Se você foi uma criança que folheava gibis, jornais, revistas à procura de tirinhas, aprendeu e entendeu, com o passar dos anos, que este é um gênero traiçoeiro, capaz de esconder uma bigorna filosófica e existencial, das mais destruidoras, dentro de meia dúzia de linhas e curvas, certo? Pois se prepare, porque este entendimento é o real padrão de abordagem de Caetano Cury em sua série de pequenas histórias chamadas Téo & O Mini Mundo, que começaram a ser publicadas na internet em 2012. Foram 7 anos de publicação digital, de uma legião crescente de leitores acompanhando as conversas entre o menino e a borboleta Eulália, até que o material virou uma coletânea, em 2019, com prefácio do aquarelista Cárcamo e uma centena de páginas reunindo o melhor dos dois filósofos-protagonistas num só lugar. A produção manual, feita em nanquim e aquarela, nos traz enorme nostalgia acompanhada de grande beleza visual, nesta que se tornou uma publicação vencedora do troféu Angelo Agostini e indicada ao HQMix. Uma pedrada que nos atinge em vários níveis de qualidade e sentimentos.
O gancho perfeito para que Cury faça as perguntas e observações sobre a condição humana é o microscópio de Téo, uma “ferramenta para olhar o íntimo” que vira uma representação disfarçada de fofice reflexiva, investigando o invisível de “pessoinhas e coisinhas” e encarando os ciclos de vida e morte que afetam qualquer pessoa. A relação entre o menino e o psicopompo alado da tirinha também é parte disso, e essa belezinha nunca se reduz a uma companheira decorativa ao lado do protagonista. Ela ocupa o lugar, no melhor estilo junguiano de pensar, de uma consciência mais lúcida (uma atravessadora do inconsciente, que integra as partes reprimidas do personagem jogando na cara o que ele finge que não vê ou não entende), devolvendo as próprias angústias num jogo que lembra muito as sessões de terapia que o autor recomenda abertamente aos seus leitores.

Téo costuma fugir das dores, fixando o olhar nas contradições e no sofrimento das pessoinhas do mini mundo, e cabe a Eulália puxá-lo de volta, pedindo que afaste o olho do microscópio e enfrente os próprios demônios antes de querer decifrar a vida alheia. De cara, já temos aí muito pano para discutir crescimento pessoal, dificuldade de botar sentimentos em palavras, sensação de vazio, problemas de pertencimento e dualidade das emoções, tudo isso com uma sutileza rara em obras que flertam com a autoajuda (no sentido mais positivo e ativo possível), aproximando-se da tradição filosófica que Cury cita sem cerimônia ao longo das tirinhas, de Descartes a Rousseau e Schopenhauer, pensadores que também colocaram a tensão entre o mundo de dentro e o mundo de fora no centro de tudo (sem contar a poesia de Belchior e uma lindíssima tirinha brincando com o nome “Hamlet” para falar de transição de gênero). O verdadeiro desafio proposto pelas páginas está em acolher o universo que mora dentro de cada um, e não em compreender a engrenagem do lado de fora e tentar achar resposta pronta pra tudo.
Quando a gente olha para as aquarelas dessas páginas (uma arte que dá a sensação de leveza, por excelência), a mensagem que Cury passa é elevada ao máximo, e pode ser vista até como uma ode discreta à brevidade da existência e uma crítica calma à superficialidade dos nossos dias, apontando as hipocrisias sociais ao lado do luto, da finitude e dos mistérios sobre o que vem depois… A melancolia e o desespero ganham até forma de monstros que batem à janela, mas não é aquele tipo de medo fatalista; é um medo de reconhecimento das coisas como elas são, daquilo que é desconhecido e para o qual devemos nos preparar, e às vezes isso aparece em quadros com o mínimo de diálogo ou apenas uma sequência silenciosa de imagens… tudo porque o autor, sabiamente, insiste no valor do silêncio compartilhado e na aceitação, sem exageros, da existência. A delicadeza com que assuntos tão densos são desenhados e roteirizados é o que torna essas tirinhas capazes de aquecer o coração mesmo quando tratam da dor, prova de uma sensibilidade que não há escola de arte no mundo que ensine.
Talvez, numa leitura criticamente mais fria, encontremos quadros beirando o risco do didatismo emocional ou situações e viradas cômicas que parecem um tanto cifradas, mas, sinceramente, as migalhas de incômodo que tive durante a leitura não foram capazes de tirar um grama da grandeza dessa obra e do quanto ela me tocou e foi importante para mim. Téo ensina para todos nós que filosofar diante de um microscópio (um olhar atencioso no espelho!) é uma forma de teimar contra a nossa pequenez. Ele nos lembra que a existência merece bem mais do que ser observada de longe: ela é tão curta que merece ser vivida por inteiro, com todos os seus altos e baixos, com os olhos no microscópio e a coragem que prepara o corpo para a luta por trás da lente. Téo & O Mini Mundo é o tipo de produção a que a gente recorre toda vez que precisa de uma gotinha cavalar de ânimo para viver. Eu estou simplesmente apaixonado por esse Universo!
Téo & O Mini Mundo – O Livro (Brasil, agosto de 2019)
Roteiro: Caetano Cury
Arte: Caetano Cury
Editora: RPHQ
100 páginas