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sexta-feira, julho 3, 2026

Casa da Passarella: premiado enólogo Paulo Nunes revela os segredos do Dão e da vinícola; conheça os vinhos

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Revelar a identidade da pequena região portuguesa do Dão é uma missão para o premiado enólogo Paulo Nunes. À frente da Casa da Passarella desde 2008, Nunes revela que teve que ser adaptar a forma de fazer vinhos da centenária vinícola. O estranhamento inicial foi substituído, ao longo dos anos, pelo respeito à tradição, que produz rótulos únicos. Ele também defendeu a produção de vinhos de cortes e o uso de uvas nativas, um dos maiores tesouros daquele país. Revelou como tem conduzido pesquisas com variedades que podem ser importantes com as mudanças climáticas. Confira a seguir, a entrevista exclusiva ao Saideira, em sua visita ao Rio, e conheça vinhos que ele produz.

O Dão é uma região com uma identidade muito própria e muito vincada. E isso deve-se ao terroir que é muito absoluto e presente no Dão. Todo o Dão é rodeado de montanhas e isso implica um território muito próprio porque nós temos a barreira das montanhas ao Atlântico, mas também temos a barreira das montanhas ao clima continental de Espanha.

Aquele enclave ali no meio, em termos climáticos, é completamente diferenciador do restante território. É evidente que o tipo de solo granítico imprime uma personalidade muito forte aos vinhos, uma mineralidade, um lado mais fresco.

Depois, como é óbvio, olhando para as variedades que nós temos, muitas só existem ali naquele território. Desde, estou-me a recordar, um Barcelo, um famosíssimo hoje Encruzado, a famosíssima Touriga Nacional, toda a origem dessas variedades é daquele território.

Uma variedade não nasce de um dia para o outro, é um defeito genético que acontece muitas vezes. Para haver uma variabilidade em termos clonais, derivar uma casta naquele território, é preciso milhares de anos.

Quando nós falamos de milhares de anos, um território com variedades, implica o fator homem. O fator humano que é a interpretação de tudo isto. O fator humano é muito presente na cultura de fazer vinhos naquela terra, de uma forma tradicional que passa de pai para filho, é geracional. E quando você alia essas circunstâncias quase ambientais pelo território, pelo clima, ao fator humano, você está na presença de uma região única e isso é o Dão de hoje.

Vinhedos da Casa da Passarella, no Dão — Foto: Divulgação / Casa da Passarella

A Casa da Passarella é uma das casas fundadoras da região do Dão. Quando nós olhamos para as datas que nós temos, o Dão nasce em 1908, a região demarcada. A demarcação enquanto Denominação de Origem naquele território é de 1908, a mais antiga de vinhos tranquilos em Portugal. Porque se estamos a falar do Porto, é de vinhos licorosos. Mas de vinhos tranquilos, a D.O. mais antiga de vinhos em Portugal é o Dão.

Ninguém demarca uma D.O. seja de vinho, seja de queijo, seja do que for, sem que haja produtores que façam um produto dentro daquele território, em que nesse território tenha uma identidade muito própria. Em 1908, já havia produtores que tinham características distintas dos restantes. E a Passarella é daquela fase. A primeira safra que nós temos, engarrafada, é a de 1893, anterior à demarcação.

Se nós tivéssemos um sistema, como os franceses de Premier Cru, Grand Cru, os fundadores das regiões, é evidente que a Passarella estaria nesse patamar. Hoje, a Passarella, desses fundadores da região, é a empresa que continua a receber um espírito familiar de gestão. Mantemos esse espírito, não pertencemos a nenhum grande grupo. E isso implica uma coisa muito forte, um lado muito mais humano dentro da Casa da Passarella.

Trabalho com a terceira geração dentro da Casa da Passarella. A pessoa que é responsável da adega, que nós chamamos em Portugal de adegueira, é a terceira geração. Isso é muito importante em termos da preservação do perfil de vinhos. Existe uma memória de fazer vinho naquela adega, naquela vinícola, que nós não podemos desvirtuar. Isso é o nosso capital humano, que é importantíssimo e decisor nos vinhos que temos hoje.

