Esse choque já aparece na primeira aventura, Deu Lição, Deu Treta, Sô. A história de Edson Itaborahy acompanha Chico chegando atrasado na escola porque perdeu a noção do tempo, tendo ficado entretido em sua “caça de minhocas“. Toda a construção dessa jornada é hilária, muito bem desenhada por Lino Paes, e culmina em um bilhete da professora Marocas para os pais de Chico, posteriormente alterado por um Saci. A letra feia e o conteúdo do bilhete, que pedia que o garoto levasse para a sala de aula um sapo-boi que arrota, um morcego desorientado e um gambá fedorento, já indicavam que mais confusão vinha pela frente, e o leitor é presenteado com o caos mais legal que se possa imaginar. A discussão central é a falha de comunicação e o peso da obrigação escolar batendo de frente com a ignorância e a literalidade do homem do campo. Chico e seus pais simplesmente levam uma ordem absurda a sério, tamanho é o peso da autoridade do papel escrito. O toque de realismo mágico (folclórico) é muito bem-vindo aqui, e a conversa metalinguística do narrador com o protagonista foi uma escolha de mestre do autor. A escalada cômica da caçada tem um ótimo ritmo em todos os três principais ambientes e, no todo, os desdobramentos vão se superando e nos arrancando boas risadas. Esta é, disparada, a melhor história da edição!
Uma pausa contemplativa e muito fofinha, após o caos de Deu Lição, Deu Treta, Sô, vem com Os Vaga-Lumes Voltaram, onde Chico e Tábata discutem o desaparecimento dos insetos, fazendo a temática central pular da comédia para a ecologia contemporânea e o Antropoceno, focando na poluição luminosa: “Se o lugar é muito iluminado, eles não podem ser vistos!“. Itaborahy entrega um debate ambiental real e urgente, e o uso da “luz noturna natural” na colorização (aliás, palmas para os belíssimos desenhos de Roberto Martins!) cria uma oposição visual perfeita para o roteiro, reforçada pela melancolia na voz de Tábata, ao deitar na cama olhando o brilho dos vagalumes na região e vencendo o medo de dormir no escuro. A escolha do autor em não terminar com uma piadinha, mas com uma frase de caráter poético, foi a cereja do bolo para essa história. E, mais ou menos na mesma linha de observar aquilo que a natureza nos dá, temos a típica “história de vó” (e falo isso no melhor dos sentidos!), entrando na seara do conhecimento ancestral em Vai um Chazinho?. Nesse enredo de João Xavier, Vó Dita receita remedinhos naturais para gripe (limão com mel), dor de barriga (boldo), insônia (maracujá doce) e ansiedade (camomila), até que Chico pede um chá para recuperar a nota em matemática e Vó Dita sai impecável com a solução para esse problema. O único ponto fraco aqui (e bem fraco mesmo) é a arte. Embora sejam expressivos nas faces, os desenhos sofrem com uma diagramação engessada e uma ausência quase total de cenários e detalhes, além de repetição exaustiva de ângulos, empobrecendo a imersão visual em uma história de conteúdo tão rico.
Outras quebras de convenções aparecem em Essa Maçã é Minha (ótima história) e Um Beijinho Sara (a mais sem graça da edição). Na primeira, Rosinha luta contra um macaco para levar uma maçã para a professora. Aqui, a arte de Enrique Valdez se mostra primorosa na diagramação caótica durante a briga com o macaco e na maneira como usa o espaço da roça como possibilidades, terminando com uma demonstração clara de que a garota não é uma “donzela em apuros“. Na segunda, o arquétipo do beijo que cura é testado em diversas situações, assim como o romantismo e algo do idealismo infantil. Há algo bonitinho em todo o conceito, mas eu não gostei muito nem do roteiro, nem da arte. Tocando no assunto da evasão escolar, Com o Colega é uma história bem simples, mas que funciona bem, mesmo sendo levemente repetitiva (e talvez essa sensação seja forte porque é uma trama bem curta). Há uma linha de malandragem por parte de Chico, esquecendo o material escolar, e uma ótima atuação de Dona Marocas, que não encarna a professora punitiva ou raivosa, mas uma mestra que vence o aluno pela exaustão de soluções, cortando todas as rotas de fuga com gentileza e um quê de ironia. Só não gosto da arte de Pandeki, que é bem paradona na construção cênica e pouco expressiva nas expressões físicas e faciais dos personagens.

A visualmente e narrativamente sensacional O Sonho (roteiro de Itaborahy e desenhos de Altino Lobo, ambos afiadíssimos nessa história), traz Zé Lelé voltando exausto da roça, cochilando e sonhando que é capturado por um urubu gigante. A piada final, com a frase sobre banho, é certeira, e me arrancou uma boa gargalhada. Essa historinha, aparentemente “apenas bonita e engraçada“, pode nos ajudar a discutir sobre as teorias de incorporação de estímulos sensoriais externos (aqui, o fedor do próprio corpo) na formação dos sonhos. O cérebro de Zé Lelé cria, por exemplo, um pesadelo ameaçador só para justificar um odor que é muito real, um alerta de que ele precisa fazer algo a respeito. A diagramação das páginas é um espetáculo. Me fez lembrar as antigas e lindíssimas artes à mão que tínhamos antigamente na MSP. Em A Entrevista, Nhô Lau não sabe em que posição do ranking de produção de goiabas ele se encontra. É uma história simpática, com arte bonitinha, mas sem grandes destaques. E fechando a edição, Cuidado com a Onça, uma parceria de Chico e Hiro na procura pela galinha Giserda, que tem uma ótima sequência de reviravoltas e um final inesperadamente hilário.
Chico Bento #1 (2026) está recheada de humor inocente, de interessantíssimas relações entre os personagens e histórias cheias de alma, com ótimas aberturas para conversas e aprendizado. O filtro sépia aplicado na coloração é uma mudança visual que, aparentemente, veio para ficar. Alguns leitores, acostumados com a paleta mais viva e cheia de contraste da 3ª Série da Panini, podem estranhar ou realmente desgostar dessa nuance mais envelhecida das páginas atuais, mas eu, particularmente, adorei. Além disso, esta me parece ser a revista com um melhor equilíbrio de qualidade (alta!) entre texto e arte, comparada a todas as “edições número um” da 4ª Série. Sem dúvidas, é o meu título favorito, até agora!