Com a Selic em 14,25% ao ano e a percepção de que o juro básico brasileiro não vá muito abaixo disso tão cedo, os investidores têm aumentado a dose de conservadorismo nas suas carteiras. A inflação elevada embutida nos títulos pós-fixados e um calendário que traz eleições à presidência no Brasil, troca legislativa nos Estados Unidos, além da guerra no Irã justificam o posicionamento mais defensivo.
Nem mesmo os títulos do Tesouro atrelados à inflação, que pagam a correção monetária e juros reais acima de 8%, já qualificados como “o milagre brasileiro”, têm atraído a atenção. Com o aumento das taxas em anos seguidos, e a consequente desvalorização dos papéis, a marcação negativa a preços de mercado no extrato do investidor tem trazido a percepção de perdas – se levados até o vencimento vão remunerar aquilo que foi acordado na data da aquisição.
Como resultado dessa “abertura” de prêmios – o aumento das taxas e queda do preço dos papéis – houve volatilidade adicional nos fundos de crédito, outro segmento que vem testando a tolerância a risco do brasileiro, que acha que renda fixa é sempre fixa. A corrida para as alternativas ligadas a juros pós-fixados, seja em títulos do Tesouro ou de emissão bancária, é um sintoma disso.
“Não dá para dizer que não faz sentido o que o investidor está fazendo. Pode não ser a decisão ótima, mais equilibrada, e ele segue naquilo, mas não é uma loucura completa”, afirma Ana Rodela, executiva-chefe de investimentos (CIO), da Bradesco Asset Management.
“É uma decisão bastante coerente com o cenário”, reitera Martin Iglesias, líder especialista em recomendação de investimentos do Itaú Unibanco. “Temos uma visão neutra para todas as classes de renda fixa – pós fixados, pré[fixados], inflação, mas dentro da pizza de diversificação o pós tem apresentado a melhor relação risco/retorno.”
Nos papéis indexados, ele diz haver uma possível assimetria vindo de uma piora de inflação, e nas variações de expectativas os prefixados não escapam da volatilidade. O próprio mercado tem feito revisões contantes para o IPCA a cada semana no boletim Focus, que coleta as projeções de diversas instituições financeiras. “Não chegam a ser investimentos ruins, a chance de perder dinheiro num horizonte de longo prazo é complicada, mas quando se olha o risco/retorno do pós-fixado o investidor já está bem.”
O crédito privado, o executivo vê como um momento mais incerto, com abertura de spreads (a diferença em relação aos títulos públicos) e mais saída do que ingresso de recursos.
“O investidor brasileiro tem uma característica que não é comum no mercado internacional, por causa dos juros reais dessa magnitude”, diz. Com uma inflação projetada na casa dos 5% e a Selic a 14,25% e caindo devagar, há muita gordura. “Para quem investe em reais e tem a vida em reais, num horizonte de curto prazo é comum ter pouca tolerência a risco.”
Embora o posicionamento em pós-fixados seja compreensível, a recomendação do Itaú é sempre ter algum tipo de diversificação. Mesmo no perfil mais conservador, em que o investidor tem 85% em pós, a divisão do risco inclui indexados à inflação e fundos multimercados, por exemplo. Iglessias diz também observar boa captação nos CDBs que o banco mantém na sua prateleira. “Ter a carteira diversificada é sempre bom porque você não sabe o momento que o mercado vai reagir. Manter a exposição pós, não há como negar, que é interessante, mas o investidor pode perder para uma carteira de mais risco.”
Para quem tem estômago para tolerar os vaivéns, Iglessias diz haver oportunidades, no Brasil e no exterior. O time de alocação do Itaú Unibanco vê mais potencial na bolsa americana, enquanto na local mantém a recomendação no ponto neutro. “Chegamos a ter uma visão positiva, três, quatro meses atrás, até perceber que o ciclo de corte de juros será limitado.”
Os isentos bancários não crescem de forma significativa, mas nos CDBs há um volume maior, foi o título que sobrou”
— Ana Rodela
Apesar da chacoalhada recente no crédito, Rodela, da Bradesco Asset, ainda vê um cenário prospectivo favorável para a classe, com o investidor retornado aos fundos quando voltar a ver resultados positivos nas cotas.