Barricas da Casa da Passarella — Foto: Divulgação / Casa da Passarella
Barricas da Casa da Passarella — Foto: Divulgação / Casa da Passarella

O meu objetivo é que, quando você coloca um vinho dentro da taça, você passe a viajar para aquele território, perceba o território, as pessoas e aquele sítio. A perfeição deve ser a coisa mais aborrecida que existe. Nunca quero fazer um vinho perfeito, deve ser extremamente aborrecido. Quero o vinho com identidade e essa identidade tem que ser um reflexo e uma consequência.

Eu olho sempre para o vinho como uma consequência e não como um objetivo. Eu acho que os vinhos da Passarella têm que ser a consequência de todo o trabalho e de todo este saber fazer, geração em geração. Não objetivo, mas consequência.

Vou dar um pequeno exemplo para visualizarmos com mais facilidade. Há vinhos que nós fazemos desde sempre com o engaço. Hoje volta-se a utilizar outra vez muito a técnica do engaço, de utilização do engaço parcial. Há vinhos que eu, desde que entrei na Casa da Passarella, em 2008, sempre foram feitos desta forma, em lagar de granito, com engaço total.

Confesso, enquanto enólogo, trabalho noutras regiões, com outros produtores, sou consultor. Muitas vezes, sentia que aquilo não me parecia correto na Casa da Passarella, estes processos. Não me parece que faça sentido, mas, provavelmente, o que aconteceu é que eu não estaria readaptado à circunstância e à amplitude de fazer vinhos naquela casa.

E eu hoje acho que sim. O enólogo tem que sempre se adaptar. A estrutura nunca se pode adaptar a ele. O enólogo nunca pode ser parte, nunca pode ser sentido o trabalho na vinícola da parte do enólogo. Tem que ser apenas o intérprete daquelas variáveis que nós temos ali, e não o ator. Ou seja, os atores são a casta, o território, a vinificação.

O enólogo coordena os atores, é como se fosse quase um condutor no sentido de perceber se as coisas estão corretas, mas nunca se pode sobrepor. Eu costumo brincar e dizer que o enólogo na Serra da Estrela tem que ser serrano, em Trás-os-Montes tem que ser transmontano, na Bairrada tem que ser bairradino.

Isso implica pensar como as pessoas daquele território e acho que isso, confesso, isso também me dá particularmente gozo. Temos essa diversidade de pensamento cultural, de fazer vinho em um território muitas vezes tão pequeno e tão circunscrito como é Portugal e termos pensamentos completamente opostos muitas vezes.

Isso é a riqueza cultural de uma matriz de um povo, porque eu acho que se fosse para fazer igual, qual era a piada de estar a fazer o mesmo vinho, de estar a fazer igual em projetos diferentes. Não teria o gosto de fazer aqueles vinhos, com toda a certeza.

Vinhas da Casa da Passarella, no Dão — Foto: Divulgação / Casa da Passarella
Vinhas da Casa da Passarella, no Dão — Foto: Divulgação / Casa da Passarella

Acho que é de moda, e acho que todas as modas vão passar. Gostamos muito hoje da questão do Encruzado. Ela está na moda, e as pessoas pedem Encruzado por ser Encruzado. Mas isso aconteceu com a Touriga Nacional também, há 15 anos. Pediam Touriga Nacional por ser Touriga Nacional. Hoje ela foi perdendo alguma importância em termos de consumo.

E eu quero acreditar, e não é por ser uma casta menor, antes pelo contrário, é de grande dimensão, que com o Encruzado vai acontecer o mesmo processo. E não será por falta de qualidade, ela tem vinhos de grande qualidade, é excelente. Mas a essência do Dão será sempre o vinho de corte, será sempre o vinho feito daquilo que eu chamo de desequilíbrios.

Os desequilíbrios que tornam equilíbrio a soma do field blend (vinhedo plantado com diferentes uvas). A soma de muitas uvas torna o vinho muito mais completo. Acho que essa é a essência do Dão, e vamos melhorar essa essência no sentido do corte quando conhecemos em particular também cada uva. Costumo brincar e dizer que fazíamos croquetes e que é essa história dos croquetes: misturávamos tudo e saía um vinho no fim e o croquete era bom.

