Nos últimos dois meses, discussões em torno da existência de vida inteligente fora da Terra ganharam força, reflexo de uma onda de avistamentos e documentos oficiais sobre OVNIs divulgados pelo governo norte-americano. Foi no dia 11 de junho que todo o assunto foi coroado com o lançamento do filme “Dia D” (“Disclosure Day”, no inglês), do diretor Steven Spielberg. O longa acompanha Daniel, um especialista em cibersegurança de uma ONG (Josh O’Connor) e Margaret, uma garota do tempo do telejornal de Kansas City (Emily Blunt) em uma empreitada para divulgar a verdade sobre a vida extraterrestre.
Spielberg é conhecido por seus filmes que abordam a existência de ETs, incluindo “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (1977), o clássico “E.T. O Extraterrestre” (1982) e “Guerra dos Mundos” (2005). O diretor afirma, no entanto, que a nova produção é inspirado por avistamentos de OVNIs e pelas crenças dele mesmo, sem se posicionar como revelador de alguma espécie de verdade.
O filme ganha relevância especial por ter sido lançado paralelamente à maior divulgação já realizada sobre arquivos envolvendo fenômenos aéreos não identificados (UAPs). Em 2026, o Pentágono levou a público três levas de arquivos até então secretos que observam a suposta aparição de objetos em diferentes lugares do mundo e até mesmo na Lua, durante uma missão da Nasa. Nacionalmente, o drama também é lançado logo após a repercussão do caso do influenciador Mayk Leão, que viralizou nas redes após supostamente ter avistado um OVNI em seu sítio no Paraná.
Com orçamento de US$ 115 milhões, “Dia D” chegou aos cinemas como uma das maiores promessas da ficção-científica. Nesta análise, a Forbes Brasil mergulha nos principais temas e referências por trás do longa. De um lado, a visão de um ufólogo ajuda a entender quais teorias e fenômenos inspiraram a construção da narrativa de Spielberg. De outro, um astrônomo contextualiza o que a ciência sabe sobre a possibilidade de vida fora da Terra. Fica o aviso: o texto a seguir contém spoilers importantes sobre a trama e o desfecho de “Dia D”.
Os arquivos confidenciais e descoberta de alienígenas
As teorias de que o governo dos Estados Unidos possui informações sobre vida extraterrestre que nunca foram reveladas ao público circulam há décadas. Entre os principais símbolos dessas teorias está a Área 51, uma instalação militar altamente sigilosa localizada no deserto de Nevada. Durante anos, o local foi alvo de rumores sobre a realização de experimentos secretos, engenharia reversa de naves alienígenas e armazenamento de evidências de contatos extraterrestres.
No filme, a trama gira em torno da missão dos protagonistas de revelar ao mundo esses documentos que o governo insiste em esconder e, quando tudo finalmente vai ao ar, relatos de naves espaciais, alienígenas e até mesmo tortura das criaturas são levados a público.
No entanto, o que se sabe até agora sobre o tema não envolve a existência de vida extraterrestre. As centenas de arquivos divulgados pelo Pentágono a mando do presidente Donald Trump envolvem principalmente o avistamento de objetos voadores não identificados (OVNIs).
“Não existe comprovação científica de vida fora da Terra, nem mesmo bactérias e seres microscópicos, quanto mais seres complexos como seres humanos”, explica Prof. Dr. Rodolfo Langhi, coordenador do Observatório de Astronomia da UNESP. “Temos algumas limitações: nossos equipamentos ainda não são tecnologicamente avançados para encontrar o que estamos buscando. E os cientistas buscam vida do modo como a conhecemos aqui na Terra. O que define a vida senão os mesmos elementos químicos em várias coisas? O grafite tem carbono, e o ser humano também; por que o grafite não é vivo? Ainda não temos uma definição tão clara assim do que é vida, porque a única vida que conhecemos como referência é a nossa.”
O astrofísico ainda acrescenta que esta é uma das principais razões pelas quais os cientistas procuram planetas similares à Terra, com água, carbono e gases — as chamadas bioassinaturas.
