- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de todo nosso material do universo de Avatar.
Se a primeira temporada de Avatar: O Último Mestre do Ar já me colocava em uma posição meio desconfiada diante da própria necessidade de uma adaptação em live-action, o segundo ano chega com um desafio ainda maior de adaptar justamente o trecho mais rico da animação original. O Livro da Terra é quando Avatar deixa de ser apenas uma excelente aventura infantojuvenil e passa a revelar, com mais força, sua dimensão política, espiritual e dramática. É onde Toph entra na jornada, onde Ba Sing Se se torna uma das grandes criações de mundo da série, onde Zuko começa a se fragmentar por dentro e onde a história abandona de vez qualquer sensação de segurança.
Nesse sentido, a segunda temporada da Netflix é, ao mesmo tempo, mais interessante e mais frustrante que a primeira. Mais interessante porque o material de base é naturalmente mais denso e porque a adaptação parece mais segura em reorganizar eventos, fundir arcos e tentar encontrar uma identidade própria. Mais frustrante porque, novamente, a sensação é de que tudo acontece rápido demais, como se a série estivesse sempre correndo para alcançar os grandes momentos da animação, mas nem sempre permitindo que eles respirem como deveriam, além do ano ter performances muito fracas.
A temporada começa bem ao deslocar o grupo para o Reino da Terra e estabelecer Ba Sing Se como destino dramático. A travessia do Desfiladeiro da Serpente, o reencontro com Suki, o resgate de refugiados e a impossibilidade de salvar Bumi funcionam como blocos eficientes para reposicionar Aang, Katara e Sokka diante de um mundo mais quebrado. Mas a chegada de Toph é, naturalmente, o grande acontecimento da temporada. Miyako funciona razoavelmente como a nova integrante do Time Avatar, trazendo a agressividade, o humor seco e a autossuficiência da personagem sem transformá-la em uma caricatura, apesar de não achá-la tão carismática. A dinâmica dela com Aang é boa nos contrastes de personalidade, assim como na animação original, mas Gordon Cormier tem muita dificuldade de interpretação nesta temporada para que a interação seja melhor.
Não sei se foi a puberdade, mas o ator do protagonista parece ter perdido muita habilidade técnica, entregando pouca emoção e humor ao longo da temporada. Tive muita dificuldade de me conectar com o personagem. E não só ele, como outros membros do elenco não fluíram tão bem, com algumas conversas parecendo artificiais (talvez culpa dos diálogos meio expositivos também). De maneira geral, senti que faltou uma qualidade dramatúrgica maior na temporada.
Outro problema é que a série tem apenas sete episódios para lidar com Toph, Ba Sing Se, Long Feng, Dai Li, Biblioteca dos Espíritos, perda de Appa, Jet, Azula, Zuko, Iroh, etc. É muita coisa. A adaptação até encontra soluções criativas, misturando alguns episódios da animação em blocos unidos, mas, ainda assim, a velocidade tira força de alguns arcos.
Ba Sing Se, por exemplo, não tem o desenvolvimento merecido. O live-action acerta ao tratar Long Feng e os Dai Li como uma ameaça institucional, mas falta mais tempo para a cidade ser explorada dentro do clima de paranoia. A frase “não há guerra em Ba Sing Se” ecoa em espírito, mas a construção social e cultural do lugar ainda soa apressada, mais narrada do que vivida. É similar à primeira temporada, em que a série explica bem o mundo, mas nem sempre nos deixa habitá-lo.
No núcleo paralelo, Zuko e Iroh continuam sendo os personagens mais bem servidos pela adaptação. Dallas Liu faz um trabalho ok com Zuko, especialmente nos momentos em que o personagem parece cansado demais para sustentar a própria raiva. A vida no exílio, o contato com pessoas comuns do Reino da Terra e sua hesitação diante da chance de capturar Aang aprofundam o conflito interno do príncipe. Iroh, por sua vez, continua sendo a âncora emocional da série, e seus momentos de luto pelo filho estão entre os melhores da temporada. A entrada da Lótus Branca também funciona como promessa interessante para o próximo ano.
Azula ganha mais presença, e isso é bom e ruim. Elizabeth Yu entrega bem a crueldade controlada da personagem, especialmente em sua relação doentia com Ty Lee e Mai (a atriz foi escalada aqui com muita falta de perspicácia da equipe criativa, que facilmente poderia ter previsto o backlash), mas a série ainda parece ter pressa em colocá-la como grande estrategista antes de desenvolver totalmente sua instabilidade ou sua presença ameaçadora. A tomada de Ba Sing Se é uma boa ideia dramática, mas acontece com uma velocidade que diminui um pouco a sensação de golpe político.
O bloco da Biblioteca dos Espíritos também sintetiza as virtudes e problemas da temporada. A ideia de transformar a busca por conhecimento em experiência espiritual combina com a linguagem mais séria da adaptação, e a descoberta do Dia do Sol Negro cria um ótimo gancho estratégico. Por outro lado, a morte de Jet, o sequestro de Appa e a fúria de Wan Shi Tong passam rápido demais. São eventos enormes, que deveriam quebrar emocionalmente o grupo, mas a série logo precisa seguir para o próximo ponto de virada. O Jet mesmo foi esquecido no segundo que notaram a ausência do Appa.
Tecnicamente, a temporada é mais segura. A dobra de terra tem peso visual, Toph movimenta os cenários com uma fisicalidade convincente, e as cenas de ação parecem mais bem coreografadas do que no primeiro ano. Ainda há limitações em alguns ambientes e efeitos, principalmente quando a série precisa sugerir escala épica, mas o conjunto é bonito e funcional. O problema maior não está na aparência, mas na dramaturgia e narrativa.
O final, com Aang entrando no Estado Avatar e sendo atingido por Azula, é forte o bastante para deixar a temporada em um ponto sombrio. A queda de Ba Sing Se, a captura de Iroh, a fuga do Time Avatar e Katara tentando salvar Aang com a água espiritual compõem um encerramento dramático eficiente. Mesmo que a adaptação simplifique alguns caminhos, a imagem final de uma vitória esmagadora da Nação do Fogo funciona como virada de chave.
No balanço geral, a segunda temporada de Avatar: O Último Mestre do Ar melhora em relação à primeira em segurança, escopo e densidade temática, mas ainda sofre da pressa narrativa e de atuações fracas. A equipe criativa claramente ama esse universo e encontra boas soluções para condensar a história, mas aquele gostinho a mais para amarmos os personagens. A adaptação segue sem justificar plenamente sua existência diante da grandeza da animação, mas encontra momentos de beleza e um coração no lugar certo.
Avatar: O Último Mestre do Ar (Avatar: The Last Airbender) – 2ª Temporada | EUA, 2026
Desenvolvimento: Albert Kim (baseado na animação Avatar: A Lenda de Aang, de Bryan Konietzko & Michael Dante DiMartino)
Direção: Jabbar Raisani, Anu Menon, Amit Gupta, Hiromi Kamata
Roteiro: Helen Shang, Christine Boylan, Keely MacDonald, Gabriel Llanas, Phinneas Kiyomura, Teresa Huang
Elenco: Gordon Cormier, Kiawentiio, Ian Ousley, Dallas Liu, Paul Sun-Hyung Lee, Daniel Dae Kim, Elizabeth Yu, Momona Tamada, Miyako, Hoa Xuande, Chin Han, Thalia Tran, Danny Pudi, Utkarsh Ambudkar, Maria Zhang
Duração: 444 min. (07 episódios)