Crianças que vivem em municípios da Amazônia Legal, especialmente na Região Norte, estão mais expostas a riscos ambientais e climáticos, como secas, poluição do ar, chuvas intensas e falta de saneamento básico. Um painel divulgado nesta quinta-feira (23) mostra onde está a maior concentração de municípios com alta vulnerabilidade no Brasil e indica onde políticas públicas precisam ser priorizadas.
Os dados foram divulgados pelo Fundo das Nações para a Infância (Unicef) e a organização global de saúde pública Vital Strategies. O painel consolida 14 indicadores distribuídos em quatro áreas temáticas: ambiente escolar, eventos climáticos extremos, qualidade do ar e infraestrutura ambiental e urbana. Cada município foi classificado em níveis de prioridade (alta, média e baixa), indicando onde há necessidade de ações mais urgentes.
Pedro de Paula, vice-presidente de Inovação Global da Vital Strategies, destaca que o objetivo do painel é permitir que cada município compreenda sua própria realidade, compare seus indicadores e identifique quais problemas exigem maior prioridade na formulação de soluções.
O levantamento mostra que 333 municípios (6% do total) têm alta prioridade em 10 ou mais indicadores. A maior concentração está no Norte, onde 42,4% das cidades se enquadram nessa condição. Na região, os Estados do Pará, Acre e Amazonas se destacam com o maior número de indicadores classificados como de alta prioridade. Na outra ponta, 108 municípios (1,9%) não registram alta prioridade em nenhum dos indicadores analisados.
No Nordeste e no Centro-Oeste, o cenário é intermediário, com média de cinco indicadores classificados como de alta prioridade por município. Nessas regiões, os maiores níveis de vulnerabilidade se concentram em Estados da Amazônia Legal, como Maranhão e Mato Grosso. Já o Sul e o Sudeste apresentam menor exposição aos riscos, com cerca de três indicadores de alta prioridade, em média, por município.
No indicador de qualidade do ar, a poluição por partículas finas acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) tem maior incidência na Região Norte, onde 94% dos municípios apresentam alta prioridade nesse indicador. Em seguida aparece o Sudeste (39%), região que concentra a maior parcela da população infantil.
Apesar de o problema ser comum nas duas regiões, as causas são diferentes. No Norte, a alta concentração de material particulado está associada principalmente às queimadas. Já no Sudeste, sobretudo nas grandes regiões metropolitanas, a poluição é provocada principalmente pelo transporte rodoviário e pela atividade industrial.
O transporte rodoviário, por sua vez, é um fator de poluição do ar classificado como de alta prioridade em 66% dos municípios do Centro-Oeste e em 57% dos municípios do Sul. Já os focos de calor, que medem a ocorrência de incêndios, são um fator de atenção para o Norte (59%) e Nordeste (41%).
Além da poluição do ar, o painel mostra que os eventos climáticos extremos também atingem o país de forma desigual. As chuvas intensas aparecem como um indicador de alta prioridade para 91% dos municípios da Região Norte e 68% dos da Região Sul.
Já as ondas de calor são mais frequentes no Centro-Oeste e no Norte, onde 64% e 60% dos municípios, respectivamente, foram classificados como de alta prioridade. No caso das secas, a maior concentração de municípios prioritários está no Sudeste (38%) e no Centro-Oeste (28%).
A infraestrutura ambiental e urbana também amplia a vulnerabilidade infantil. O acesso à água tratada foi classificado como de alta prioridade em 60% dos municípios da Região Norte e em 48% do Nordeste. No esgotamento sanitário inadequado, os percentuais sobem para 87% e 55%, respectivamente. Já os problemas na coleta de lixo atingem 65% dos municípios do Norte e 42% das cidades nordestinas.
O painel também aponta maior precariedade nas condições de moradia de crianças e adolescentes nas regiões Norte (79%), Nordeste (44%) e Centro-Oeste (40%). Segundo o levantamento, esse quadro amplia a exposição a riscos ambientais e compromete o acesso a serviços essenciais.
A infraestrutura escolar também está entre os principais desafios identificados. Um dos indicadores mede a proporção de matrículas da educação básica em escolas que não dispõem, simultaneamente, de água encanada, esgotamento sanitário e coleta de lixo. A situação é mais crítica na Região Norte, onde 71% dos municípios foram classificados como de alta prioridade, seguida pelo Nordeste (49%).
Outro ponto de atenção é a escassez de áreas verdes nas escolas. Nesse indicador, 52% dos municípios do Nordeste e 39% dos do Sudeste receberam classificação de alta prioridade. Embora apresente menor vulnerabilidade em outros aspectos, o Sudeste concentra a maior parcela da população infantil do país, o que amplia o impacto potencial.
Layla Saad, representante-adjunta do Unicef no Brasil, explica que crianças e adolescentes são os mais afetados pelos impactos das mudanças climáticas e da poluição. Segundo ela, esse grupo é exposto aos riscos desde muito cedo e carrega os efeitos ao longo da vida, o que pode comprometer seu desenvolvimento no futuro.
“Esses efeitos não alcançam todas as crianças da mesma forma. Tem crianças que estão realmente desproporcionalmente impactadas pela poluição e pelos efeitos das mudanças climáticas. E essas são crianças que já vivem em uma situação de maior vulnerabilidade, privadas de outros direitos. Estamos falando de crianças e adolescentes que moram em lugares distantes e de difícil acesso, com serviços precários; de meninas e meninos indígenas, quilombolas, principalmente negros. Estamos falando também de migrantes, de refugiados e de crianças e adolescentes com deficiência”, afirma Saad.
Danilo Moura, especialista em Clima e Meio Ambiente do Unicef no Brasil, explica que, quando falamos de eventos extremos, como calor, chuva ou seca, não há o que os governos possam fazer no curto prazo, ou de forma imediata, para lidar com esses problemas. Moura afirma que o painel propõe formas de adaptação.
Moura também afirma que a Amazônia é um caso especial porque combina dois tipos de vulnerabilidade. “É uma região muito quente, em que chove muito e que, nos últimos anos, especialmente durante o último El Niño, entre 2023 e 2024, também enfrentou períodos de seca com impactos sobre as comunidades. Precisamos dar uma atenção especial que leve em consideração essa interação entre vulnerabilidade social e vulnerabilidade climática e ambiental, para pensar quais são as estratégias para priorizar a região”, afirma.