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quarta-feira, julho 22, 2026

Raphael Montes aposta alto na carreira internacional

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“Minha ambição é que cada livro internacional seja um projeto, e não apenas mais um lançamento”, diz Raphael Montes — Foto: Julia Mataruna/Divulgação

Quando desembarcar nos Estados Unidos no final de julho, o escritor Raphael Montes vai iniciar uma nova fase da internacionalização de sua obra. Um dos mais bem-sucedidos autores de ficção policial e de suspense do Brasil, ele vai lançar a versão em inglês de “Jantar secreto”, seu livro com mais exemplares vendidos (300 mil) desde a primeira edição, em 2016.

Não será, porém, mais uma tradução. “Minha ambição é que cada livro internacional seja um projeto, e não apenas mais um lançamento”, diz. “Espero que a obra seja trabalhada ao longo do tempo na conquista de leitores. A edição brasileira de ‘Jantar secreto’ é um bom exemplo, pois figurou na lista dos mais vendidos em 2025, quase uma década após sua estreia.”

Movido por esse pensamento, Montes buscou uma agente literária que compreendesse sua ambição. Encontrou na Susanna Lea Associates, que tem escritórios em Paris, Londres e Nova York e representa autores de relevância global, como Gisèle Pelicot (“Um hino à vida”). Juntos, buscaram uma editora que não fosse mera lançadora de livros. “Fizemos uma lista com dez opções, conversei online com três editores, e o escolhido foi justamente o que liderava minha relação”, conta o escritor.

Ryan Doherty é editor da Celadon Books, selo da gigante Macmillan Publishers, um dos cinco maiores grupos editoriais em língua inglesa, com escritórios em 41 países. Antes de assinar contrato, Doherty fez dois pedidos: queria terminar a leitura de “Jantar secreto” (só havia lido a metade) e conhecer Montes pessoalmente. Cumpridas as duas solicitações, ele assinou contrato para lançar dois livros; o segundo ainda está em estudo.

“Como ele lança em média só três livros por ano, nossos interesses coincidiram”, conta o escritor, que participará de dois eventos em Nova York, com imprensa e leitores, para o lançamento no dia 18 de agosto. O plano de divulgação, porém, já está em ação. O livro recebeu cinco resenhas prévias, além de duas indicações no jornal The New York Times, que incluiu “The secret dinner” na reportagem “Os romances que todos estarão lendo neste verão”.

A trama é uma das mais conhecidas de Montes por incluir um detalhe macabro: canibalismo. Um grupo de amigos que dividem um apartamento no Rio de Janeiro se encontra em uma encruzilhada: por causa de um deles, que simplesmente usou o dinheiro do aluguel para outros fins, os rapazes têm um prazo curto para saldar uma grande dívida. A solução encontrada é realizar um jantar especial para poucos comensais (um dos amigos é especialista em gastronomia), mas com um cardápio que inclui carne humana.

Além da versão em inglês, o livro será lançado na França, Itália, Espanha (e toda a América Latina), Tailândia, China, Japão, Polônia, República Tcheca, Egito e Arábia Saudita. Curiosamente, vem do mundo árabe a maioria dos comentários internacionais nas redes sociais de Montes.

“São leitores muito interessados”, diz ele, que, para comemorar os dez anos do lançamento de “Jantar secreto” no Brasil, decidiu contrariar uma de suas condutas: a de não escrever sequências.

Assim, na edição especial de “Jantar secreto” que a Companhia das Letras lança agora, há uma capítulo extra, com 23 páginas, que mostra como estão aqueles personagens dez anos depois.

“Sempre me pediram uma continuação. Fico muito imerso na história enquanto estou escrevendo, passo a conviver com os personagens até andando na rua, mas, quando termino, não quero mais voltar àquele ambiente.” Durante um período na Bahia, ele teve uma ideia que o incentivou a escrever.

Aos 35 anos, advogado de formação, o carioca Raphael Montes coleciona projetos desde que estreou na literatura em 2012, com “Suicidas”, obra caudalosa sobre nove jovens que se reúnem para se matar em um jogo de roleta-russa. Sua complexidade surpreendeu o júri do prêmio Benvirá, da editora homônima, que acabaria publicando o romance.

Depois de “Suicidas”, Montes ouviu um pedido da mãe, que gostaria de ler uma história de amor, e escreveu “Dias perfeitos” (2014), uma “love story” ao seu estilo, em que não falta sangue: Téo é um rapaz que se revela um psicopata ao sequestrar Clarice, garota por quem se apaixona, obrigando-a a viajar para diversas cidades.

Com apenas dois livros no currículo, Montes conseguiu o elogio de um “papa” da escrita noir, o americano Scott Turow, que vaticinou: “Raphael certamente redefinirá a literatura policial brasileira e vai surgir como uma figura da cena literária mundial”. O que para muitos representaria o topo, para o brasileiro foi apenas mais um degrau.

“Enquanto escrevo um livro, já penso na história do seguinte”, diz. Sua escrita de forte apelo no suspense psicológico logo se adaptou ao audiovisual, mercado no qual trabalha com afinco nos últimos anos, a ponto de emendar projetos.

Pela Netflix, por exemplo, são dois. O longa “Elize: Sombras de uma mulher”, inspirado no caso real de Elize Matsunaga, que assassinou o marido, foi um convite do serviço de streaming. “Eles não estavam satisfeitos com várias versões do roteiro e, como eu já tinha escrito sobre outra personagem real envolvida em um crime, a Suzane von Richthofen, fui chamado.” O filme está disponível desde 22 de julho.

Já “A estranha na cama” é também seu mais recente livro, a ser lançado durante a 28 Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em setembro. A trama já está em processo de adaptação para o audiovisual, com direção de Esmir Filho e lançamento pela Netflix. “Hoje, acredito que estou mais maduro para lidar com a escrita literária e a de roteiros”, afirma. “Nesse trabalho, criei um final para o livro e outro para o filme; há um detalhe importante que os diferencia.”

É a primeira vez que ele se aventura pelo thriller psicológico e erótico. A trama acompanha um casal em crise que decide abrir a relação para salvar o casamento, convidando outra mulher para a cama. O acordo, porém, transforma-se em um jogo de mentiras, segredos e obsessão. “Eu nunca havia escrito uma cena de relação sexual, foi um desafio.”

Sua intimidade com a literatura policial estimulou a Companhia das Letras a criar o Selo Raphael Montes, no qual o escritor vai indicar livros do gênero. Serão três ou quatro títulos por ano, selecionados entre clássicos e contemporâneos. Até o final do ano, deverão sair os dois primeiros. É notório o olhar certeiro do escritor ao apontar, por exemplo, novos autores nacionais do suspense, como Victor Bonini, Bruno Ribeiro, Verena Cavalcante (expoente do “gótico tropical”) e Fabiane Guimarães, que receberam sua chancela. A todos, oferece o conselho que sempre seguiu: “Nunca deixe de publicar. A carreira é feita por vários livros, e não apenas um.”

[Fonte Original]

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