Estamos pela primeira vez em Portugal a fazer esse trabalho que é tirar camadas, perceber o que vale cada casta, cada variedade, cada sítio. Quando nós conhecermos isto, é evidente que vamos ter um conhecimento muito maior e é evidente que vamos, na sua essência, fazer vinhos melhores do Dão. Mas acho que mesmo o consumo dentro da região do Dão, há sempre o consumo tradicional, que é sempre com o vinho de corte.

É curioso porque se associa muitas vezes e é pedido o consumo muitas vezes. As pessoas sabem isto de uma forma inata e pedem, no fundo, que são quase as sub-regiões do Dão. E as pessoas sabem que vão encontrar um caráter diferente em Silgueiros, um vinho com bocadinho mais de poder, mais estrutura, porque é a sub-região mais quente dentro do Dão. E quando chegam à Serra da Estrela, vão um bocadinho menos de álcool, menos estrutura, mas mais elegância. As pessoas sabem perfeitamente que o vinho de Silgueiros é de uma forma e o da Serra da Estrela é de outra. É um conhecimento que a região, dentro do consumo, vai preservando.

Vinhedo de Touriga Nacional da Casa da Passarella — Foto: Divulgação / Casa da Passarella
Vinhedo de Touriga Nacional da Casa da Passarella — Foto: Divulgação / Casa da Passarella

A primeira vinha que mapeamos, desde a minha entrada, foi, em 2010, a das Pedras Altas. É um vinhedo com dois hectares, em que temos a georreferenciação de todas as plantas. Sei o nome de cada variedade, a geolocalização, a referenciação de cada uva.

E qual foi o objetivo deste trabalho em 2010? Foi fazer uma cópia desta vinha. Em 2012, plantamos uma cópia exatamente da mesma vinha de dois hectares também, no mesmo terroir. Costumo brincar que agora é só esperar 85 anos para termos provavelmente resultados muito semelhantes, que não temos hoje, de todo.

Ou seja, temos as mesmas castas, os mesmos clones, mas tenho vinhos muito diferentes. Porque são vinhedos mais jovens. Há um fator que muitas vezes nos esquecemos. E isso também me serve de lição para mim e de aprendizagem.

Quando nós plantamos, eu vou dar este exemplo para visualizarmos com mais facilidade. Eu pego Touriga Nacional e planto hoje uma planta no Rio de Janeiro e outra na Serra da Estrela. Provavelmente, amanhã, ainda vai haver alguma semelhança com as duas. Daqui a um ano, vai haver uma diferença muito maior, porque a planta adaptou-se aos estímulos do meio ambiente, ou seja, o estímulo do meio ambiente faz a planta.

Imagina ao fim de 85 anos? O que esse estímulo nessa planta durante 85 anos fez? E de que forma ela que respondeu? Ou seja, estamos a falar do mesmo clone, mas comportamentos completamente diferentes. Só o tempo consegue fazer isso. Só o tempo consegue colocar a planta com menos caráter primário da uva em si, mas muito mais o território que está ali marcado.

Aquele foi o primeiro, mas tenho feito trabalhos sucessivos. O último trabalho que fiz foi com uma uva que será extremamente importante na região do Dão e já o é na Casa da Passarella. É uma variedade autóctone da região, que é a Uva-Cão. É uma uva branca, conhecida pela sua acidez extraordinária, enorme. Era utilizada no passado como curativo ácido com outras. A acidez dela era tão grande que não permitia o equilíbrio por ela só, ou seja, ela era ousada para corrigir a acidez de outras variedades.

Hoje, com a mudança climática, a uva tem um equilíbrio muito maior, e acho que o futuro passa muito por essa uva. Durante a última década, nós fomos aos vinhedos antigos e catalogamos 62 clones de Uva-Cão. São todos os clones existentes conhecidos até hoje. No último ano, plantei um hectare com 62 clones, todos os que encontrei.

