Primeira menina negra a entrar para o núcleo central do bairro do Limoeiro (ou seja, o quarteto clássico formado por Mônica, Cascão, Magali e Cebolinha), Milena chegou aos quadrinhos da MSP em janeiro de 2019 (embora tenha sido criada dois anos antes) bastante engessada, sendo chamada de “personagem-cota” porque basicamente existia para o estúdio bater no peito e dizer que tinha feito sua parte na “representatividade“, mesmo que os roteiros com a Milena fossem, na maioria das vezes, um encaixe narrativo difícil de engolir e a personagem carecesse de personalidade, de defeitos e de uma similaridade artística que a aproximasse dos outros personagens. Não foi uma caminhada fácil, mas entre idas e vindas, reclamações (muitas válidas e necessárias, outras apenas nojentas e racistas) e mudanças progressivas, chegamos ao lançamento da revista solo da personagem em maio de 2026, com um número muito grande de acertos e um enorme potencial pela frente. Nesta segunda edição, sinto que o projeto geral deu uma pequena esfriada. Não dá para defender, por exemplo, as histórias solo e meio sem graça de Denise (Nada de Babado Novo?) e Dudu e Binho (Quem é Mais?), que poderiam facilmente dar lugar a uma trama de cinco páginas com a própria Milena, trazendo algo que já se mostra realmente necessário no título: histórias maiores.
Com a (talvez) polêmica — mas que eu continuo adorando, e não é pouco! — arte caricata de Denis Oyafuso, A Ameaça das Três “Tês” abre a edição com Mônica e Magali correndo em pânico das meninas do bairro das Pitangueiras (Penha, Agnes e Sofia), descrevendo o trio como lendas aterrorizantes (temida, tenebrosa e terrível), algo que não afeta Milena, já que ela não cresceu no Limoeiro e não teve contatos assustadores com a temível tríade. Por isso mesmo é que ela enfrenta as três tês apenas usando lógica e improviso, e o roteiro faz isso reforçando o lado cômico de toda a situação, discutindo, a tiracolo, como a desinformação e o bairrismo inventam narrativas de terror em torno do desconhecido. Curiosamente, essas mesmas narrativas derretem no segundo em que alguém de fora se recusa a participar do pavor coletivo. Só não gostei muito do uso da prima chorona do Cascão (Tonica), mas de resto, acho que a história se sustenta muito bem. No mesmo nível também está a trama seguinte, Um Pouco Antes, onde Mônica sofre com um “azar cronológico“, chegando sempre segundos atrasada para os melhores acontecimentos do dia, uma ótima tradução infantil que Edson Itaborahy faz da síndrome de FOMO (Fear of Missing Out), o medo de ficar de fora. A virada cômica vem, claro, cheia de ironia: no único momento em que a dentucinha é pontual, ela acaba sendo realmente prejudicada, tomando um banho de tinta azul. Tem dias que realmente a gente não deve se levantar da cama, né?

Um dos objetivos do projeto editorial desse título (na verdade, de toda essa fase da MSP, com novas “edições número um“, iniciada em maio de 2026) é trabalhar cenas da vida, conflitos, estilos e vícios da Geração Alpha, e Nada de Babado Novo? trabalha diretamente com isso, destacando o foco em telas. Aqui, a fofoqueira-mor monitora o Limoeiro por um circuito de câmeras montado pelo Franjinha, mas aí o sistema cai e ela entra em abstinência por não poder acessar a linha do tempo de fofocas ao vivo. Apesar de achar o vocabulário de Denise muito forçado em alguns balões, achei maravilhosa a alegoria do capitalismo de vigilância que João Xavier nos dá de presente aqui, com a protagonista encarnando as big techs e sua dependência patológica por dados. Sem contar que o Franjinha criou todo um aparato ilegal de espionagem pelo bairro, não tem outra forma de dizer isso. Pena que a história é curta demais. A premissa de um apagão digital pede uma trama bem maior.
A primeira história de respiro da edição é Conversa, traminha de uma página que mostra Milena tentando contar algo para diferentes amigos e sendo cortada a cada instante por coisas que são mais importantes para Magali (comida), Cascão (trovão), criando aqui uma fábula sobre a dificuldade de comunicação e sobre como o instinto primitivo de algumas pessoas não tem limites, conseguindo falar mais alto do que as regras básicas de uma interação civilizada entre amigos. Talvez uma expansão disso venha em Enrolado, um texto inteligente de Mário Mattoso que traz Jeremias na maior tranquilidade, querendo resolver suas palavras-cruzadas, e a esperteza egoísta e desrespeitosa do Cebolinha, que mesmo o colega tendo dito que não queria brincar, é forçado, sem perceber, a engajar no tempo e nas vontades imediatas do troca-letras. É basicamente a briga entre vida contemplativa e vida caótica, o intelecto parado contra o corpo em movimento violento.

