limite”, disse. “La Paz está sendo mantida refém da política.”
A crise também atingiu os hospitais. Os bloqueios tornaram quase impossíveis as transferências médicas, deixando pacientes sem acesso ao tratamento. No principal hospital público de La Paz, pacientes com câncer e seus familiares se reuniram para protestar, entoando o lema: “Queremos viver!”.
Erika Alvarez, cujo irmão luta contra o câncer em Oruro, cidade mineradora situada cerca de 225 quilômetros ao sul de La Paz, chorou ao relatar sua situação.
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“Dizem que ele precisa de quimioterapia, mas em Oruro não há nada, não existem medicamentos. Com esses problemas políticos, com esses bloqueios, não consigo trazer meu irmão para cá.”
Rosario Calle, presidente da Associação de Pacientes com Câncer e Familiares, afirmou conhecer casos de pacientes, especialmente em áreas rurais, que já morreram por não terem recebido atendimento a tempo.
Na capital, há falta de analgésicos essenciais, como morfina e tramadol. “Eles gritam de dor e ninguém sabe como aliviar esse sofrimento”, disse Calle. “O que queremos são soluções. Já basta.”
Morales afirmou que deseja a renúncia de Paz e a realização de novas eleições. Ele alertou que o impasse pode chegar a um ponto de ruptura caso seu movimento seja excluído de futuras eleições, embora tenha enfatizado não apoiar uma escalada do conflito. “Se não quiserem resolver pelo voto, será pelas balas”, declarou.