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quinta-feira, julho 23, 2026

Crítica | Odisseia (Graphic Disney) – Plano Crítico

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A Odisseia, obra clássica da literatura grega antiga atribuída ao poeta Homero, carrega em sua “essência” uma estrutura narrativa altamente visual e dinâmica que se alinha perfeitamente ao formato das graphic novels. A jornada repleta de monstros mitológicos, intervenções divinas e cenários marítimos dramáticos oferece aos ilustradores um terreno fértil para a criação de painéis expressivos e sequências de ação impactantes. Essa transição do texto épico para a arte sequencial preserva o ritmo de aventura da saga ponto de partida e facilita a absorção do mito por novos públicos, transformando os antigos versos em uma experiência cinematográfica estática nas páginas dos quadrinhos. Percebendo essa vocação natural do épico para o apelo visual, a Disney encontrou na jornada de retorno de Odisseu a oportunidade ideal para desenvolver uma sátira rica e bem-humorada. Ao transpor os perigos do Mar Mediterrâneo para o universo de Patópolis, a companhia conseguiu fundir a reverência ao clássico com a leveza de suas histórias tradicionais. O resultado é uma paródia que preserva a espinha dorsal da narrativa homérica sobre a conturbada volta para casa após a Guerra de Troia, mas que subverte a solenidade dos deuses e heróis ao vesti-los com as personalidades e os trejeitos icônicos de seus personagens mais famosos. É uma jornada divertida e de leitura fluída.

Lançada no Brasil em 15 de julho de 2024 pela editora Panini, a edição em quadrinhos faz parte de uma prestigiada linha de luxo que adapta grandes obras da literatura mundial. O volume conta com 96 páginas em formato de capa dura, apresentando um acabamento diferenciado para os leitores brasileiros. A produção nacional foi realizada pelo Studio 313, trazendo uma tradução assertiva de Marcelo Alencar e um cuidadoso projeto editorial assinado por Fábio Figueiredo, complementado por um prefácio de Stefano Petruccelli que exalta o poema original como “a história das histórias”. O roteiro da HQ foi desenvolvido pelo escritor italiano Roberto Gagnor, enquanto os desenhos ficaram sob a responsabilidade do artista Donald Soffritti. A dupla contou ainda com o talento de Ivan Bigarella e Andrea Cagol na composição da arte da capa. Em termos visuais, a obra se destaca de maneira positiva quando comparada à adaptação da Ilíada pertencente à mesma coleção. Embora os quadros desta edição continuem transbordando ação, o desenvolvimento das cenas é menos caótico e livre de poluição visual, o que resulta em uma leitura consideravelmente mais limpa, fluida e agradável.

A trama reimagina os mitos antigos conectando-os diretamente com temas da sociedade contemporânea, fazendo piadas inteligentes sobre o uso de redes sociais e as armadilhas do consumismo moderno. Dentro desse contexto atualizado, os heróis e divindades ganham roupagens cômicas e características marcantes. Um dos grandes charmes da narrativa está na manutenção dos famosos epítetos homéricos, que foram adaptados de forma divertida para acompanhar as peculiaridades de cada um dos personagens envolvidos na jornada. Os papéis principais do épico foram distribuídos entre o núcleo central de Patópolis, transformando figuras conhecidas em lendas gregas. O camundongo Mickey assume o papel do grande herói da jornada como Mickodisseu, o “das grandes orelhas”. Enquanto isso, sua eterna namorada Minnie interpreta Penélope, que precisa usar de astúcia para enrolar o máximo que pode os insistentes pretendentes ao trono de Ítaca. No Monte Olimpo, o avarento Tio Patinhas encarna a divindade mais poderosa de todas no papel do próprio Zeus.

O restante do elenco clássico completa o panteão de aliados e deuses que moldam o destino do protagonista. O Pateta assume a função de narrador da história como Patetomero, uma versão do poeta Homero que sofre com uma constante falta de memória. A pata Margarida atua como a deusa Atena, agindo como a protetora oficial dos personagens principais ao longo da aventura. Por fim, Peninha desempenha o papel de Hermes, o confuso mensageiro dos deuses que adiciona ainda mais caos e comédia ao percurso. A tradução adota uma postura bastante específica ao suavizar o tom da narrativa épica original, diluindo toda a violência brutal do poema homérico em passagens amenas, leves e essencialmente cômicas. Embora os episódios mais marcantes da viagem sejam mantidos, a escolha por essa abordagem humorística acaba reduzindo o potencial de aventura e o senso de perigo que costumam caracterizar outras traduções da Odisseia para o formato de graphic novel. Entre as liberdades criativas e brincadeiras linguísticas propostas para aproximar o texto do idioma grego antigo, destaca-se a substituição sistemática da letra “C” do nosso alfabeto pela letra “K” em diversas passagens.

 No âmbito familiar, Minnie surge como Minnélope, a paciente namorada do protagonista, enquanto o filho Telêmaco é criativamente dividido em dois personagens, dando vida aos impacientes sobrinhos do herói, chamados Telê e Macô. Os bastidores da criação revelam as referências que moldaram a identidade visual e narrativa desta versão. O roteirista Roberto Gagnor compartilha que sua proximidade com os clássicos vem desde a juventude, graças aos seus pais que eram professores de literatura, e revela ter buscado inspiração em pinturas do século XIX e no filme épico Troia, de 2004, para estruturar determinados momentos. Já o desenhista Donald Soffritti detalha seus próprios desafios e homenagens na composição gráfica, mencionando que utilizou referências da animação A Pequena Sereia para desenhar os tentáculos de uma criatura monstruosa. O artista aponta ainda que o trecho mais complexo e desafiador de todo o seu trabalho foi coordenar os movimentos e o dinamismo dos personagens durante a clássica cena do desafio dos arcos, que ocorre bem próximo ao desfecho da história. Em linhas gerais, uma tradução ousada e bastante peculiar, espaço narrativo onde patos são deuses e ratos são humanos.

Odisseia (Topodissea – Il ritorno del Topolinide / Libro secondo – Topolitaca!) — Itália, 8 e 15 de agosto de 2018
Código da História:
I TL 3272-1P
Publicação original: Topolino (libretto) #3272 e 3273
Editora original: Mondadori, Disney Italia, Panini Comics
Roteiro: Roberto Gagnor
Arte: Donald Soffritti
Editora no Brasil: Panini
Tradução: Marcelo Alencar
Capas originais: Marco Gervasio, Donald Soffritti, Giulio Paganelli
96 páginas.



[Fonte Original]

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