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Segundo título original da ressurreição do selo Vertigo Comics a chegar ao fim do primeiro arco (o primeiro foi Bleeding Hearts), End of Life é uma debochada e espalhafatosa sátira do clássico tropo do assassino caçado por assassinos que é muito querido de produções audiovisuais como as da franquia John Wick e tantas outras que pega tudo o que esperamos dessa premissa simples e põe de cabeça para baixo, derramando doses generosas de humor escrachado e politicamente incorreto, mas sem perder a pegada violenta, mesmo que dentro de toda uma extravagância cômica que acaba fazendo com que as mortes e a sanguinolência pareçam meros adereços. Com Kyle Starks no roteiro e Steve Pugh na arte, o primeiro arco dessa publicação mensal entrega muito divertimento e um protagonista detestável, mas que, de alguma forma, o leitor acaba sendo levado a torcer por ele, mesmo que a contragosto.
Eddie Stallion (codinome Stallion ou, em português, Garanhão) é um assassino profissional que, diferente da imagem inteligente, sisuda, séria e discreta de tantos que conhecemos nas mais variadas mídias, é um completo idiota de cabelo loiro espetado, tatuagem de cavalo no pescoço e terno vermelho que é a materialização da irresponsabilidade e imbecilidade humanas, sempre pronto a atirar e matar sem pensar e que, logo no início da primeira edição do arco inicial de seis, está envolvido no assalto potencialmente muito lucrativo de uma cobertura de luxo para que foi chamado no último minuto por conhecidos. Apesar de Eddie fazer parte da organização criminosa The Menagerie (O Bestiário ou O Zoológico), ele demora a perceber que ele está assaltando justamente os tesouros de O Corvo, o líder da Costa Leste do grupo, o que o torna, da noite para o dia, o homem mais procurado dos EUA.

Sem ter para onde ir, ele foge para a cidadezinha de Pluto, que fica à sombra de um parque temática abandonado, onde seu pai George – um dos fundadores d’O Bestiário – mora sozinho depois da morte de sua segunda esposa. No entanto, na última vez em que eles se viram, George expulsou Eddie de casa dizendo que mataria o filho se ele um dia voltasse, promessa que ele ainda pretende cumprir, mesmo em estado terminal de câncer e mesmo sendo uma figura muito querida pelos habitantes locais que, claro, não sabem de seu passado sombrio como o primeiro Garanhão. Com isso, cria-se uma dinâmica familiar tensa que é marcada pela chegada de membros da organização criminosa atrás de Eddie para exterminá-lo e que, de bônus, envolve também o chefe do crime local que é ninguém menos do que o antigo cartunista dono do parque temático falido que, anos antes, havia sido exposto pelas depravações de praxe. Eddie, com suas limitações intelectuais, egocentrismo no volume 11 e maturidade de adolescente, parece alvo fácil, mas, como o pai, ele é osso duro de roer, o que não demora a levar Pluto ao caos.
A diversão de Starks ao construir seu protagonista está em transformá-lo em para raio de todas as qualidades negativas possíveis de um ser humano. Eddie se acha superior a todos na cidade e enxerga Pluto como literalmente o fim do mundo, mas, claro, o ressurgimento de seu amor de infância que agora é enfermeira do pai e sua conexão hesitante com a dona de uma loja de conveniência de posto de gasolina que é mãe de um menino inocente, quebram um pouco esse verniz de completo babaca dele que, aos poucos e com esforço, começa a perceber que talvez haja mais por ali do que simplesmente um lugar para ele se esconder por um tempo. No entanto, isso não quer dizer que o roteiro suaviza as situações, já que o humor na forma de sátira exagerada de clichês do gênero estão no DNA de cada diálogo e de cada situação, mesmo aquelas em que vemos pai tentando matar filho e um sujeito grandalhão com uma máscara de galo chega à cidade para matar Eddie.
O trunfo do roteirista é zombar de tudo e de todos e não deixar o leitor gostar demais de Eddie sem que se tenha que fazer o esforço mental de glosar muita coisa – ou quase tudo – para tornar isso algo minimamente palatável. Eddie é um imbecil completo. Seu pai só não é igual, pois sua idade o permitiu ver aquilo que nem passa pela cabeça do filho ainda, se é que um dia passará: que a vida é curta e que ela não é feita apenas de coleções gigantescas de tênis absurdamente caros e noites de esbórnias. E Steve Pugh, na arte, faz tudo ser exuberante, excêntrico e quase caricato, o que funciona como mecanismo visual para exacerbar o humor mesmo nos momentos mais sérios e violentos, em uma combinação inseparável de texto e imagem que dá o tom da narrativa deste a primeira página da primeira edição. A dupla criativa, com toda sua veia sacana que pega as convenções do gênero e as arremessa pela janela, faz do primeiro arco de End of Life um ótimo início para um dos mais detestáveis personagens dos quadrinhos. Que venha mais do Garanhão!
End of Life – Vol. 1 (EUA, 2026)
Contendo: End of Life #1 a 6
Roteiro: Kyle Starks
Arte: Steve Pugh
Cores: Chris O’Halloran
Letras: Becca Carey
Editoria: Matthew Levine, Chris Conroy
Editora: Vertigo Comics (DC Comics)
Datas originais de publicação: 11 de fevereiro, 11 de março, 08 de abril, 13 de maio, 10 de junho e 08 de julho de 2026
Páginas: 168