Desde os primeiros minutos desta terça-feira, o Ibovespa adotou um desempenho mais negativo, em linha com outros mercados emergentes. A continuidade do movimento de rotação de ações de valor para crescimento reduziu o apetite por risco na bolsa local, o que ajudou a afastar o índice do patamar dos 173 mil pontos novamente.
O Ibovespa chegou a ceder até os 170.538 pontos, na mínima intradiária, mas reduziu as perdas após a divulgação dos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) durante a tarde, que mostraram um resultado abaixo do esperado pelo mercado.
O desempenho negativo de blue chips, no entanto, impediu uma recuperação maior do índice na segunda metade do pregão. Com isso, no término da sessão, o Ibovespa fechou em queda de 0,68%, aos 172.024 pontos, distante dos 173.205 pontos registrados na máxima intradiária. Já no primeiro semestre, a alta da principal referência acionária local chegou a 6,76%, ficando bem abaixo dos 15,44% registrados no mesmo período do ano passado.
As ações ordinárias do Banco do Brasil lideraram as perdas entre as blue chips, com queda de 1,73% e o setor como um todo terminou o pregão no negativo. Blue chips de commodities também encerraram hoje no vermelho: as PN da Petrobras cederam 0,84% enquanto as ON da petroleira recuaram 1,25%, em linha com a queda nos preços do petróleo. Já a Vale remou na contramão da alta do minério de ferro e cedeu 0,26%.
Diante do alívio recente nas pressões inflacionárias globais com a reabertura do Estreito de Ormuz e da queda dos preços do petróleo, o mercado concentrou hoje as atenções nos dados do mercado de trabalho brasileiro e americano, com o objetivo de entender os próximos passos de cada um dos bancos centrais.
Hoje, o Ministério do Trabalho e Emprego informou que o mercado de trabalho brasileiro registrou abertura líquida de 72.960 vagas com carteira assinada, a menor para o mês desde 2020. O resultado ficou abaixo da estimativa mediana de instituições financeiras, que era de 120 mil vagas, o que ajudou a ampliar o ajuste para baixo dos juros futuros no pregão.
Já nos Estados Unidos, o relatório Jolts mostrou que o número de vagas de trabalho ficou em 7,6 milhões em maio, praticamente inalterado com relação ao número revisado de abril, ainda mostrando resiliência. O relatório oficial de empregos (“payroll”) a ser divulgado na quinta-feira deverá dar o tom dos próximos passos do Federal Reserve (Fed) e elevar ou não a chance de uma alta dos juros americanos em setembro.
Em meio às incertezas sobre a trajetória de juros aqui e fora, o co-gestor de renda variável da ARX Investimentos, Alexandre Sant’Anna, avalia que um vetor necessário para a bolsa voltar a atrair recursos estrangeiros é a manutenção dos juros americanos, considerada por ele o cenário mais provável, ainda que uma parcela do mercado veja uma alta de juros como inevitável. “O catalisador necessário é o Fed não subir os juros, enquanto um catalisador ‘suficiente’ é o BC continuar a reduzir os juros. Com a volta dos preços do petróleo, acho que o Banco Central deveria manter o ciclo de queda da Selic”, afirma.
Levando em conta um cenário de manutenção dos juros americanos, Sant’Anna avalia que a perspectiva ainda é de enfraquecimento do dólar globalmente. Porém, se a moeda americana voltar a se fortalecer, o efeito para o Brasil não deve ser tão negativo como antes, já que a bolsa local está descontada, diz.
A retomada dos fluxos de capital estrangeiro, no entanto, deve ser mais “gradual”, como aconteceu no ano passado, e não “esquizofrênica” como ocorreu nas primeiras semanas deste ano, defende Sant’Anna. Em junho, os investidores estrangeiros acumulam saques de R$ 8,7 bilhões em ações da bolsa brasileira, mas ainda mantêm saldo positivo de R$ 32,8 bilhões no ano.
Hoje, o volume financeiro negociado pelo Ibovespa chegou a R$ 16,7 bilhões e a R$ 21,9 bilhões na B3. Enquanto isso, em Wall Street, a alta de techs impulsionou uma valorização forte do Nasdaq, que subiu 1,52%. O dia também foi de ganhos para o S&P 500 e para o Dow Jones, que avançaram 0,79% e 0,26%, respectivamente.