Segundo a First Street, 79% da capacidade global de data centers está exposta a riscos climáticos agudos, incluindo enchentes, ventos extremos ou incêndios. Olhando para o recorte regional, nas Américas o número é ainda mais crítico e chega a 86%. Na região Ásia-Pacífico, fica em 60%, ante apenas 25% na Europa, Oriente Médio e África em conjunto.
Além disso, o parecer também sinaliza que 54% da capacidade global dos data centers, no momento atual, opera sob estresse crônico de calor ou escassez hídrica.
Olhando para os riscos crônicos, a região com os dados considerados mais alarmantes é a Ásia-Pacífico, onde 89% da capacidade regional já está acima dos limites críticos de operação, na esteira do calor extremo.
Os dados constam no 18º relatório de avaliação de risco da First Street, chamado de “Climate risk in global data center markets”.
A First Street é uma empresa americana sem fins lucrativos especializada em modelagem e quantificação de risco climático. Fundada em 2016, a organização desenvolve modelos proprietários para avaliar exposição a enchentes, calor extremo, incêndios e outros eventos. Os dados produzidos são usados por seguradoras, bancos, fundos de investimento imobiliário e agências governamentais nos EUA e no mundo.
No relatório, a organização mapeou 97 mercados investíveis ao redor do mundo, cruzando dados de capacidade instalada com exposição a riscos climáticos agudos e crônicos.
Nesse sentido, o relatório indica que o risco climático já está dentro do balanço dos data centers, mas ainda não está sendo precificado corretamente.
“Esses riscos não afetam todos os mercados igualmente, criando lacunas crescentes em desempenho operacional, condições de financiamento e resultados de valuation no longo prazo”, diz o relatório.
Os especialistas da casa apontam que o setor está concentrando alguns de seus maiores e mais rápidos hubs em algumas das localizações mais arriscadas.
Virgínia do Norte, Johor e Marselha estão no nível mais alto de exposição, enquanto mercados mais frios e com menor risco, como Helsinki e os países nórdicos, concentram uma exposição menor.
“Em outras palavras, a escala está sendo construída onde as condições operacionais são mais difíceis, não onde são mais fáceis”, diz a First Street.
O cenário se consolida em meio ao boom da demanda por infraestrutura atrelada à expansão da Inteligência Artificial (IA) e da computação em nuvem.
A capacidade global instalada saiu de 33 MW em 2015 para cerca de 114 MW hoje, com projeção de quase dobrar até 2030.
O volume de investimentos também aponta para o mesmo caminho, dado que em 2025 as transações no setor somaram US$ 61 bilhões, e a McKinsey estima até US$ 5,2 trilhões em gastos globais com data centers, equipamentos e infraestrutura de energia até 2030.
Nos cálculos do Goldman Sachs, o investimento (Capex) em IA deste ano chegará a US$ 765 bilhões, com crescimento para US$ 1,6 trilhão ao ano em 2031, totalizando cerca de US$ 7,6 trilhões em investimento acumulado entre 2026 e 2031.
Como o risco climático afeta data centers
Em linhas gerais, o relatório da First Street divide os riscos em dois tipos com dinâmicas financeiras distintas: os riscos agudos e os riscos crônicos.
No caso dos agudos, a organização está considerando eventos como enchentes, ventos extremos e incêndios, que podem gerar interrupções abruptas.
Nesse sentido, um evento extremo pode danificar fisicamente a estrutura, derrubar a rede elétrica externa ou impedir o acesso ao site para manutenção. Quando isso acontece, o data center cai.
Desta forma, os custos são imediatos: paralisação de operações, acionamento de seguros, despesas emergenciais e danos à reputação junto a clientes corporativos com acordos de nível de serviço (SLA, na sigla em inglês).
A instituição aponta que, historicamente, grandes enchentes nos EUA geraram perdas seguradas na casa dos bilhões de dólares, com prêmios de seguro subindo nos ciclos seguintes.

Já no caso dos riscos crônicos, a First Street analisa o calor persistente e a escassez de água, que são fatores que atuam de forma mais perene e silenciosa – mas que podem ser igualmente destrutivos em termos financeiros.
A visão é de que uma temperatura ambiente elevada reduz a eficiência dos sistemas de resfriamento e aumenta o consumo de energia, ao passo que a escassez de água limita a capacidade de refrigeração ou eleva os custos operacionais.
Assim, com o tempo, esses fatores podem comprimir as margens das empresas, além de encurtar a vida útil dos equipamentos e encarecer a operação como um todo em um horizonte de longo prazo.