A economia da atenção que está presente na edição inteira tem a sua versão mais ácida (embora eu não goste do roteiro, acho ótima a temática que ele discute) em Vídeo Para Tik-Tak, onde Jeremias grava piadas para as redes, vê o vídeo “arruinado” pela passagem do Sansão (que o atinge em cheio), e descobre que a desgraça viralizou. Então ele faz o que um criador médio de conteúdo faria hoje: decide surfar na fórmula e se especializar em “violência física acidental” para ter mais engajamento. É praticamente uma corrupção moral relâmpago de Jeremias, que larga a criatividade para explorar o próprio sofrimento (e de maneira falsa, pois no final é revelado um dublê de espuma), abandonando a curadoria — “sem graça“, mas ainda assim, artística, pessoal, verdadeira — para ganhar com a satisfação maldosa (schadenfreude) do algoritmo. A pior história da revista vem logo a seguir: Quem é mais?, que encena a quase ritualística competição masculina por validação, com Dudu e Binho disputando velocidade, altura de pulo e coragem para roubar o coelhinho da Mônica. Acho a trama fraca, não gosto dos diálogos, não gosto dos desenhos, mas o tema em discussão dá pano pra manga.
O vício em telas volta à tona e ganha um capítulo irônico em Hum, Hum!, agora com Denise sendo esnobada por uma Milena grudada no celular, que não presta atenção em quem está falando com ela (e é claro que há um termo para isso: phubbing). A virada de jogo do roteiro de João E. A. Xavier é ótima, fazendo a tagarela intocável ser tratada como ruído de fundo. O jeitão zumbi de quem está vidrado no celular também se faz presente aqui, na arte, e a ótima piadinha final mostra como até mesmo em situações difíceis de contornar, Denise encontra um jeito sacana de se dar bem (a propósito, a citação aos Tombanianos, que aparecem na primeira história da revista, foi certeira!). Por fim, temos Só Uma Brincadeira, uma história muito bacana que tem cara de boba. Ela é uma sátira da fórmula batida da casa, trocando os objetos absurdos dos planos do Cebolinha pela esperteza social de Milena, usada de forma irônica. Rai Guimarães oculta do leitor o passo do meio do enredo e consegue o riso a partir daí, pulando direto da zombaria falsa do Cebolinha, quando ouve o plano de Milena, para a humilhação dele e dos outros meninos, que colocam o tal plano em ação. O contraste entre a malícia boba do garoto e a inocência subversiva de Milena rendeu uma história que faz a gente rir, mas que parece faltar algo. Principalmente na arte de Ricardo Roásio.

Essa segunda edição de Milena mantém de pé o que interessa, mesmo quando tropeça nas histórias menores e nessa sensação de que muita coisa boa foi espremida em poucas páginas. O título já provou, na edição anterior e em algumas histórias dessa edição aqui, que tem condições de elencar e explorar assuntos socialmente relevantes de maneira leve, cômica e engajante. A leitura crítica da Geração Alpha continua afiada (e necessária), falando, nesta edição, de vigilância, viralização e vício em telas sem tom professoral ou moralismo barato. Acho que ter duas histórias grandes faria muito bem à série (e digo o mesmo para todas as outras revistas solo da MSP, só para deixar claro), já que essas traminhas menores tendem, na maioria das vezes, a quebrar o ritmo e ter pouca ou nenhuma graça. O caminho de Milena ainda é longo, mas dá para sentir que a casa finalmente entendeu o que tem em mãos. Antes tarde do que nunca. Para os otimistas, agora é esperar (ou torcer?) pelo melhor.
Milena #2: A Ameaça das Três “Tês” (Brasil, junho de 2026)
Roteiro: João Eduardo A. Xavier, Edson Luís Itaborahy, Luciana Luppe, Mário Mattoso Neto, Raimundo Guimarães de Cerqueira Júnior
Arte: Denis Y. Oyafuso, Reginaldo S. Almeida, Roberto Martins Pereira, Kanton, Wellington Dias, Ricardo Roásio, Lino Paes
Arte-final: Paulo de Tarso Souza, Cleber Salles, Fernando Dalle, Cristiane Colheado
Design: Mariangela S. Ferradás, Whitney Machado, Helio Rubio
Letras: Danilo Batista, Lua Azul
52 páginas