Pode-se pensar que há clones melhores, há clones piores, mas não me interessa. O que me interessa é ter uma arca de Noé que me permite, em qualquer circunstância climática, perceber que a adaptação de cada clone é variável em função do estímulo que nós temos. Com as alterações climáticas, os clones provavelmente melhores nos anos 1960 não são os clones que são melhores hoje, em 2026. E acho que isso vai continuar. E para salvaguardar essa riqueza clonal, temos que ter essa Arca de Noé, mesmo com clones que não tenham a qualidade de outros.

Uvas são colhidas na Casa da Passarella, no Dão — Foto: Divulgação / Foto Casa da Passarella
Uvas são colhidas na Casa da Passarella, no Dão — Foto: Divulgação / Foto Casa da Passarella

Preocupa-me o lado aleatório, o lado imprevisível, a roleta-russa, que eu acho que acontece. Se eu tivesse uma previsão que me dissesse assim: olha Paulo, o clima vai mudar um grau por década, subida de temperatura, mas não é isso que nós temos.

Temos um lado completamente aleatório, e isso é assustador. Não dá para trabalhar em termos de previsão com o que aí vem. E como devem compreender, em termos de viticultura, é muito difícil. Planejar um vinhedo, em termos de cultivo, demora 10, 20 anos. E estar a contar com as variáveis de hoje, para daqui a 10, 20 anos, quando não sabemos o que é que vamos ter, é difícil.

Até porque o Dão tem uma particularidade. Quando nós chegamos a regiões contínuas, no Alentejo, em Portugal; ou Mendoza, na Argentina, por exemplo, temos uma constância de território, é mais difícil. Mas o Dão, por exemplo, sempre foi uma região de submaturação. Ou seja, a região tinha baixa maturação. E o que historicamente os agricultores no Dão fizeram? Plantaram as uvas e as vinhas em sítios mais drenados, com menos riqueza hídrica, com exposição a Sul, porque no Hemisfério Norte a exposição a Sul tem mais concentração, tem mais calor.

A vinha foi sempre planejada nesse sentido, num sítio mais quente. Provavelmente, hoje, com a alteração climática, eu tenho que equacionar. Plantar vinhas em solos mais ricos em termos hídricos e em exposições a Norte.

Na Serra da Estrela, os vinhedos não iam além da cota 600 metros. Mas já há vinhedos a serem plantados a cotas mais elevadas. Pensar nos 700, 800, 900 metros de altitude, já está sendo feito. Planta-se cada vez mais alto, mas não é com muita confiança, porque nós não sabemos o tal lado aleatório e não temos muita certeza do que vai acontecer.

Na Casa da Passarella, temos cerca de 200 hectares de terra, na Serra da Estrela. São 60 hectares de vinha. E ao longo de 100 anos, houve um trabalho imenso de selecionar os melhores locais para ter a vinha. Hoje seria impossível fazer este trabalho todo. Era experimentar aqui por 20 anos. Se não funciona, arrancava-se e experimentava-se noutro sítio. Tinha um alto custo econômico.

E depois, há um lado geracional. Estou a fazer uma experimentação num vinhedo, e provavelmente os meus filhos é que vão usufruir. Há um espírito delegado que a Passarella sempre teve também.

Dos sete locais em que temos os vinhedos, desde 2008 até 2026, percebe-se, se calhar, que os vinhedos mais nobres que eu tinha para fazer os melhores vinhos da Passarella, já não são esses. Se calhar, os vinhedos que eu tinha de menos prestígio em 2008 é de onde saem hoje os melhores vinhedos da Passarella.

E esse lado leva-me a trabalhar de outra forma e a equacionar muito o que tem sido feito, quer seja na recuperação de castas mais ácidas, como a Uva-Cão, quer seja, por exemplo, na plantação. Estou a plantar a Baga, que é uma uva que muito diz ao Dão. Ela foi abandonada no passado, no Dão. Muito se fala na Bairrada, mas a Baga é originária do Dão. Estou a plantá-la porque é uma casta muito mais ácida. É uma uva de futuro no Dão. Estou a plantar com os 650 clones conhecidos dela. Ou seja, são 650 clones catalogados e eu estou a plantar esses 650 clones em 4 hectares.

