A decisão de fazer de Supergirl o segundo filme do novo Universo Cinematográfico DC é inusitada, mas também uma espécie de resposta emocional ao Superman recente de James Gunn. Se aquele filme funcionava como um retorno colorido, esperançoso e quase clássico ao maior super-herói dos quadrinhos, este aqui parte do material-fonte Supergirl: Mulher do Amanhã, HQ de Tom King e Bilquis Evely, para caminhar na direção oposta, com menos da mitologia luminosa do salvador que olha para cima e mais a ressaca cósmica de uma sobrevivente que viu tudo ao seu redor morrer.
Isso já dá à produção dirigida por Craig Gillespie uma identidade bastante interessante dentro desse DCU ainda em formação. Afinal, Kara Zor-El não é simplesmente “a prima do Superman”, ainda que o filme, claro, nunca consiga fugir completamente desse peso simbólico. A diferença fundamental entre os dois está na origem emocional. Kal-El foi criado no Kansas, por pais amorosos, entre milho, valores humanos e aquela pureza meio antiquada que Gunn soube resgatar sem transformar em piada. Kara, por sua vez, tem um trauma maior e mais próximo da destruição de Krypton que dá base dramática para a persona caótica, perdida e meio maluquinha dessa versão da heroína.
A trama começa com Kara (Milly Alcock) celebrando seu 23º aniversário em uma jornada errática pela galáxia ao lado de Krypto, o supercão que, depois de roubar cenas em Superman, volta aqui como elo afetivo e não apenas como mascote digital fofinho para vender brinquedo (embora, vamos ser sinceros, também seja isso). A ideia de uma kryptoniana buscando planetas de sol vermelho para beber, brigar e fugir de si mesma é uma ótima inversão da imagem tradicional da personagem. A ausência temporária de poderes nesses ambientes não é só uma desculpa narrativa para vulnerabilizá-la (uma conveniência necessária e positiva à trama), mas também uma escolha temática sobre Kara procurar lugares onde possa sentir algo que não seja responsabilidade.
É nesse estado de fuga que ela encontra Ruthye Marye Knoll (Eve Ridley), uma jovem que a convoca para uma missão de vingança contra Krem dos Montes Amarelos (Matthias Schoenaerts), figura que encarna uma vilania de pirata espacial com contornos de faroeste sujo. Há uma pegada meio Bravura Indômita na dinâmica de uma menina determinada, um herói emocionalmente quebrado e uma jornada de vingança com reflexões sobre moralidade e trauma. A diferença é que, no lugar do oeste poeirento, temos planetas estranhos, bares intergalácticos, motocicletas espaciais, criaturas bizarras e aquele gosto de ficção científica/ópera espacial meio bagunçada que o cinema de super-herói anda tentando recuperar desde Guardiões da Galáxia.
O grande mérito do roteiro de Ana Nogueira está em compreender que a história de Kara precisa ser de deslocamento e escapismo para um arco de redenção e reencontro. Tudo bastante simples e previsível, mas também honesto e direto. Gosto de como o texto não busca só fazer da Supergirl uma anti-heroína “edgy” apenas para parecer adulta, o que seria muito fácil e provavelmente insuportável. O que existe de melhor aqui é uma melancolia genuína por trás da pose, com Milly Alcock sendo um bom centro gravitacional do filme.
Eve Ridley, como Ruthye, tem uma função ingrata, pois precisa ser a consciência moral e, ao mesmo tempo, a faísca narrativa da jornada. O filme acerta quando coloca sua seriedade em contraste com o cinismo de Kara, mas nem sempre consegue dar à personagem uma vida própria para além da sua função de catalisadora. Ruthye é importante para a jornada da protagonista, sim, mas há momentos em que ela parece mais uma tese temática ambulante sobre vingança do que uma criança tomada pela dor. Ainda assim, gosto da dinâmica da dupla. Matthias Schoenaerts, por sua vez, compõe Krem como um vilão fisicamente ameaçador e visualmente marcante, mas o personagem sofre de uma limitação bastante comum nesse tipo de aventura, se tornando mais eficiente como motor da trama do que como presença dramática. Existe crueldade, existe perigo, existe uma boa composição visual, mas falta uma camada a mais para que Krem se torne memorável e menos genérico.
