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quarta-feira, julho 15, 2026

Aposta alta nas empresas de IA traz risco para economia mundial

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Data center — Foto: Freepik

Os investidores deixaram a euforia de lado e estão reavaliando se as promessas revolucionárias da inteligência artificial darão retornos suficientes às empresas gigantes que a desenvolvem. Mas a economia global terá um problema se o otimismo com a IA se transformar de repente em pessimismo. O Banco de Compensações Internacionais (BIS) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) consideram a reversão das bolsas com as ações da tecnologia e a continuidade da guerra entre EUA e Irã os dois maiores riscos atuais. Os conflitos no Oriente Médio foram retomados e os rumos da IA podem ter correção.

Os investimentos em IA já somam mais de US$ 1,2 trilhão desde o início de 2025, sendo US$ 725 bilhões só este ano, mas os riscos da corrida foram evidenciados pelo BIS. “Com gastos de capital cada vez mais altos por pressão competitiva, o saldo líquido, descontados os custos de investimento, declina para o setor como um todo e pode se tornar negativo em cenários adversos”, adverte. O desapontamento com esses retornos pode, então, cortar os financiamentos e transformar o boom de investimentos em um colapso, “com efeito cascata sobre as condições financeiras”.

A IA está consumindo recursos das big techs a grande velocidade. Gastos de capital hoje correspondem a 80% do fluxo de caixa operacional (Valor, 13/7). As chamadas 7 Magníficas chegaram a uma fatia de um terço das ações da S&P 500, mas, após a forte valorização nas bolsas americanas, o salto das despesas de capital levou-as a lançar mão de dívidas com avidez. Enquanto essas gigantes da tecnologia (Apple, Amazon, Microsoft, Alphabet, Nvidia, Tesla e Meta) perderam US$ 2 trilhões em valor de mercado desde outubro, a emissão de dívidas do grupo ultrapassou US$ 170 bilhões. Se somadas outras empresas provedoras de infraestrutura da computação em nuvem, as emissões chegam a US$ 230 bilhões, segundo dados do BIS.

A onda da IA puxou com força também as empresas de chips concentradas na Ásia. Ações da TSMC de Taiwan e das coreanas Samsung e SK Hynix mais que dobraram de valor em um semestre, um rally de US$ 1,8 trilhão, após registrarem lucros 15 a 20 vezes maiores do que em 2025.

Os investidores puseram o pé no freio do setor de IA e resolveram prudentemente voltar a diversificar suas aplicações. As 7 Magníficas tiveram peso negativo para o S&P 500 no primeiro semestre. A gigante Nvidia, com valor de mercado de US$ 5 trilhões, teve recentemente a mesma relação preço-lucro que a empresa de chocolates Hershey (FT, Katie Martin). Em junho, o índice de ações das empresas de tecnologia de informação (TI) recuou 7,5%, diante da alta de 8% das ações do setor de saúde e de 6,7% dos papéis do setor financeiro.

Igualmente importante como tendência foi o comportamento dos títulos da dívida de longo prazo (10 anos) das líderes da IA, que têm agora o pior comportamento dentre os papéis com grau de investimento, em um movimento que reflete ceticismo dos investidores quanto a rentabilidade dos gigantescos investimentos realizados. Eles estão se dando conta de que com a rápida evolução de uma nova tecnologia de enormes potenciais, é arriscado prever o futuro, quais empresas afinal assumirão a liderança e quais poderão ficar pelo caminho. Há, além disso, dinheiro demais envolvido. O JP Morgan calcula que as maiores do setor de IA precisarão de US$ 5 trilhões em 5 anos e tanto elas como as provedoras de infraestrutura estão obtendo receitas na casa dos 11 dígitos, (dezenas de bilhões), com gastos de 13 dígitos (trilhão de dólares).

Avaliações mais realistas também atingiram o setor de semicondutores, que dependem do boom de IA. O índice Kospi, de ações coreanas, caiu 20% desde seu pico no semestre, com os estrangeiros vendendo US$ 100 bilhões em ações de companhias como Samsung e SK. O risco de obsolescência precoce do setor é grande. “O ritmo acelerado da inovação tecnológica também aumenta o risco de que os atuais semicondutores de última geração, incluindo chips de memória, se tornem obsoletos com a próxima onda de inovação”, afirma o consultor Ed Yardeni (Valor, 13/7).

A febre do investimento em IA se disseminou pelos mercados de crédito, nos quais os fundos de empréstimos diretos quadruplicaram o crédito para IA e TI em 5 anos. Hoje representam 15% de seu portfólio. A demanda por IA puxou o crescimento dos setores relacionados, não só chips como também construção, engenharia, energia e outros. As empresas de chips taiwanesas e coreanas passaram a ocupar uma fatia de 29% do MSCI Emerging Markets. A exposição a ações das famílias americanas cresceu, enquanto os papéis americanos hoje representam 64% do MSCI Global Index. Tudo isso aponta, segundo o BIS, para o impacto global profundo e amplo que uma grande correção nas ações de IA poderá ter, inclusive sobre o efeito riqueza que tem alimentado o consumo americano.

Excesso de investimentos em tecnologias de fronteira no passado levaram as economias à recessão. É o que o BIS teme agora, embora isso seja mais um risco que realidade.

[Fonte Original]

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