19.8 C
Brasília
sábado, junho 20, 2026

China calcula risco Flávio com alinhamento a Trump e freio em desdolarização

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

A iminência de uma eleição no Brasil tendo um dos favoritos com sobrenome Bolsonaro virou um ponto de atenção em Pequim. A China calcula os riscos do que seria um governo Flávio, que já deu demonstrações públicas de alinhamento com o governo Trump e pode pôr freio às iniciativas de desdolarização no comércio entre os dois países.

Desde 2009, os chineses são os maiores compradores de produtos nacionais, com domínio de commodities como soja, petróleo e minério. Em 2025, o Brasil foi o país que mais recebeu investimentos do gigante asiático.

Comércio e investimentos não seriam diretamente abalados com um Bolsonaro no poder, avaliam executivos de empresas chinesas, associações e diplomatas ouvidos pela reportagem em São Paulo e em Pequim. Eles definem a relação de companhias privadas brasileiras com a China como sólida e consolidada.

O que preocupa os chineses é a repetição de ruídos registrados na gestão Jair Bolsonaro e um recuo em iniciativas institucionais e de agendas dos governos dos dois países. Um dos pontos críticos é a integração financeira.

No governo Lula, os dois países criaram uma câmara de compensação de moedas. Isso possibilitou o fechamento de negócios e a concessão de empréstimos sem o uso do dólar. O real e o yuan chinês passaram a poder ser convertidos diretamente nas transações entre empresas chinesas e brasileiras.

“Toda noite me pergunto por que todos os países estão obrigados a fazer o seu comércio lastreado no dólar. Por que não podemos usar as nossas moedas?”, disse Lula após o anúncio, em abril de 2023, em Pequim.

Seis meses depois, em outubro, a Eldorado Celulose realizou a primeira transação financiada e liquidada em yuan chinês e convertida diretamente para real. Suzano e Vale fizeram operações semelhantes. As iniciativas são vistas como teste pelas empresas, que ainda mantêm a maior parte das transações dolarizadas.

Outro passo na integração será o governo brasileiro tomar empréstimos no mercado chinês, em moeda local, o que deve ser anunciado no final de junho. Será a primeira vez que o Tesouro Nacional emitirá os chamados “panda bonds”.

O incentivo dos países do Brics para a redução da dependência do dólar irritou Donald Trump. Em 2025, o presidente dos Estados Unidos ameaçou parceiros da China com tarifas se deixassem de usar a moeda americana em transações internacionais.

A medida impulsionada por Pequim de internacionalização da sua moeda blinda o país de potenciais sanções dos EUA. Ao mesmo tempo, diminui o custo para as empresas, com redução no que é gasto com taxas e volatilidade do câmbio.

A visita de Flávio à Casa Branca, em maio, fortaleceu a impressão de que o bolsonarista faria uma gestão completamente alinhada aos EUA.

“O presidente Lula erra ao fechar a porta para os Estados Unidos e simplesmente abrir o Brasil como se fosse uma colônia chinesa”, afirmou Flávio ao jornal Financial Times, em abril.

Declarações como essa deixaram empresas chinesas públicas e privadas apreensivas. As primeiras estão menos temorosas devido ao maior respaldo econômico do regime chinês, e as segundas, em alerta maior.

Há em Pequim o temor de novas tensões como as que ocorreram no governo Bolsonaro. Na mais marcante delas, o ex-presidente proibiu seus ministros de receberem o então embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming. O diplomata publicou, na época, postagens criticando o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que havia responsabilizado o Partido Comunista Chinês pelo início da pandemia.

Apesar das crises, a China seguiu como maior parceiro comercial do Brasil durante a gestão Bolsonaro. O ex-presidente fez uma visita a Pequim, em 2019, e não vetou a tecnologia da Huawei no leilão do 5G, o que era defendido por integrantes do então governo.

O clima eleitoral levou o país asiático a adiar a visita do vice-presidente Han Zheng ao Brasil para a realização da Cosban (Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação). O encontro de diálogo estratégico foi criado no primeiro governo Lula, em 2004. Ele acontece a cada dois anos e é liderado pelos vices das duas nações.

A próxima edição deveria ocorrer até o fim de 2026. Pequim afirma que Han não tem agenda para a viagem, o que pode adiar o evento para o ano que vem.

“O alinhamento direto [da família Bolsonaro] com o Trump assusta os chineses”, afirma o deputado federal Fausto Pinato (PP-SP), presidente da Frente Parlamentar Brasil-China.

Em maio, ele organizou uma missão com empresas chinesas e o embaixador do país no Brasil, Zhu Qingqiao, a cidades do interior de São Paulo, como Votuporanga, Olímpia e Fernandópolis. Pinato diz que tenta convencer a base bolsonarista de que a China é uma boa parceira. “Quem compra são eles e, agora, quem pode trazer fábrica, investir em logística são eles também”.

Para o pesquisador Francisco Urdinez, autor do livro “Economic Displacement: China and the End of US Primacy in Latin America” (Deslocamento econômico: China e o Fim da Primazia dos EUA na América Latina, ainda não lançado no Brasil, em português), o afastamento do Brasil ou de outros países da América do Sul em relação à China é algo improvável.

“A relação atual independe da ideologia dos governantes”, afirma. Ele cita como exemplo o caso de Javier Milei, na Argentina, que atacou a China durante o período eleitoral e manteve parcerias com Pequim ao chegar ao poder.

“No final das contas, trata-se de economia”, afirma Urdinez. Ele cita que há vínculos profundos que são difíceis de serem desfeitos “porque você simplesmente não tem para onde vender o que a China compra”.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de Flávio, que pediu que as perguntas fossem enviadas por e-mail. A reportagem questionou como o pré-candidato pretende estabelecer relações com a China caso seja eleito e como avalia a integração financeira entre os dois países.

A assessoria afirmou que ele não iria responder questões sobre temas específicos antes da divulgação do seu plano de governo.

Questionado pela reportagem, o regime chinês negou temores em relação ao pleito. “China e Brasil são uma comunidade de destino comprometida com a construção conjunta de um mundo mais justo e sustentável. A parte chinesa deseja que as eleições presidenciais deste ano no Brasil transcorram com sucesso”, diz a nota.

[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img