O mercado de stablecoins no Brasil vive uma fase de amadurecimento, à medida que avança a regulação de ativos virtuais no país. É o que aponta o estudo “Stablecoins: uma visão do mercado sobre modelos de emissão, governança e regulação”, elaborado pela KPMG em parceria com a Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABcripto), que ouviu bancos e empresas do setor cripto sobre modelos de emissão, governança e riscos.
Compartilhada com o Cointelegraph Brasil, os dados serão apresentados durante o Blockchain Rio. Entre os pontos de consenso, 100% das instituições consultadas defendem que os ativos utilizados sejam submetidos a auditorias independentes periódicas.
Além disso, a transparência das reservas também aparece como prioridade para os executivos entrevistados. Para 70% deles, o principal indicador de confiança é a divulgação periódica da composição, liquidez e localização dos ativos que lastreiam as stablecoins.
O levantamento ouviu executivos de instituições financeiras e Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (VASPs), entre janeiro e junho deste ano, período marcado pela implementação do novo arcabouço regulatório do Banco Central para ativos virtuais, incluindo as Resoluções BCB n.ºs 519, 520 e 521, além da Instrução Normativa n.º 701.
O conjunto de diretrizes passou a exigir autorização prévia de funcionamento, capital mínimo e segregação patrimonial para as administradoras, além de enquadrar formalmente as operações com moedas estáveis referenciadas em moedas estrangeiras na Lei de Câmbio (Lei n.º 14.286).
Todo mundo quer emitir stablecoins
Todos as entidades pesquisadas já emitem ou cogitam emitir stablecoins. Entre os principais pontos na pesquisa, 67% dos executivos defendem que o lastro seja composto, exclusivamente, por reservas em dinheiro e títulos públicos, privilegiando ativos de alta liquidez capazes de reduzir o risco de descolamento da paridade em momentos de estresse de mercado.
Já sobre o modelo de governança, 89% dos participantes preferem uma estrutura centralizada, na qual a instituição emissora toma as decisões sob supervisão direta do regulador, modelo considerado pelos entrevistados como o mais adequado para garantir previsibilidade regulatória e facilitar a supervisão do Banco Central.
“O consenso sobre a auditoria não nos surpreende quando falamos em segurança das reservas, rigor de auditoria e lastro de qualidade não são entraves à inovação, mas a base de confiança que sustenta esse mercado. É essa mesma leitura que levamos ao Banco Central e ao Congresso Nacional, as stablecoins precisam de um regime próprio, como ativos virtuais, e não de um enquadramento pensado para outro tipo de instrumento financeiro”, afirma Julia Rosin, diretora-presidente da ABcripto.
Composição de lastro e papel da custódia:
A pesquisa também mapeou onde o setor entende que os ativos de garantia devem ficar depositados.
- 38% indicam que a custódia dos ativos de lastro deve ser mantida em instituições financeiras reguladas;
- 26% defendem o depósito direto no Banco Central, que, segundo os entrevistados, reduziria o risco da contraparte ao manter a garantia fora do balanço de instituições privadas;
- Os 36% restantes dividem-se igualmente (12% cada) entre contas segregadas em bancos comerciais, modelos híbridos e veículos de propósito específico.
Sobre certificação, 80% dos entrevistados defendem que o emissor de stablecoins deve possuir um selo oficial. Para o setor, o mecanismo funciona como um sinal rápido ao mercado sobre quais projetos atendem aos requisitos mínimos de governança e transparência, reduzindo a assimetria de informação entre emissores, usuários e parceiros comerciais.
“A pesquisa revela um ecossistema cada vez mais maduro, que enxerga as stablecoins não como concorrentes das moedas fiduciárias, mas como uma infraestrutura capaz de viabilizar diferentes casos de uso, ampliando eficiência e inovação no sistema financeiro. Ao mesmo tempo, os resultados mostram que esse amadurecimento vem acompanhado do reconhecimento de que governança robusta, gestão de riscos e compliance regulatório são elementos indispensáveis para fortalecer a confiança dos usuários, das instituições e da sociedade como um todo”, avalia Fábio Lacerda, sócio da KPMG no Brasil.
Demanda corporativa e relação com CBDC
O estudo indica que empresas deverão ser o principal público-alvo das stablecoins nos próximos anos. Para 34% dos entrevistados, esse segmento lidera as oportunidades de adoção, à frente de instituições financeiras, consumidores finais e comerciantes.
Já com relação às principais frentes de uso relacionadas ao papel das stablecoins no futuro do sistema financeiro brasileiro, o setor projeta o seguinte: 50% apontam infraestrutura para pagamentos e câmbio internacional como o principal caso de uso; 25% projetam as stablecoins como principal ativo de liquidação da tokenização de ativos, incluindo Real World Assets (RWA – Ativos do Mundo Real) e outros; e 15% acreditam que a adoção ocorrerá, principalmente, em ambientes institucionais, voltada para tesouraria, liquidez e operações realizadas por câmaras de compensação (clearing house, em inglês).
Para 89% dos entrevistados, a coexistência com uma moeda digital emitida pelo Banco Central — cujo cronograma de implementação segue em avaliação pelo regulador — tende a estimular, e não a competir com a emissão de stablecoins privadas. A leitura do mercado é que a moeda soberana estabelece padrões técnicos comuns de liquidação e compliance, cabendo ao setor privado desenvolver produtos e serviços específicos para pagamentos e negociações operacionais.
“A convivência entre a moeda digital do Banco Central e as stablecoins privadas mostra que o mercado não enxerga concorrência, e sim complementaridade — cada uma cumprindo um papel na infraestrutura de pagamentos do país. Nosso trabalho agora é garantir que a regulação caminhe na mesma lógica: regras proporcionais, que tragam segurança sem concentrar o mercado nas mãos de quem já tem escala para arcar com estruturas de compliance mais custosas”, Diego Perez, Vice-presidente e Diretor de Relações Institucionais da ABcripto.
O estudo foi conduzido conjuntamente pela KPMG no Brasil e pela ABcripto, entre 12 de janeiro e 8 de junho de 2026, com executivos de bancos e Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (VASPs). A amostra foi composta por 70% de VASPs e 30% de instituições bancárias, abordando temas como modelos de emissão, governança, lastro, riscos, integração com CBDCs e os impactos da regulamentação do Banco Central.