Prompt: “Entre na conta da Stripe da minha empresa, revise todas as transações do segundo trimestre, sinalize atividades atípicas e prepare um relatório detalhado de fluxo de caixa e despesas para segunda-feira.”
Em poucos minutos, seu agente de IA está operando dentro de um dos sistemas financeiros mais sensíveis do seu empregador, com um acesso autorizado por você.
Até pouco tempo atrás, você precisaria fazer o login manualmente ou providenciar outra forma de acesso para o agente. Agora, empresas como a 1Password estão eliminando essa barreira e permitem que agentes de IA façam login com segurança em seu nome, sem revelar suas credenciais ao agente.
A conveniência é inegável, mas o risco também: depois que você autoriza um agente de IA e ele sai do controle, o que acontece com o seu emprego ou com a reputação da sua organização?
Como funcionário da sua organização, você pode aprovar uma credencial de login. A 1Password faz o login do Claude, o que na prática permite que a IA use a sua senha em seu nome (a 1Password afirma que as credenciais não são vistas pelo Claude), e o a tarefa desejada é realizada dentro da conta para você.
É claro que essa transição torna muito mais fácil navegar pelos fluxos de trabalho de IA, especificamente dentro do Claude, ao eliminar mais uma camada de fricção. Mas movimentos como esse impõem um novo desafio aos trabalhadores na era da IA.
Cada vez mais, os funcionários recebem dados sensíveis para trabalhar em colaboração com máquinas e algoritmos poderosos.
Isso dá poder, mas obriga a perguntar: até onde vamos? Quanto seria demais? Onde traçamos o limite de acessos e permissões?
A Hugging Face, por exemplo, virou notícia ao relatar um ciberataque de alta velocidade conduzido de ponta a ponta por agentes de IA maliciosos, que executaram cerca de 17 mil ações, o que corresponde ao “cenário de atacante agêntico que o setor vem prevendo”, afirmou a empresa em comunicado. (Modelos da OpenAI foram usados como parte dessa operação; a OpenAI anunciou que vai atuar em parceria com a Hugging Face para tratar a causa raiz do incidente de segurança.)
A ascensão da IA agêntica faz surgir uma habilidade muito importante como necessidade no futuro do trabalho: o discernimento sobre permissões.
Discernimento sobre permissões como habilidade de IA
Se um agente de IA já pode fazer login por você, usar suas senhas e executar tarefas de forma totalmente independente de humanos, os funcionários precisam considerar perguntas como:
- Em quais contas o agente pode entrar?
- Que ações ele poderia tomar com esse acesso?
- Quais dados ele está lendo depois da autenticação e durante a autenticação?
- O que ainda exige aprovação humana?
- E quem é responsabilizado quando um agente age por meio das credenciais de um funcionário e algo dá muito errado?
São perguntas para as quais ainda estamos descobrindo as respostas.
Outra questão crítica que precisamos começar a avaliar é: se um trabalhador usa um agente de IA não autorizado ou concede acesso à senha sem confirmação prévia do departamento de TI do empregador ou do seu gestor direto, isso pode virar um caso disciplinar? E, se sim, com que gravidade?
No pior cenário, um agente de IA agindo em seu nome com as suas credenciais de login poderia enviar uma mensagem não autorizada, iniciar uma comunicação inadequada ou alterar informações críticas para o negócio.
Há riscos que somos obrigados a considerar, como:
- IA agêntica manipulando dados financeiros ou processando cobranças
- Exclusão e/ou sobrescrita de material
- Provocar uma violação de segurança com dados de clientes, o que pode expor o empregador a risco externo por parte de reguladores
O Work Trend Index 2026, da Microsoft, revela que a implantação de IA agêntica está a pleno vapor e que, “à medida que a IA amplia o que as pessoas podem fazer, ela também aumenta o valor do bom discernimento. A maioria dos usuários de IA que entrevistamos reconhece isso”, informou a empresa.
“Questionados sobre quais habilidades humanas se tornam mais importantes à medida que a IA assume mais trabalho, eles apontaram duas no topo da lista: controle de qualidade do resultado da IA (50%) e pensamento crítico — analisar informações de forma objetiva e chegar a um julgamento fundamentado (46%). E 86% dizem que tratam o resultado da IA como ponto de partida, não como resposta final, e que continuam responsáveis pelo raciocínio.”
