A exclusão de pessoas LGBTI+ do mercado de trabalho custa R$ 94,4 bilhões por ano ao Brasil, segundo estudo do Banco Mundial. O valor equivale a 0,8% do PIB e mostra que a discriminação no ambiente profissional tem efeito direto sobre emprego, renda, produtividade e arrecadação pública. Para se ter uma ideia, a conta da exclusão LGBTI+ no trabalho é maior do que o equivalente a três orçamentos anuais do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, o Ministério da Justiça e Segurança Pública aparece com orçamento de R$ 26,40 bilhões.
O levantamento, apresentado ao Tribunal Superior do Trabalho (TST) na semana passada, estima que a maior perda vem do desemprego. Só esse fator representa R$ 44,8 bilhões por ano. A inatividade soma R$ 24,1 bilhões. A diferença salarial responde por R$ 20,7 bilhões. A informalidade e a concentração em ocupações de menor qualidade acrescentam R$ 4,8 bilhões à conta.
Para Ricardo Calcini, professor de Direito do Trabalho do Insper e sócio do Calcini Advogados, o estudo muda a forma como a discriminação deve ser tratada pelas empresas. “A exclusão de pessoas LGBTQIAPN+ do mercado de trabalho não produz apenas consequências sociais ou individuais. Ela impõe um custo expressivo para toda a economia brasileira, reduz a produtividade, limita a inovação e compromete a competitividade das empresas”, afirma.
Desemprego e renda
O relatório mostra que a taxa de desemprego entre adultos LGBTI+ é de 15,2%, quase o dobro da média nacional, de 7,7%. A taxa de emprego também é menor: 47,4%, ante 58,9% na população em geral.
A inatividade chega a 37,4% entre pessoas LGBTI+, acima dos 33,4% da média brasileira. A informalidade também é maior, com taxa de 46%, contra 40% na população geral. O trabalho autônomo aparece em 30% desse grupo, acima dos 25% registrados no restante da população.
À primeira vista, a renda média mensal das pessoas LGBTI+ empregadas aparece maior, em R$ 3.470, contra R$ 2.953,89 da população em geral. Mas o Banco Mundial afirma que esse dado, isolado, mascara parte da exclusão. A amostra empregada é mais escolarizada e mais urbana. Quando o cálculo considera a menor chance de estar empregado, a renda relativa das pessoas LGBTI+ cai para 91% da renda da população geral.
Mulheres perdem mais
As perdas econômicas são maiores entre mulheres LBTI+. O estudo estima que elas respondem por R$ 54,3 bilhões da perda anual. Entre homens GBTI+, o impacto é de R$ 40,1 bilhões.
No caso das mulheres, o peso maior vem do desemprego, com perda de R$ 27,9 bilhões. A inatividade soma R$ 15,6 bilhões. Entre os homens, o desemprego representa R$ 17,6 bilhões, enquanto a inatividade responde por R$ 8,8 bilhões.
O relatório também aponta que pessoas pretas e pardas LGBTI+ enfrentam desvantagens maiores em desemprego, informalidade, inatividade e remuneração. As maiores disparidades aparecem entre mulheres pretas e pardas LBTI+, que acumulam barreiras de gênero, raça e discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero.
Discriminação pesa no salário
O estudo mostra que a renda cai conforme aumenta a discriminação relatada no trabalho. Entre homens GBTI+ que não relataram discriminação, a renda mediana anual é de R$ 39,2 mil. Nos casos de alta discriminação, cai para R$ 31,4 mil.
Entre mulheres LBTI+, a queda é mais forte. A renda mediana anual passa de R$ 32,8 mil, entre aquelas sem relato de discriminação, para R$ 22,7 mil nos casos de alta discriminação.
O desemprego também cresce conforme a exposição ao preconceito aumenta. Entre homens GBTI+, passa de 9,8% para 18,2%. Entre mulheres LBTI+, sobe de 14,4% para 26,3%.
Para Calcini, esses dados reforçam que políticas de inclusão não podem ficar restritas a campanhas institucionais. “Promover ambientes inclusivos deixou de ser apenas uma questão de responsabilidade social para se tornar também uma estratégia de desenvolvimento econômico”, diz.
Conta para o governo
A exclusão também pesa sobre as contas públicas. O impacto fiscal anual é estimado em R$ 14,6 bilhões. A maior parte vem da perda de arrecadação, de R$ 10,6 bilhões.
As despesas adicionais ligadas ao desemprego somam R$ 3,1 bilhões. Os gastos associados à inatividade chegam a R$ 900 milhões. Entre mulheres LBTI+, a perda fiscal é de R$ 8,7 bilhões. Entre homens GBTI+, soma R$ 5,9 bilhões.
Para o Banco Mundial, o custo aparece em dois canais. De um lado, a discriminação empurra trabalhadores para empregos mais instáveis, salários menores, informalidade ou saída da força de trabalho. De outro, reduz a arrecadação e aumenta a pressão sobre programas de proteção social.
Desafio para empresas
O estudo recomenda que empresas avancem em políticas claras contra discriminação, processos de contratação e promoção com menos vieses, canais seguros de denúncia e acompanhamento de indicadores de recrutamento, retenção e ascensão profissional.
Calcini afirma que o levantamento deve pressionar empresas e poder público a tratarem a inclusão como parte da agenda de produtividade. Para ele, a discriminação no trabalho deixou de ser apenas um risco jurídico ou reputacional e passou a ser também uma variável econômica.
A conclusão do Banco Mundial é que a exclusão de pessoas LGBTI+ limita o uso produtivo da força de trabalho, reduz renda, afeta a arrecadação e compromete o crescimento. No relatório, a inclusão aparece não apenas como uma pauta de direitos, mas como uma forma de destravar produtividade e competitividade no país.