A respeito de diferentes avistamentos de OVNIs nos céus, Langhi afirma que uma parte pode ser explicada por fenômenos astronômicos e atmosféricos, ou podem ser balões de meteorologia. “Os balões estratosféricos de meteorologia são brancos e brilhantes; quando bate o sol, eles brilham muito e ficam bem visíveis no céu. Alguém pode olhar e achar que é um disco voador. Uma parte desses vídeos não tem como explicar; sabemos que não é um avião nem um drone, mas também não significa que seja um disco voador”.
Ex-presidente Richard Nixon
No longa, quando os arquivos confidenciais são finalmente divulgados, entre os vídeos aparece o ex-presidente americano Richard Nixon mostrando corpos de extraterrestres para alguém. Apesar de não existirem provas de que isso tenha realmente acontecido, relatos da ex-esposa de Jackie Gleason, comediante e entusiasta de ufologia, indicam que ele tenha sido convidado por Nixon para visitar a Base Aérea de Homestead em 1973, com a premissa de ver corpos de extraterrestres.
Forma corpórea dos alienígenas
Segundo Marco Antonio Petit, presidente da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), a forma corpórea dos alienígenas mostrada no filme é o que a ufologia chama de Grey, que são seres de cabeça volumosa e olhos negros, com membros raquíticos. A base para essa ideia, segundo ele, vem justamente de relatos de possíveis avistamentos dessas criaturas, mas a ufologia estuda a possibilidade de existirem várias raças e padrões.
Langhi reforça a ideia de que a natureza que conhecemos por si só já apresenta uma imensa diversidade de formas, até mesmo entre seres humanos. “Os ETs, sempre que aparecem em filmes ou em supostos relatos, são todos muito parecidos, não usam roupa… Eles vêm de lugares tão diferentes do universo, e são todos iguais?”
Discos voadores e sinais de rádio

Nos arquivos também aparecem discos voadores e naves que teriam caído na Terra, incluindo dois dos casos mais emblemáticos da ufologia mundial: Roswell e Kecksburg. O caso de Roswell, de 1947, se deu quando um fazendeiro encontrou destroços na região que pareciam partes de um disco voador, afirmação que logo foi desmentida pelas autoridades. Já o incidente de Kecksburg, de 1965, aconteceu quando moradores relataram a queda de um objeto luminoso em uma área de floresta. Enquanto os relatos históricos falam apenas da recuperação de um objeto não identificado, Spielberg vai além e sugere que seres extraterrestres teriam sobrevivido ao acidente e sido resgatados pelos militares.
Os doumentos reais divulgados pelo governo americano incluem avistamentos e captação de sinais ainda desconhecidos nos céus. É comum que, em diversos relatos de OVNIs, radares não consigam detectar esses objetos, mas Langhi explica que, como já aconteceu em alguns casos, esse mistério pode ter a ver com a falta de tecnologia para detectar ou compreender algum sinal natural. Foi o caso da descoberta das estrelas pulsantes que, durante um tempo, foram interpretadas como um sinal de contato alienígena.
“Há cientistas que acreditam que existem seres em outros planetas e existem programas buscando por isso, como por exemplo, o projeto SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), que busca vida inteligente capaz de se comunicar, não seres microscópicos. Há várias antenas pelo mundo inteiro recebendo radiação, mas até agora nenhum sinal com evidência de inteligência foi captado”, explica Langhi.
Outro ponto destacado pelo astronomo é que, mesmo que exista vida inteligente fora da Terra, seria necessária uma tecnologia inimaginável para que o contato pudesse ser feito. “A velocidade da luz é a coisa mais rápida que conhecemos, e ninguém consegue viajar nessa velocidade. Vamos pegar só a nossa galáxia como exemplo, que tem cerca de 300 ou 400 bilhões de estrelas, nebulosas e planetas. O tamanho dela é de 100 mil anos-luz, ou seja, a luz demora 100 mil anos para atravessá-la. Se os extraterrestres quisessem nos visitar, mesmo que morassem na metade do caminho, eles levariam 50 mil anos para chegar aqui — isso se conseguissem viajar na velocidade da luz”.

A peça-chave do filme é o fato de que ambos os protagonistas haviam sido contatados por extraterrestres ainda na infância. Segundo Petit, essa é uma das áreas de pesquisa da ufologia. “Ao pesquisar casos de pessoas abduzidas e contatadas, nós percebemos que essas pessoas já vinham sendo contatadas desde crianças, por volta dos 5 ou 7 anos de idade, exatamente o que o filme mostra.”