Vinhedo de Baga na Casa da Passarella — Foto: Divulgação / Casa da Passarella
Vinhedo de Baga na Casa da Passarella — Foto: Divulgação / Casa da Passarella

Temos cerca de 200 hectares, maioritariamente é floresta. A floresta é muito importante para nós. Estamos na Serra da Estrela, e a floresta serve de tampão, de alguma forma, a possíveis problemas que eu possa ter. Nossas vinhas não são contínuas, são ilhas no meio da floresta. Quando olho para esses sete vinhedos, olhamos sempre de uma forma isolada.

Imagina que eu tenha um pequeno problema de míldio, de oídio, um problema de fungo. Eu só atuo naquele vinhedo, não nos outros. Porque a floresta é parte integrante e é, de fato, bloqueio de problemas.

E tem outra característica: os vinhos da Passarella mostram a floresta dentro da taça. Se repararmos quando vamos às notas, encontramos muito balsâmico, muita resina, muito pinheiro. São as árvores que temos ali, o bosque que nós temos ali. E isto faz parte, como é óbvio, do nosso terroir.

Paulo Nunes, enólogo da Casa da Passarella — Foto: Divulgação / Casa da Passarella
Paulo Nunes, enólogo da Casa da Passarella — Foto: Divulgação / Casa da Passarella

O mercado e a importância do Japão

Produzimos anualmente cerca das 400 mil garrafas. No último ano, tivemos 50% vendidos para mercado externo e 50%, interno. Temos a exportação muito pulverizada. Para nós, é muito importante o Brasil. Ainda são relevantes os mercados asiáticos, estamos muito bem implantados na Coreia, na Malásia, no Japão. Os Estados Unidos também são importantes.

O Japão, de fato, é provavelmente o mercado de maior importância em termos de valor acrescentado, não de valor absoluto do volume, mas de valor de vendas. É um trabalho que faço de forma contínua, vou ao Japão com regularidade. O mercado japonês é difícil de entrar, muitas vezes, mas depois há uma coisa que é fantástica, que é a fidelização a um produtor. Existe a fidelização a um estilo de vinho, que é o nosso Vila Oliveira Encruzado. É de longe o melhor mercado para esse vinho.

Tem muito a ver com a harmonização. Não é por acaso que o Encruzado teve dimensão no Japão. Lembro-me das primeiras vezes que fui ao Japão, a dificuldade era sempre essa, a questão de harmonizar. Vamos harmonizar isto com comida japonesa, o que fica melhor com o râmen, com o sushi, com o sashimi? No Japão, foi desde logo o branco. O vinho branco e a uva Encruzada.

Lembro-me, há mais de 10 anos, num belo restaurante no Japão, alguém me dizer: “Paulo, repara no seguinte, eu não quero um vinho que perturbe a minha fragilidade gastronômica. Aquilo que produzo e ponho em cima do prato não precisa de ser perturbado pela exuberância de um Sauvignon Blanc. Quero qualquer coisa que harmonize e não se sobreponha. E a nossa fragilidade gastronômica é grande. Quando coloco uma peça de sashimi à tua frente, é uma peça frágil, que não aguenta a exuberância de um vinho. Quero qualquer coisa muito low profile”. E o Encruzado cumpre essa missão.

O Villa Oliveira Uva-Cão — Foto: Divulgação
O Villa Oliveira Uva-Cão — Foto: Divulgação

O Villa Oliveira Uva-Cão é feito com uma uva que estamos cada vez mais a explorar. É extremamente ácida. No Dão, o Centro de Estudos Vitivinícolas de Nelas, foi um centro governamental, no tempo do Estado Novo, que fazia pesquisa na região. E havia um dos grandes enólogos que o Dão teve e a quem hoje muito deve,as castas que nós temos. Estamos a falar dos anos 30, 40, 50, do século passado.

Era o engenheiro Vilhena, que tinha uma correlação muito interessante com a Uva-Cão. Ele dizia que, no corte, a Uva-Cão aumentava a longevidade dos vinhos brancos. Ele dizia que, se colocarmos 5% dela no corte de um vinho branco, aumenta em 5 anos a longevidade. Se aumentarmos para 10%, vai aumentar mais 5 ou 6 anos. E ele parava em uns 25%, que dizia que era o limite máximo da acidez e era o desequilíbrio.

