O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo brasileiro não aceitará passivamente o chamado “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos e criticou a mistura de questões econômicas com disputas políticas. Segundo o ministro, em entrevista à Rede TV! na noite desta terça-feira, os argumentos utilizados para justificar as tarifas são inconsistentes.
Durigan citou como exemplo as críticas americanas ao Pix, classificando como falsa a alegação de que o sistema prejudicaria a concorrência. Para o ministro, a lógica das medidas adotadas pelos EUA está ligada a interesses políticos e a disputas de política externa, o que acaba prejudicando agricultores, trabalhadores e famílias de ambos os países.
O governo, afirmou, seguirá explicando sua posição por meio de entrevistas, artigos e manifestações públicas, sempre defendendo a soberania brasileira. Ao mesmo tempo, manterá aberta a busca por uma solução negociada. “Vou aproveitar encontros internacionais, como a próxima reunião do G20 à qual comparecerei, para dialogar com representantes americanos e reforçar que não há justificativa econômica para o conflito comercial, já que o Brasil registra déficit na balança comercial com os Estados Unidos”, argumentou o ministro.
Segundo Durigan, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já buscou diversas vezes uma aproximação com o governo americano. Ele relembrou conversas realizadas com Donald Trump e afirmou que o Brasil apresentou propostas para fortalecer a relação bilateral.
Questionado sobre a possibilidade de o impasse ser resolvido antes das eleições deste ano no Brasil, Durigan demonstrou ceticismo. Na avaliação dele, enquanto houver a percepção de que as medidas tarifárias servem como instrumento de interferência política, especialmente em temas eleitorais, as chances de uma solução rápida permanecem reduzidas. Mesmo assim, o Brasil seguirá buscando o diálogo sem deixar de adotar medidas de proteção aos seus interesses.
O ministro destacou ainda que o governo pretende ampliar os horizontes do comércio exterior brasileiro por meio da abertura de novos mercados. Segundo Durigan, enquanto o comércio com os Estados Unidos tem perdido espaço relativo, as relações comerciais do Brasil com o restante do mundo estão se expandindo. Ele afirmou que Lula já manifestou a Trump o desejo de ampliar os negócios bilaterais e que o objetivo brasileiro continua sendo fortalecer essa parceria.
Em relação aos efeitos econômicos do tarifaço, Durigan avaliou que não há riscos significativos para os principais indicadores macroeconômicos do país. Na sua visão, inflação, desemprego e equilíbrio das contas externas não deverão sofrer impactos relevantes, dada a solidez da economia brasileira.
Isso não significa, contudo, que determinados setores não sejam prejudicados. Ele citou segmentos como o moveleiro, o calçadista e produtores de frutas do Nordeste, que desenvolveram produtos e cadeias produtivas voltadas para o mercado americano e podem perder espaço com as novas tarifas. “Para esses setores, o governo trabalha em medidas de apoio, incluindo crédito com juros reduzidos e carência para pagamento, além de ações para facilitar o acesso a novos mercados”, elencou o ministro. Durigan observou que exportadores de commodities costumam ter maior facilidade para diversificar destinos, enquanto fabricantes de produtos industrializados, como máquinas e móveis, enfrentam mais dificuldades.
Ao comentar a chamada “taxa das blusinhas”, o ministro negou que o governo esteja propondo a volta da cobrança. Segundo ele, a tributação foi criada após uma explosão das importações de baixo valor, especialmente durante a pandemia, quando empresas passaram a utilizar pessoas físicas para escapar da tributação.
Durigan afirmou que o governo também identificou falhas de controle sobre os produtos que entravam no país e, por isso, passou a exigir informações mais detalhadas das plataformas à Receita Federal. O objetivo, disse, foi criar isonomia com os produtores nacionais. Ele reconheceu que houve reclamações sobre a alíquota de 20% e que as importações caíram após a mudança, mas afirmou que o governo continua monitorando os efeitos da medida.
Sobre o subsídio aos combustíveis, Durigan explicou que ele está diretamente relacionado ao comportamento dos preços internacionais do petróleo devido aos conflitos no Oriente Médio. Segundo o ministro, momentos de alta da commodity elevam a arrecadação pública por meio dos royalties pagos pelas empresas do setor que atuam no país. Nesses casos, o governo utiliza parte dessa receita adicional para aliviar os impactos da alta dos combustíveis sobre a população. “Caso os preços do petróleo recuem de forma consistente, o subsídio deixará de fazer sentido e deverá ser retirado”, afirmou.
Ao falar sobre o programa Desenrola, o ministro avaliou que a iniciativa teve boa adesão da população e que não há necessidade de uma nova edição. Segundo ele, o programa surgiu em resposta ao forte endividamento acumulado durante a pandemia e ao elevado nível dos juros no Brasil, situação que dificultou o pagamento das dívidas por milhões de pessoas. Para Durigan, o programa foi concebido como uma medida excepcional e não deve se transformar em uma política permanente.
Sobre os juros elevados, Durigan argumentou que sua principal preocupação tem sido melhorar as contas públicas e recuperar a credibilidade fiscal do país. Segundo ele, a atual gestão assumiu compromissos pendentes da administração anterior e trabalhou para equilibrar o resultado das contas do governo. O ministro afirmou que o esforço de ajuste continuará nos próximos anos e que a consolidação das contas públicas contribui para a redução dos juros.
Nas relações com o Congresso Nacional, Durigan reconheceu os desafios do diálogo político, mas afirmou que o governo tem conseguido responder adequadamente às pressões. Segundo ele, todos os Poderes devem compartilhar a responsabilidade fiscal e é fundamental evitar a aprovação de medidas que comprometam as contas públicas.
O ministro disse acreditar que o risco das chamadas “pautas-bomba” foi reduzido, mas ressaltou a necessidade de continuar explicando ao Congresso os impactos negativos dessas propostas sobre o futuro das finanças públicas.
Ao comentar o caso do Banco Master, Haddad afirmou que o episódio envolve não apenas questões regulatórias, mas crimes. Na sua avaliação, situações dessa natureza devem ser tratadas pelas autoridades policiais, pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário. O ministro disse ver o caso com “repulsa” e defendeu a responsabilização de eventuais envolvidos.
Ao mesmo tempo, reconheceu que o episódio revelou falhas de supervisão que precisam ser corrigidas. Entre as medidas necessárias, citou o fortalecimento da fiscalização por parte do Banco Central, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Receita Federal. Segundo Durigan, a Receita identificou irregularidades e comunicou as autoridades competentes, mas o sistema de supervisão pode e deve ser aprimorado.
Por fim, Durigan comentou o ambiente pré-eleitoral e afirmou ver poucas propostas econômicas concretas vindas da oposição. Segundo ele, o debate tem sido marcado por um “deserto de propostas” e por tentativas de interferência estrangeira na política nacional. Na sua avaliação, Lula venceu o debate sobre políticas sociais e os brasileiros não aceitam retrocessos nessa área, assim como não toleram o retorno da inflação elevada.
Durigan defendeu o fortalecimento do arcabouço fiscal, a revisão de gastos obrigatórios e medidas que permitam a redução estrutural dos juros. Para ele, o tema central da próxima eleição será a manutenção da inflação sob controle e do desemprego em níveis baixos.