Para multimercados, fundos de ações e a própria bolsa essa lógica é mais complicada, diz. A preferência tem sido pelos títulos bancários, mas também neles há mais restrição de lastro para emissões em papéis como letras de crédito imobiliário e do agronegócio (LCI e LCA), além das letras imobiliárias garantidas (LIG). “Os próprios bancos não têm mais os mesmos volumes para oferecer. Os isentos bancários não crescem de forma significativa, mas nos CDBs há um volume maior, foi o título que sobrou.”
Só que o movimento de aversão a risco no segmento corporativo, que levou o investidor para os títulos atrelados ao CDI com proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), fez com que houvesse redução das taxas dos títulos bancários, afirma João Abdouni, analista de renda fixa da EQI Research. Ele defende que ainda vale olhar para o crédito privado, mas escolhendo os riscos a dedo.
A Selic vai seguir alta por um bom tempo e pelo que está embutido nos preços de mercado deve chegar a 14% ao ano e parar nisso. Assim, a renda fixa tende a concentrar a atenção do investidor. “A gente vê reflexos disso nas taxas de captação e na disponibilidade de lastros nos títulos bancários em níveis bem mais baixos do que foi e na procura por isentos”, diz Andre Augusto Freitas, sócio e especialista em portfólios da Est Gestão de Patrimônio.
Nesse ambiente, a maior parte das carteiras sob responsabilidade da gestora de fortunas está em renda fixa, com a parcela mais arriscada direcionada para as NTN-Bs, que “em poucos momentos viu no atual nível”, diz o executivo, referindo-se a taxas acima dos 8% ao ano, só comparáveis à crise fiscal de 2015.
O Tesouro enfrentou dificuldades para rolar a dívida pública via NTN-B e deu sinais de que poderia recomprar os papéis, o que contribuiu para acalmar os ânimos. “Houve um aumento progressivo das taxas sem um horizonte muito claro de quando isso pode ceder, ou o quanto pode piorar. Numa crise aguda, pode ir para 10%, 11%? Ninguém sabe”, prossegue Freitas. “A gente tem que fazer exercícios e tem como referências momentos agudos de estresse lá atrás.”
O executivo da Est diz que os prefixados de curto prazo parecem interessantes, mas quando se compara com as NTN-Bs, para empatar com a inflação embutida neles precisaria de um IPCA mais perto dos 6% “É bastante, mas não é muito a expectativa que se tem hoje com o câmbio no nível atual ou a projeção para os próximos dois anos, parece muito equilibrado.” Ou seja, é na “B”, (ou Tesouro IPCA+) que está o risco que faz sentido correr.
Essa é a combinação mais conservadora possível junto com os títulos atrelados ao CDI, já que tem uma eleição batendo à porta sem um desfecho previsível. “O quanto vai se deixar na mesa se for para um cenário de desvalorização dos ativos? É mais prudente perder um pouco da valorização do que entrar precipitadamente”, diz Freitas.
Comparado ao mercado de ações, ele lembra que o Brasil remunera historicamente melhor a renda fixa. “A gente não sabe nem quem vão ser os candidatos prováveis, qual a plataforma e quais serão as equipes, o discurso. O que perco em ficar mais conservador no curto prazo?”
Quando se olha os 100% do CDI, o Tesouro Selic ou o CDB de liquidez diária já com uma rentabilidade de encher os olhos, há um custo de oportunidade que o investidor pesa. Quando vai para a volatidade dos indexados, ele quer um retorno superior, diz Carolina Carvalho, analista de renda fixa da EQI Research.
Na EQI, a depender do perfil, há uma parcela razoável em pós-fixados que já têm um juro real embutido interessante. Mas é justamente na marcação a mercado que há a opcionalidade de antecipar a remuneração das NTN-Bs, defende a especialista. “Isso não deve ficar fora do radar do investidor. Travar um juro real de 8% por seis anos… Pode ter alguns percalços no meio do caminho, mas historicamente é um retorno alto, há a possibilidade do resgate antecipado. Eu não deixaria escapar essa oportunidade.”