Bombeiros correram contra o tempo nesta terça-feira para controlar grandes incêndios florestais que provocaram evacuações sem precedentes de dezenas de milhares de pessoas na França e na Espanha, enquanto a Europa Ocidental se prepara para enfrentar uma nova onda de calor.
Os incêndios devastaram uma região que já vinha sendo castigada por um verão excepcionalmente quente e seco. As equipes de combate tentavam aproveitar as condições climáticas mais favoráveis antes da chegada de uma nova elevação das temperaturas, prevista para quarta-feira.
Na França, o clima era de consternação após os incêndios devastarem a península de Cap Ferret, na costa atlântica, um destino turístico popular, e se espalharem nos últimos dias por áreas ao redor da região de Bordeaux. O presidente Emmanuel Macron afirmou que o país pode estar enfrentando sua mais grave crise de incêndios florestais desde a Segunda Guerra Mundial.
As autoridades regionais de Nouvelle-Aquitaine e da Gironda, onde fica Bordeaux, informaram na rede social X que o incêndio havia sido contido nesta terça-feira, apesar de alguns focos de reignição, mas alertaram que a previsão do tempo continua desfavorável.
Na Espanha, as autoridades ampliaram nesta terça-feira a redução das medidas de emergência relacionadas aos incêndios, autorizando o retorno de moradores a 13 municípios e outras áreas afetadas na região de Madri e na província de Ávila.
“Estamos começando a enxergar uma luz no fim do túnel no combate a esses incêndios”, disse o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, a jornalistas.
Uma mulher que estava internada em estado crítico após sofrer queimaduras graves em um incêndio florestal próximo a Almería, no sul da Espanha, em 9 de julho, morreu, informaram autoridades de saúde. Com isso, o número de mortos nesse incêndio subiu para 14.
A Europa, o continente que mais aquece no mundo, enfrentou neste ano ondas de calor recordes. Cientistas afirmam que as mudanças climáticas provocadas pela atividade humana intensificam o calor e a seca, criando condições para que incêndios florestais se espalhem mais rapidamente, durem mais tempo e sejam mais destrutivos. Sánchez afirmou que ignorar essa realidade torna a população ainda mais vulnerável aos seus efeitos.
Grandes incêndios florestais, como o da Gironda, são capazes de criar seu próprio microclima. O calor intenso e a fumaça ascendente formam enormes nuvens de tempestade que, em alguns casos, produzem ventos fortes e raios capazes de provocar novos focos de incêndio. O fenômeno, conhecido como “pyrocumulonimbus”, já foi observado em diversos países afetados por grandes incêndios, entre eles Austrália e Canadá.
“Estamos lutando contra um monstro”, afirmou Eric Brocardi, porta-voz da associação de bombeiros da França, acrescentando que esse tipo de fenômeno tende a se tornar mais frequente.
Segundo o Reuters Climate Monitor, a temperatura em Bordeaux deveria atingir 33°C nesta terça-feira, 7,1°C acima da média registrada entre 1961 e 1990. Na região de Madri, a máxima prevista era de 37°C, 5,5°C acima da média histórica.
O serviço meteorológico francês, Meteo France, prevê que o calor atinja seu pico na quarta-feira, quando os termômetros em Paris poderão chegar a 38°C, mas afirmou que a duração da onda de calor “será determinada nos próximos dias”.
Ondas de calor mais frequentes e intensas vêm provocando milhares de mortes em excesso e causando transtornos cada vez maiores ao cotidiano, desde interrupções no transporte ferroviário e rodoviário até dificuldades para a navegação fluvial. Na Bulgária, um navio de passageiros encalhou durante a madrugada no rio Danúbio devido ao baixo nível da água, informaram as autoridades locais.
Moradores relatam ‘inferno vermelho’
Outros países da União Europeia e a Turquia enviaram aviões de combate a incêndios tanto para a Espanha quanto para a França. Suécia, Portugal, Suíça e Sérvia também mobilizaram equipes terrestres.
A intensidade e a duração dos incêndios, no entanto, levantam dúvidas sobre a disponibilidade de recursos para enfrentá-los.
A Avincis, maior empresa europeia de serviços aéreos de emergência, alertou que a Europa não está preparada para temporadas de incêndios florestais mais longas e severas, já que suas aeronaves especializadas passaram a ser necessárias praticamente durante todo o ano.
A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho afirmou que os serviços de resposta a emergências enfrentam pressão crescente na Espanha e na França à medida que as evacuações continuam.
“Esse é um padrão que estamos observando cada vez mais na Europa: ondas de calor, seca e incêndios florestais alimentando uns aos outros, enquanto as comunidades sofrem as consequências”, afirmou Maria Alcazar Castilla, diretora regional adjunta da entidade para a Europa, defendendo maiores investimentos em preparação e adaptação às mudanças climáticas.
Para quem foi atingido pelos incêndios, a fuga muitas vezes significou apenas conseguir retirar familiares e animais de estimação, deixando todo o restante para trás.
O espanhol José Miguel Encinas, de 53 anos, evacuado em La Vall d’Uixó, no leste da Espanha, descreveu cenas de “caos total”.
“Parecia um filme em que o chão do inferno se abre e você vê aquele inferno vermelho.”