No limite do calor
Os dados indicam que 54% da capacidade global de data centers já opera em ambientes que ficam acima dos limites de calor ou seca.
Os limites definidos são de:
- 50 ou mais dias por ano acima de 32°C
- Períodos de seca superiores a 15 semanas consecutivas
Em um dos dois cenários acima (ou em ambos simultaneamente), as premissas operacionais dos ativos já deixam de valer, dado que os data centers passam a funcionar em condições piores do que foram projetados para suportar.
Na Ásia-Pacífico, o dado sobe para 89% da capacidade regional. Nas Américas, 50%. Na EMEA (Europa, Oriente Médio e África), 46%.

Casos reais
O relatório apresenta dois estudos de caso para ilustrar como esses riscos se materializam na prática.
No primeiro caso, a First Street detalha um caso ocorrido no Texas durante o ano passado, quando enchentes severas comprometeram subestações e linhas de transmissão em um dos maiores mercados de data centers dos Estados Unidos.
Os sites que sobreviveram fisicamente tiveram que operar com geração a diesel por dias, com custos crescentes de combustível e dificuldade de acesso para equipes de manutenção.
O impacto financeiro se traduziu em interrupções de negócios, custos operacionais emergenciais, acionamento de seguros e perspectiva de prêmios mais altos em um futuro breve.
O outro caso citado pela organização é mais antigo, antes do boom da IA.
Trata-se de um caso que remonta ao ano de 2022, quando as temperaturas ultrapassaram os 40°C no Reino Unido, ficando mais de 1,5°C acima do recorde histórico anterior.
Nesse caso, o calor foi suficientemente alto para fazer os sistemas de resfriamento dos data centers do Google e da Oracle em Londres entrarem em colapso.
Além do dano físico, essa onda de calor causou horas de interrupção em serviços de nuvem usados por empresas ao redor do mundo.
Segundo a First Street, o custo de interrupção dos data canters em um cenário de grande escala e grande uso pode representar de centenas de milhares a centenas de milhões de dólares por hora.
Onde o risco climático é maior
O mapeamento aponta que Johor (Malásia), Singapura, Batam (Indonésia), Marselha (França) e Virgínia (EUA) lideram o ranking dos mercados com maior risco climático composto.
Por outro lado, os mercados mais seguros são:
- Estocolmo (Suécia)
- Londres (Reino Unido)
- Copenhague (Dinamarca)
- Toronto (Canadá)
- Bogotá (Colômbia)
- São Francisco (EUA)
- Amsterdã (Holanda)
- Montreal (Canadá)
- Oslo (Noruega)
- Dublin (Irlanda)
Os riscos crônicos são mais latentes nas regiões que já enfrentam calor e restrição hídrica estrutural, como localidades no sul dos EUA, sul da Europa, Oriente Médio, Índia e Sudeste Asiático.
Já os riscos agudos se agrupam em regiões costeiras e com alta incidência de incêndios, como o sudeste da América, o corredor de incêndios do oeste dos EUA e regiões expostas a tufões no Leste e Sudeste Asiático.
Sem preço certo
A avaliação é de que o mercado ainda não precificou corretamente o risco climático.
A organização atesta que o capital está sendo direcionado aos mercados mais arriscados como se os fundamentos fossem equivalentes aos de mercados mais seguros, mas não são.
“Isso cria uma lacuna de precificação. O capital continua fluindo para os mercados de maior exposição, mas os retornos exigidos, as estruturas de seguro e os modelos de subscrição não se ajustaram completamente. O resultado é um descolamento crescente entre os valuations atuais e a exposição ao risco físico prospectivo”, diz o relatório.
A tese é de que dois mercados com o mesmo custo de energia e a mesma conectividade de rede podem ter perfis de retorno ajustado ao risco muito diferentes por conta das questões climáticas.
Para investidores e credores, o relatório frisa que o risco climático precisa sair da categoria de “cenário de estresse” e entrar como variável de base nos modelos de instituições financeiras.
Isso incluiria ajustar as premissas operacionais, testar downtime e disponibilidade de seguros sob diferentes cenários, e diferenciar mercados pela confiabilidade de longo prazo da infraestrutura.
“À medida que o capital flui para mercados estabelecidos e emergentes, a localização determinará cada vez mais quais data centers entregam a capacidade computacional para a qual foram construídos, e quais ficam silenciosamente abaixo do desempenho esperado durante a vida útil do ativo.”