Estamos a falar anos 1940, anos 1950, quase há 100 anos. Hoje, com as alterações climáticas, uso essa uva para fazer esse processo para aumentar a longevidade de outros vinhos. Mas já tenho equilíbrio nesta uva para fazer um vinho varietal. E tem sido um sucesso este vinho. Na última apresentação que fiz deste vinho em um restaurante do Porto, o chef teve a ousadia de fazer o pairing deste vinho com ouriço do mar.

Todo o mundo me fala ainda hoje dessa harmonização. De fato funcionou porque, além da acidez, ela tem uma salinidade que conjugou muito bem. É um vinho que me agrada particularmente. É daqueles vinhos que daqui a 20, 30, 40 anos vão estar melhores ainda do que hoje. E isso para mim também é fator decisor, muitas vezes, dentro do portfólio. A Passarella vive não só com o lançamento dos vinhos de hoje, mas pensando sempre na longevidade de cada vinho que lançamos.

O Villa Oliveira Encruzado — Foto: Divulgação
O Villa Oliveira Encruzado — Foto: Divulgação

O Villa Oliveira Encruzado ganhou três vezes, nos últimos seis anos, o concurso de melhor varietal de Portugal. Costumo dizer que jogar com o Encruzado é como jogar com o Pelé, ou com o Eusébio. É fácil ganhar a Copa quando se joga com o Encruzado porque a uva tem essa dimensão e é fácil termos essa qualidade. E acaba por ser já um clássico da Casa da Passarella.

Villa Oliveira Vinha Centenária Pai D’Aviz

O Villa Oliveira Vinha Centenária Pai D'Aviz — Foto: Divulgação
O Villa Oliveira Vinha Centenária Pai D’Aviz — Foto: Divulgação

O tinto Villa Oliveira Vinha Centenária Pai D’Aviz é um vinho feito de uma vinha que recuperamos, com mais de 100 anos, pré-filoxera. Há uns anos, era uma vinha menor, voltada à Norte, mais abrigada, com mais disponibilidade de água. Tudo era ao contrário há uns anos, e agora está no sítio certo.

Comecei a fazer este vinho em 2017 e temos tido imenso sucesso com ele. Já foi top 10 da Essência do Vinho, já ganhamos uma série de prêmios. O que me agrada particularmente, para além dos prêmios, é que aquele vinho tem uma matriz que é o Dão. Quando falamos no Dão clássico, quando provo vinhos dos anos 1960 mesmo da Casa da Passarella ou dos outros produtores que tenham vinhos dos anos 60, é muito o que tenho ali.

Confesso, muito honestamente, que não sei se é porque os vinhos dos anos 60 tinham em termos climáticos. Se calhar uma semelhança com esta vinha, porque é voltada a Norte, e os desequilíbrios voltaram a ser equilíbrio. Ou seja, são vinhos sempre com 12 graus de álcool, 12,5 de álcool. E para tinto, não é um, não é? Não, não é. Mas o que eu tenho, é curioso, porque muitas vezes este vinho também me ensinou isso, que é, é, eu posso ter vinho, uvas maduras com teor de álcool de 12,5 e posso ter vinhas verdes, uvas verdes, com 15 de álcool.

A vinha tem uma maturação muito lenta, o que, vai implicar em termos de maturação polifenólica uma riqueza enorme. Muitas vezes, nós colhemos quando temos 15 graus de álcool, o que é um fator limitante. Não posso estar a olhar depois a questão da maturação fenólica, os aromas, ácidos. O que me acontece ali? Não tenho esse fator limitante do álcool, porque a uva não produz muito açúcar naquele espaço.

Mas ali é um field blend, com muita uva misturada. Como não tenho um fator limitante, faço sempre vindimas muito tardias. Você olha para o engaço daquela uva, que é um fator de maturação, está castanho. A grainha, que é outro fator, você mete a grainha (semente) à boca e prova a grainha, está crocante.

