Convenhamos: a tradução da Ilíada para o formato de graphic novel impõe desafios estruturais significativamente maiores do que os encontrados na adaptação de sua sequência, a Odisseia. Enquanto a jornada de retorno de Odisseu se apoia em uma estrutura de viagem episódica, com cenários marítimos variados que facilitam a segmentação dos quadros, o primeiro poema homérico se concentra no cerco prolongado a uma única cidade fortificada e em combates terrestres incessantes. Essa natureza intrinsecamente bélica e estática da narrativa dificulta o equilíbrio visual nas páginas dos quadrinhos, exigindo dos artistas um esforço dobrado para que a sucessão de batalhas não sature o espaço disponível e preserve o interesse do leitor sem recorrer a soluções repetitivas de diagramação. E são estes desafios que contemplaremos por aqui. Como continuação direta dentro da mesma coleção de luxo publicada no Brasil pela Editora Panini, o volume dedicado à Ilíada chegou ao mercado nacional em agosto de 2025. Mantendo a proposta de seu antecessor, a obra se dedica a parodiar o outro grande épico homérico, recontando os eventos dramáticos da lendária Guerra de Troia de uma forma leve, satírica e totalmente irreverente.
Para dar vida a esse conflito histórico nas páginas da graphic novel, a produção convocou mais uma vez o elenco clássico de Patópolis e Topolândia, substituindo os severos guerreiros da Antiguidade por figuras icônicas que o público já conhece e acompanha há décadas em situações cotidianas. O roteiro desta nova adaptação foi novamente estruturado pelo escritor italiano Roberto Gagnor, enquanto a responsabilidade pelos desenhos e pelo design do formato em capa dura ficou a cargo do renomado artista italiano Alessandro Perina. No entanto, o resultado final nas páginas entrega uma experiência que se revela visualmente caótica em algumas passagens cruciais da história. O excesso de ação concentrado em determinados quadros e a quantidade massiva de elementos gráficos disputando o mesmo espaço geram uma sensação de poluição visual, o que acaba tornando a leitura desconfortável e incômoda em alguns trechos específicos, contrastando com a fluidez encontrada no volume da Odisseia.

O grande atrativo humorístico da edição reside nos trocadilhos bem-humorados aplicados aos nomes dos deuses e heróis do panteão e dos exércitos em combate. O camundongo Mickey Mouse encarna o valoroso príncipe troiano sob a alcunha de Mickeytor, enquanto sua namorada Minnie Mouse atua no papel de Minnómaca. Pelo lado dos invasores, o Pato Donald interpreta o impaciente e orgulhoso guerreiro grego Donaquiles, apoiado por Peninha na pele do rei Agameninhas e pelo Professor Pardal como o astuto Pardodisseu. No campo divino e nas motivações do conflito, Margarida vive a deusa Margatena, Brigite assume o posto de pivô da discórdia como Brigitelena, e o Pateta, que aqui retorna à sua função de narrador atrapalhado sob a identidade de Patetomero. Apesar de a narrativa da Odisseia ser cronologicamente a sequência dos eventos de Troia, no mercado editorial brasileiro a ordem foi invertida e a Ilíada acabou sendo lançada posteriormente, em agosto de 2025. Essa versão nacional contou novamente com a excelente tradução de Marcelo Alencar e com o cuidadoso trabalho do Studio 313, garantindo a manutenção da qualidade textual vista no primeiro volume lançado.
Visualmente, a HQ utiliza uma paleta de cores e tons alaranjados bem marcantes para delinear o clima constante de conflito que impera na trama. Seguindo a mesma linha adotada na edição anterior sobre a Odisseia, todo o tom de violência explícita do poema original foi suavizado, abrindo espaço para uma abordagem onde o teor cômico se entrelaça de forma inteligente com o pedagógico, servindo de pano de fundo para versar sobre questões e dilemas do mundo contemporâneo, associados diretamente ao universo clássico em questão. A profundidade e o respeito ao ponto de partida, mesmo dentro de uma paródia, encontram justificativa na bagagem cultural de seu roteirista. Filho de professores de latim e grego, o italiano Roberto Gagnor cresceu completamente imerso no mundo clássico, cercado por livros e por um ambiente de muita cultura desde a sua infância. Além disso, Gagnor também cursou o Liceu Clássico na Itália, uma modalidade de ensino semelhante ao colégio de ensino médio no Brasil, mas que se caracteriza por uma forte especialização na área de humanidades, o que lhe proporcionou uma formação acadêmica extremamente sólida.

Graças a esse histórico, o autor se tornou amplamente conhecido, pois criou versões filologicamente precisas, e, ao mesmo tempo, divertidas da Ilíada e da Odisseia. O desejo de desenvolver esses projetos surgiu justamente ao notar a ausência de versões modernas que fossem fiéis à estrutura dos poemas originais, uma vez que as paródias produzidas pela própria Disney nos anos 1950 e 1960 eram muito mais livres, simples e desapegadas do rigor dos textos clássicos de Homero. Ao longo de suas 96 páginas, Gagnor demonstra uma grande habilidade ao utilizar referências sutis e universais para construir suas piadas, embora reconheça abertamente a necessidade constante de adaptação cultural para que o humor funcione com diferentes públicos ao redor do mundo. Na versão clássica da Ilíada, por exemplo, a grande festa celebrada pelos troianos após a aparente partida dos gregos que haviam deixado o famoso cavalo de madeira foi construída como uma paródia de canções populares italianas. Outra escolha criativa marcante aparece logo nas falas iniciais do personagem Donaquiles, cujos discursos repletos de arrogância foram diretamente adaptados de entrevistas reais do jogador de futebol sueco Zlatan Ibrahimovic, amplamente conhecido no cenário esportivo por seu ego inflado e sua confiança exagerada. No geral, uma tradução em quadrinhos interessante, mas, como já delineado, visualmente incômoda para a contemplação fluida do leitor. Esteticamente, a Odisseia desta mesma coleção é textualmente/visualmente melhor.
Ilíada (Paperiliade – Libro primo: l’ira funesta / Paperiliade – Libro primo: l’ira funesta / Paperiliade – Libro secondo: la caduta) — Itália, 15 e 22 de junho de 2022
Código da História: I TL 3473-1P
Publicação original: Topolino (libretto) #3473 e 3474
Editora original: Mondadori, Disney Italia, Panini Comics
Roteiro: Roberto Gagnor
Arte: Alessandro Perina
Editora no Brasil: Panini
Tradução: Marcelo Alencar
Capas originais: Paolo Mottura, Andrea Cagol, Andrea Freccero
96 páginas.