Nos últimos 20 anos, o desempenho dos estudantes em todo o mundo estagnou ou caiu — e isso coincide justamente com o período em que a edtech (tecnologia educacional) foi introduzida nas escolas.
Enquanto isso, governos estão considerando ou já implementando restrições ao uso de smartphones nas escolas e de redes sociais por adolescentes. Ao mesmo tempo, educadores lutam para acompanhar as ferramentas de IA generativa, que conseguem fazer a lição de casa e dar respostas aos alunos em segundos.
Com todas essas discussões, muita gente está se perguntando se a solução não seria simplesmente banir de vez as tecnologias das escolas. Mas esse raciocínio erra feio o alvo.
Sim, os smartphones e as redes sociais são grandes distrações, mas eles não são edtech. E a IA é algo sobre o qual todos nós precisamos aprender para o futuro.
Um Começo Instável
No início, muitos erros foram cometidos no setor de edtech. As ferramentas digitais eram frequentemente vendidas como uma solução milagrosa para garantir o progresso dos alunos. Assim, muitas escolas agiram por impulso, enchendo as salas de aula com dispositivos sem pensar muito na pedagogia, no treinamento dos professores, na ciência cognitiva ou no efeito de passar o dia inteiro olhando para uma tela.
Muitos fornecedores de edtech também não tinham levado essas questões em conta, e o resultado foi uma entrega com qualidade bastante irregular.
No setor, a tecnologia que tornava as aulas “divertidas” até tinha o seu apelo, mas o maior engajamento gerado por ela trazia um impacto insignificante no aprendizado real.
O Uso Consciente da EdTech
Hoje em dia, o mercado está mais consciente de que as soluções de edtech (e a aplicação delas) precisam estar enraizadas na pedagogia, com as melhores ferramentas atendendo aos padrões estabelecidos por órgãos educacionais que avaliam a pedagogia digital, a qualidade, a acessibilidade e a usabilidade.
As escolas e os educadores também mudaram de mentalidade: a tecnologia deixou de ser o centro das atenções e a protagonista da educação para assumir um papel de suporte. A pedagogia vem primeiro e isso significa reconhecer quando não é apropriado usar tecnologia em uma aula. Essa é uma mudança crucial em relação às salas de aula totalmente guiadas pela tecnologia de 20 anos atrás.
A Reformulação dos Currículos
Do que os alunos precisam para um futuro repleto de tecnologia? A resposta são habilidades e isso significa que os currículos precisam mudar.
O currículo mais forte é aquele que ensina a usar a tecnologia de forma intuitiva, unindo esse uso ao senso crítico, criatividade, adaptabilidade e resiliência. Habilidades como o letramento digital e a consciência sobre os vieses e as informações falsas geradas pela IA são um lado da moeda.
Do outro, está o conjunto de competências puramente humanas, que inclui a resolução de problemas e a comunicação, que serão fundamentais em um mercado de trabalho cada vez mais automatizado.
Também são importantes a autonomia e a gestão do tempo, além das habilidades que nos ajudam a nos relacionar com os outros, como inteligência emocional e colaboração.
Na prática, no futuro, os alunos devem sair da escola capazes de dominar novas ferramentas rapidamente, pensar criticamente sobre as informações, colaborar bem e continuar evoluindo e aprendendo à medida que o mundo digital avança.
Como Colocar Isso em Prática
Mudar é sempre um desafio, mas, muitas vezes, é necessário. Estamos vivendo um desses momentos. Chegamos a um ponto em que ficar de fora do mundo tecnológico não é uma opção — para nenhum de nós.
Em primeiro lugar, as competências de letramento digital são críticas, e nós já deveríamos estar ensinando isso de forma transversal em todo o currículo como regra. Mas o mais importante para os alunos é a necessidade de relevância.
O mundo está mudando mais rápido do que nunca. As mudanças climáticas, os desafios no mercado de trabalho trazidos pela IA, o custo de vida, a migração e a segurança alimentar e hídrica prometem ser problemas graves nas próximas décadas.
É por isso que os alunos precisam de habilidades práticas e da capacidade de aplicar seus conhecimentos para enfrentar problemas complexos e sem respostas prontas.
Mas nada disso acontece num passe de mágica. Os professores também precisam desesperadamente de treinamento, além de tempo para praticar com a tecnologia e incorporar essa nova mentalidade e o desenvolvimento de habilidades em seus planos de aula.
Eles mesmos precisam se sentir confortáveis e confiantes com a edtech para conseguir desenvolver as capacidades digitais dos alunos de forma eficaz. Isso não é nenhuma novidade revolucionária, mas ainda parece ser o grande gargalo nos sistemas de ensino do mundo todo.
Como Avaliar Tudo Isso
A avaliação é o próximo grande desafio. Com a IA e vários dispositivos tecnológicos que facilitam a “cola” agora em jogo, as provas tradicionais certamente estão com os dias contados.
Os métodos de avaliação do futuro precisam ser justos. Se os alunos aprendem e realizam seus trabalhos em ambientes digitais, não faz o menor sentido trancá-los em uma sala de exames com papel e caneta para descobrir o que eles conseguiram memorizar; nós já deveríamos saber disso por meio de um acompanhamento contínuo, onde eles demonstram conhecimento através de apresentações, debates, projetos e muito mais.
Além disso, deveríamos buscar avaliar as habilidades que hoje valorizamos em um mundo guiado pela tecnologia: criatividade, resolução de problemas e comunicação. Isso significa formular testes para medir competências que vão muito além da “decoreba”.
Saindo da Teoria e Indo para a Ação
Então, reduzir a edtech nas escolas seria a resposta? Não é uma escolha simples e direta entre manter ou banir. O futuro é digital, e os alunos precisam estar preparados para ele.
O caminho para encontrar as respostas é voltar ao ponto de partida para analisar o que os alunos realmente precisam para a vida e como podemos prepará-los com essas habilidades. E, então, precisamos agir.
A edtech em si não é a culpada pelas nossas dores de cabeça atuais; o verdadeiro problema está na nossa insistência em manter um sistema educacional que está completamente em descompasso com o mundo moderno.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com