Nesses primeiros contatos, o filme retrata as interações acontecendo por meio de animais, como se os extraterrestres utilizassem uma espécie de interferência mental para não assustar as crianças com sua verdadeira natureza. Apenas na vida adulta esses personagens descobrem que, na realidade, estavam diante de um contato extraterrestre. Segundo Petit, essa ideia também dialoga com algumas hipóteses exploradas pela ufologia. Em relatos de supostas abduções, é comum que pesquisadores investiguem a possibilidade de memórias reinterpretadas pela mente, muitas vezes recorrendo à hipnose regressiva para revelar a origem dos contatos descritos. Cientificamente falando, não há nada que indique ou comprove esse tipo de interação.
Um dos pontos centrais também é a forma como os protagonistas se comunicam com os extraterrestres. Enquanto Margaret aprende idiomas diferentes e passa a entrar na mente das pessoas, Daniel entende a linguagem dos ETs por meio da matemática. Essa capacidade de entrar na mente das pessoas também é uma das áreas estudadas pela ufologia, segundo Petit.
“É uma conexão que, na nossa visão pessoal, só pode acontecer por conta da própria natureza real do universo, que estaria ligada à teoria da Unidade, aquela ideia de que todos somos um”, explica Petit. O ufólogo explica, ainda, que uma das áreas de pesquisa envolve justamente essa capacidade dos ETs de se comunicarem por meio da mente, algo que, teoricamente, os humanos teriam perdido em algum momento. Essa é, inclusive, a premissa final do filme escolhida por Spielberg, que indica que os seres humanos tenham perdido essa empatia (conexão) e que os ETs querem restaurar isso em nós.
Langhi explica que, dentro do próprio planeta Terra, a ciência já observou diferentes formas de comunicação na natureza, entre animais, seres humanos e até entre plantas. “Essas comunicações são de diferentes formas, e nem sempre audíveis. Até as formigas, por exemplo, se comunicam por meio de moléculas que são lançadas ao ar, por hormônios e partículas. O filme apresenta um meio de comunicação mais avançado, que é penetrar na mente de seres humanos e também de animais. Então, se a proposta é que existam seres vivos em outros planetas, mais avançados do que nós, pode ser que eles dominem essa maneira de se comunicar a distância, como se fosse telepatia. Mas não tem como saber”.

Outro desdobramento que envolve essa espécie de controle mental se dá por um dispositivo de tecnologia extraterrestre que dá aos seres humanos a capacidade de entrar na mente alheia, bem como projetar aquilo que ela pode ou não ver. O filme retrata que aqueles que estavam por trás do acobertamento dessa existência já faziam uso dessa tecnologia. Sobre esse aspecto, Petit explica que a ufologia acredita nessa capacidade tecnológica muito superior à dos seres humanos, mas que os nós ainda não seríamos capazes de replicá-la.
“O que a gente sabe é que a tecnologia que envolve essas civilizações parece magia frente aos nossos olhos, mas nenhum de nós teve acesso para ter em mãos esse material; o que a gente estuda é, por dedução, que elas poderiam ter essa interferência mental”, explica Petit.
Langhi acrescenta que, nos centros de pesquisas e universidades, ainda não se desenvolveu nenhum tipo de tecnologia nesse sentido. “Temos coisas em desenvolvimento com relação a ondas cerebrais, compreensão de como funciona o cérebro e as memórias, mas o máximo que dá para fazer é jogar sinais eletromagnéticos e receber de volta esses sinais das pulsações eletroquímicas entre os neurônios”.
Segundo o astrofísico, a ciência estuda fenômenos usando fatos comprovados — o que pode ser aprofundado e até mudado com o tempo, como é o caso dos átomos –, mas não aceita crenças sem provas, aspecto no qual entrariam relatos de abdução. “A ciência não é dona da verdade, mas o que quero dizer é que essas crenças não têm aspectos sólidos para fazer uma pesquisa avançada, então fica difícil. São visões diferentes para tentar explicar a mesma coisa.”