O índice também destaca um paradoxo: os funcionários estão plenamente prontos para adotar a IA agêntica, mas suas organizações ainda não acompanharam esse ritmo — o que leva ao shadow AI e pode aumentar os incidentes de segurança se os parâmetros adequados não estiverem em vigor.
E isso nos leva à constatação de que a IA agêntica não é um problema apenas da área de tecnologia ou do departamento de TI. É algo que diz respeito a todos os funcionários. Reguladores do setor e entidades certificadoras estão acompanhando essa tendência e reconhecendo os perigos.
O shadow AI está se espalhando
Os empregadores reconhecem a necessidade de adotar IA rapidamente e, francamente, muitos estão sob pressão dos concorrentes e das expectativas do mercado. Mas, em meio a toda essa pressa, correm o risco de comprometer a segurança e a proteção.
O uso de IA não aprovada, ou “shadow AI”, pelos funcionários disparou no último ano e triplicou de 15% para 45%, segundo a Verizon; os trabalhadores sentem necessidade de se adaptar rápido e de experimentar agentes de IA, chegando a adotar uma abordagem BYOAI (bring-your-own-AI) no trabalho, com receio de ficar para trás na carreira se não fizerem isso. Enquanto isso, o custo médio global de uma violação de dados global em 2025 chegou a US$ 4,44 milhões, segundo a IBM.
A IBM também constatou que 97% das organizações que relataram um incidente de cibersegurança relacionado à IA não tinham os controles de acesso adequados para IA.
Organizações e entidades como o NIST e a ISC2, entidade do setor de cibersegurança, estão examinando ativamente exatamente essas questões.
A ISC2, por exemplo, trabalha atualmente em uma certificação chamada AI Security Certification, pensada como referência para o setor (a entidade está coletando sugestões e comentários enquanto a desenvolve), com lançamento previsto para 2027.
O que esperar do futuro da IA agêntica até 2027
Eis o que eu prevejo para o restante de 2026 e para 2027:
Espero que a inteligência e o discernimento sobre permissões se tornem uma responsabilidade formal no trabalho para funcionários de todos os níveis, inclusive com cobrança sobre quem está em cargos de entrada, o que eleva a régua do que se espera de contratações iniciantes.
Essas pessoas vão precisar entender por completo e receber treinamento não só sobre como usar a IA para aumentar a produtividade e gerar receita e escala, mas também sobre em quais sistemas um agente pode entrar, quais dados ele pode acessar e quais ações exigem aprovação humana ou escalonamento.
Tudo isso terá de ser plenamente integrado ao onboarding, ao treinamento anual de compliance e até à avaliação de desempenho dos funcionários — o que significa que o uso não autorizado de agentes de IA vai se tornar explicitamente um caso disciplinar de RH.
Trabalhar em um setor regulado ou de alta exigência ética, como finanças, jurídico, saúde, jornalismo etc., significa que haverá controles adicionais e que os profissionais dessas áreas precisam ter cuidado redobrado.
Também espero que, com o aumento do número de incidentes de segurança relacionados à IA agêntica, os empregadores comecem a adotar políticas de acesso para agentes muito mais rígidas, que vão distinguir tarefas de baixo risco de tarefas de alto risco.
Espero ver também trilhas de auditoria claras, que identifiquem quem solicitou uma ação de IA agêntica, para que um agente de IA fora de controle não se volte desnecessariamente contra um funcionário que seguiu todos os protocolos corretos.
E, claro, com tudo isso, veremos um aumento nas vagas em cibersegurança, compliance e governança de IA. Novos cargos serão criados e funções existentes serão reformuladas em linha com a pressão agêntica que toma conta das organizações.
Então, a IA agêntica está indo longe demais?
A IA agêntica está fazendo exatamente aquilo para o que foi habilitada. O problema é quando ela é adotada mais rápido do que as organizações conseguem adotar e implementar salvaguardas de segurança.
Reportagem publicada originalmente em Forbes.com