Eu ali vindimo quando quero. Não é quando o São Pedro quer. Isso dá muito equilíbrio, tenho um vinho de grande maturação fenólica, com 12,5% de álcool, e acho que é muito o que é o Dão Clássico. Encontro isso e fico feliz, pois o consumo vai ao encontro desses vinhos.

Provavelmente, há 10, 15 anos, o vinho não teria o sucesso de hoje. Àquela época, o consumidor queria vinhos com mais álcool, com mais estrutura, com mais madeira, com mais intensidade de cor. O mercado mudou. E fico feliz por ter descoberto e recuperado aquela vinha num momento, se calhar, ideal de consumo para aquele vinho.

O Fugitivo Barcelo — Foto: Divulgação / Casa da Passarella
O Fugitivo Barcelo — Foto: Divulgação / Casa da Passarella

O Barcelo é uma uva que muito diz ao Dão. Em 1900, os franceses construíram a Torre Eiffel para a Exposição Universal de Paris. O rei português mandou fazer uma coisa com Bernardino Camilo Cincinato da Costa, que era engenheiro agrônomo. Cincinato da Costa fez o levantamento de todas as variedades que existiam em Portugal para apresentar na Exposição em 1900.

Ao longo de uma década, fez o levantamento total das variedades todas do país. E quando chegou à região do Dão, ele caracterizou como as duas uvas de maior predominância a Barcelo e a outra chamada Dona Branca. É curioso que, ao fim de 100 anos, praticamente a memória perdeu-se destas uvas na região. O Barcelo praticamente já não existe na região, e a Dona Branca também.

Temos de alguma forma recuperado essa uva porque ela desapareceu não é pela qualidade do vinho que produz, mas sim pela dificuldade na viticultura. É uma uva com baixa produção, e se foi perdendo por aí. Mas é um vinho com uma personalidade muito forte. Não consigo arranjar uma variedade semelhante. Ela tem identidade.

O rótulo deste vinho é uma fotografia retirada desse livro de 1900, do Cincinato da Costa. Este vinho só existe por causa desse livro, provavelmente. É uma produção bem pequena, as garrafas são numeradas. Penso que no futuro elas serão multiplicadas por 10 ou por 100, porque vou continuar a apostar neste vinho.

O Fugitivo Vinhas Centenárias

O Fugitivo Vinhas Centenarias — Foto: Divulgação
O Fugitivo Vinhas Centenarias — Foto: Divulgação

O Fugitivo Vinhas Centenárias é um projeto que nasce em 2010, com uma lógica muito própria. Enquanto enólogo da Casa da Passarella, procuro aprender com pequenos agricultores daquela aldeia, ali à volta. Acho que a forma de as pessoas trabalharem a terra, as suas pequenas parcelas de vinha, é muito diferente do que aprendi na universidade e da agricultura um pouco mais convencional.

Ele é também fruto de outro pensamento adjacente. Pela primeira, vez vai haver uma clivagem em termos de conhecimento geracional, ou seja, os filhos já não estão a aprender com os pais. Quando você chega a uma aldeia do interior de Portugal, os mais novos já saíram todas de lá. Apenas as gerações mais velhas ficaram.

De fato, aquelas pessoas não passaram o conhecimento aos filhos, que já estão nos grandes centros urbanos, de como se faz aquele vinho, como se trabalha aquela terra. Para aproveitar o conhecimento ancestral dessas pessoas, comecei em 2010 a trabalhar com um conjunto de quatro agricultores e deu este vinho. A única coisa em comum eram as vinhas com mais de 100 anos.

Villa Oliveira Touriga Nacional

O Villa Oliveira Touriga Nacional — Foto: Divulgação
O Villa Oliveira Touriga Nacional — Foto: Divulgação

Esta Touriga Nacional tem uma particularidade também, que é de vinhedos com mais de 80 anos. Acho que a Touriga Nacional de vinhas com mais de 80 anos é muito diferenciadora daquela plantada há 20, 30 anos. Em 2009, fui aos vinhedos velhos e colher apenas Touriga Nacional no meio de 20, 30 uvas diferentes. É a nossa Touriga Nacional, da Casa da Passarela. Ou seja, tem um caráter único, que consigo plenamente com este método.

[Fonte Original]

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