A superintendente de Conhecimento da Fundação Roberto Marinho, Rosalina Soares, disse nesta terça-feira (7) que a Educação de Jovens e Adultos (EJA) tem potencial de “transformar o Brasil”. A declaração foi feita no lançamento da Rede EJA Inclusão Produtiva, que conta com a participação da fundação.
Essa modalidade de ensino permite que jovens e adultos concluam o ensino fundamental e médio. Nos últimos anos, no entanto, houve a diminuição no número de matrículas e desinvestimento. A Rede EJA Inclusão Produtiva busca colocar o tema em evidência na próxima década e garantir a ampliação da política pública voltada a pessoas que não concluíram os estudos em idade escolar.
“A educação é um direito e temos que lembrar disso todos os dias. Que a educação básica é um direito básico. Não pode ser um desafio só do MEC [Ministério da Educação]. Uma sociedade em transformações permanentes precisa criar possibilidades permanentes de aprender. Uma das grandes transformações que o Brasil precisa fazer passa pelo EJA, que tem um enorme potencial de transformar o Brasil”, afirmou.
Segundo ela, a educação de jovens e adultos deve ser uma prioridade. Ela também defendeu a continuidade de políticas públicas que funcionam e a necessidade de investimentos.
“A descontinuidade produz retrocessos profundos. Não é por acaso que a matrícula da EJA vem caindo ao longo dos anos. Tivemos períodos de desinvestimento na modalidade e isso tem que nos mobilizar, independentemente de governos, para que a continuidade aconteça.”
O objetivo da Rede EJA e Inclusão Produtiva é, ao longo da próxima década, disseminar conhecimento, mapear políticas públicas, articular diferentes atores (de gestores públicos à sociedade civil e setor produtivo), colocar a educação de jovens e adultos em evidência no debate nacional e oferecer dados e referências que possam apoiar a tomada de decisões.
A iniciativa é lançada em um momento estratégico por conta da implementação do novo Plano Nacional de Educação (PNE) e pela renovação das agendas públicas de Estados e da União no período de eleições.
“Temos dez anos para manter essa agenda no centro da prioridade. Começa hoje um movimento, mas a gente precisa de continuidade. Essa é uma palavra forte nesse momento. Defender a continuidade de políticas públicas”, diz Rosalina.
Jovens e adultos sem educação básica
Segundo dados do estudo “Demanda Potencial por EJA e Transição para o Trabalho”, lançado também nesta terça-feira, junto com a Rede EJA Inclusão Produtiva, apesar de cerca de 64 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não terem concluído a educação básica – equivalente a 37,3% da população nessa faixa -, a demanda potencial da EJA caiu 16%.
A redução não decorre da ampliação do acesso à educação. Segundo o estudo, mais da metade dessa diminuição está associada à mortalidade das gerações mais velhas, que viveram períodos em que o país não conseguiu assegurar o direito à educação para toda a população.
A EJA, ainda segundo dados do estudo feito pela rede, alcança só 1,5% da demanda potencial no país, o que significa que milhões de brasileiros que poderiam estar retomando os estudos não têm acesso à modalidade. A baixa cobertura é observada em todo o Brasil. Alagoas, que tem a maior taxa de cobertura, atende apenas 4,1% de sua demanda potencial. Já Mato Grosso do Sul tem a menor taxa do país, 0,7%.
A EJA voltou a perder alunos em 2025 pelo oitavo ano seguido, segundo o último Censo Escolar. O número de matrículas por ano é o menor desde 1996, quando a EJA foi oficialmente instituída pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A maior quantidade de matriculados foi em 2007, quando mais de 5 milhões de pessoas integravam o programa. Em 2025, foram 2,2 milhões de matrículas.
A Rede EJA e Inclusão Produtiva é formada por 16 instituições da sociedade civil e organismos multilaterais. Participam Fundação Roberto Marinho, Fundação Bradesco, Fundação Itaú/ Itaú Educação e Trabalho e Fundação Arymax, com a cooperação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Integram a rede ainda a Ação Educativa, Ashoka, Conhecimento Social – Estratégia e Gestão, Conselho Nacional do SESI, GIFE- Grupo de Instituições Fundações e Empresas, Instituto Rodrigo Mendes Pacto, Global da ONU, Redes da Maré, Todos Pela Educação, Unesco, Unicef, e United Way Brasil – Juventudes Potentes
Impacto na economia e no mercado de trabalho
O contingente de pessoas de 15 anos ou mais de idade fora da escola também tem impactos econômicos, segundo o estudo da Rede EJA e Inclusão Produtiva: A incompletude educacional faz com que o país deixe de movimentar, em renda originada do trabalho, R$ 66 bilhões por ano.
O valor representa em torno de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB), informa o mapeamento. A taxa de pobreza entre essa população é 1,8 vezes maior do que entre quem completou a educação básica.
A baixa escolaridade impacta ainda a inserção no trabalho. Entre as pessoas que não concluíram o ensino fundamental, apenas 43,1% participam do mercado de trabalho, percentual que sobe para 73,5% entre os que concluíram o ensino médio.
Segundo o levantamento, a taxa de formalização do trabalho também aumenta conforme a escolarização. Entre os ocupados sem ensino fundamental completo, só 38,4% são empregados formais, contra 65% entre os que concluíram o ensino médio.