Já o Jason Momoa como Lobo é exatamente o tipo de escalação que parece óbvia demais para dar errado e barulhenta demais para funcionar plenamente. Em doses pequenas, o personagem injeta energia, humor e uma fisicalidade cartunesca que combinam com a proposta cósmica do filme. Momoa entende o exagero do papel e abraça o absurdo sem muita cerimônia. O problema é que Lobo também ameaça deslocar o tom sempre que aparece, como se carregasse consigo um filme paralelo, mais debochado, mais sujo, mais interessado em testar a reação do público para futuras aparições do personagem do que em servir organicamente à jornada de Kara. Não chega a comprometer a experiência, mas há momentos em que a produção parece pausar sua história para anunciar que o DCU tem mais brinquedos na prateleira.
A participação de David Corenswet como Superman é usada com parcimônia, o que é uma decisão acertada. O filme sabe que Clark não pode tomar o espaço de Kara, mas também entende que a comparação entre os dois é inevitável e, mais do que isso, dramática. O contraste entre o olhar gentil de Superman e a visão desconfiada de Supergirl é um dos melhores elementos conceituais da obra, ainda que pouco trabalhado (quem sabe na sequência da família Super).
Visualmente, Supergirl é mais interessante quando abraça sua natureza de road movie espacial. Gillespie, que já demonstrou gosto por personagens marginais em filmes como Eu, Tonya e Cruella, parece confortável em filmar Kara como alguém sempre em trânsito, nunca pertencente a lugar algum. Os planetas, bares, naves e criaturas formam um universo que dá ao filme uma personalidade própria dentro do gênero. Depois de tantos longas de super-heróis visualmente pasteurizados, é bom ver uma produção tentando construir texturas, sujeira, figurinos gastos, cenários com aparência de uso e uma galáxia menos limpa do que a promessa institucional dos heróis da Terra.
Sinto, no entanto, a falta de um dedo maior de criatividade à la Gunn para tornar a obra mais visualmente divertida. Inclusive, as cenas de ação são irregulares. Há momentos de boa inventividade, especialmente quando a câmera tenta refletir o estado emocional caótico da protagonista, mas nem sempre a execução acompanha a ambição. Algumas lutas têm peso e energia, outras escorregam para aquela familiaridade barulhenta de blockbuster contemporâneo, com muitos corpos voando, explosões e cortes sem impacto.
Para além da falta de mais boas set-pieces, outro problema de Supergirl está na tensão entre adaptação autoral e peça de franquia. O filme quer ser uma história fechada sobre trauma, vingança e amadurecimento, mas também precisa estabelecer futuro, vender personagens, reposicionar Krypto, lembrar Superman, testar Lobo e provar que o DCU não foi um acerto isolado com o filme anterior. A boa notícia é que, na maior parte do tempo, Gillespie consegue impedir que tudo isso esmague Kara. A má notícia é que sentimos a engrenagem funcionando. Não chega a ser o caos expositivo de universos cinematográficos fracassados, mas há uma camada industrial muito visível, como se o filme estivesse o tempo todo negociando entre contar sua história e justificar sua posição no calendário da DC.
Ainda assim, seria injusto negar o quanto Supergirl se destaca por sua protagonista e por sua compreensão básica do que diferencia Kara de Clark. O filme não tenta repetir Superman com uma heroína feminina, e esse talvez seja seu maior acerto, apostando na simetria e no contraste dos personagens. Também vale pontuar que a pegada meio “episódica” e autocontida da obra conta bons pontos para a experiência.
No saldo final, Supergirl é um bom filme, ainda que menos forte do que poderia ser. É mais interessante como estudo de personagem e como contraponto emocional a Superman do que como aventura de vingança espacial propriamente dita. Mesmo entre tropeços, Supergirl confirma que o novo DCU tem um conceito tonal mais solto. Superman abriu as portas com esperança, cor e humanidade. Supergirl entra por elas cambaleando, bêbada, ferida e desconfiada, mas ainda capaz de olhar para alguém em dor e decidir agir como uma boa heroína.
Supergirl – EUA, 2026
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Ana Nogueira
Elenco: Milly Alcock, Matthias Schoenaerts, Eve Ridley, David Krumholtz, Emily Beecham, David Corenswet, Jason Momoa
Duração: 108 min.