Cem filmes, nenhum consenso: uma lista definitiva, arbitrária e perigosamente convicta sobre o melhor que o cinema já produziu.
Diversos veículos de comunicação, nacionais e internacionais, já se aventuraram a produzir suas listas dos melhores filmes de todos os tempos. Nossa elegância impede que citemos nomes — e nosso departamento jurídico agradece —, mas muitas dessas seleções simplesmente não se sustentam depois de alguns minutos de conversa com alguém que tenha visto mais de meia dúzia de filmes. Há listas, por exemplo, capazes de colocar “Um Sonho de Liberdade” em primeiro lugar, incluir obras tecnicamente sofisticadas, mas com roteiros pobres, como “Avatar”, ou elevar à condição de clássico incontornável coisas francamente descartáveis, como “A Princesa Prometida”. Alguém precisava interromper essa escalada de irresponsabilidade. Por isso, a Revista Bula, em parceria informal com a ONU, os Illuminati e outras organizações cuja existência não estamos autorizados a confirmar, incumbiu-me de apresentar a lista definitiva dos 100 melhores filmes de todos os tempos. Definitiva? Sim. Humildemente assumimos esse fardo, essa pretensão e as possíveis consequências diplomáticas. Tamanha convicção se justifica pelos altamente sofisticados, científicos e absolutamente incontestáveis critérios adotados para a seleção — até que alguém apresente argumentos melhores.
A equação considera influência, importância histórica, relevância dentro do gênero, apuro estético, valor artístico, capacidade de sobreviver ao tempo e aquela variável impossível de quantificar que separa um filme apenas competente de uma obra que continua assombrando o espectador vinte anos depois. O problema de qualquer seleção desse tamanho é que cada inclusão produz uma pequena tragédia na porta de saída. Ficaram de fora clássicos mudos como “Nosferatu”, “Intolerância” e “A Carruagem Fantasma”; clássicos sonoros, como “Chinatown”, “A Primeira Noite de um Homem”, “Quanto Mais Quente Melhor” e “Gata em Teto de Zinco Quente”; filmes divertidíssimos, como “De Volta Para o Futuro”, “Os Caça-Fantasmas” e “Curtindo a Vida Adoidado”; obras fundamentais para a formação do caráter, como os primeiros “Rambo” e “Rocky”, “Mad Max”, “Robocop” ou “Conan, o Bárbaro”; filmes de enorme importância cultural, como “Adivinhe Quem Vem Para Jantar?”, “Os Eleitos” e “A Noviça Rebelde”; novelões assumidos, como “Assim Caminha a Humanidade” e “Jezebel”; experiências audiovisuais inusitadas, como “Valsa Russa”, “Boyhood” e “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças”; épicos farofa, categoria absolutamente respeitável, como “Gladiador” e “Coração Valente”; filmes com roteiros primorosos, mas cinematografia discreta, como “A Malvada” e “O Declínio do Império Americano”; e até esfinges intelectuais como “Império dos Sonhos”, “Brazil, o Filme” e “Adeus à Linguagem”, obras diante das quais muita gente faz cara de quem entendeu tudo por absoluto medo de perguntar. Em alguns casos houve empate técnico, como entre “Réquiem Para um Sonho” e “Trainspotting” ou entre a refilmagem de “Scarface” e “Os Intocáveis”. Nessas ocasiões, depois de esgotados os métodos científicos, as planilhas, as consultas aos astros e o jogo de búzios, a subjetividade prevaleceu.
Cem títulos parecem muito até o momento em que se começa a escolher os cem títulos. A partir daí, parecem vinte. Tivemos, portanto, o cuidado de restringir a participação de cineastas de gênio que poderiam facilmente monopolizar metade da lista, como Kubrick, Tarkóvski, Coppola, Bergman, Kurosawa, Orson Welles, David Lean, John Ford, Scorsese, Fellini ou Woody Allen. Só esse critério expulsou obras-primas como “Um Corpo que Cai”, “O Homem que Matou o Facínora”, “Dr. Fantástico”, “Annie Hall”, “O Poderoso Chefão: Parte 2” e “Soberba”, decisão que certamente será utilizada como prova contra nós por algum tribunal internacional de cinéfilos. Reconhecemos também que, em alguns casos, fomos honestamente desonestos: consideramos a “Trilogia de Apu” e a saga “O Senhor dos Anéis” como obras únicas, em razão de sua unidade conceitual e estética. A mesma indulgência não foi concedida a conjuntos muito mais díspares, como os filmes das trilogias “Star Wars” e “Poderoso Chefão”. Injusto? Naturalmente. Toda lista é uma forma civilizada de cometer injustiças e depois defendê-las com argumentos elegantes. Esta é mesmo a lista definitiva dos 100 melhores filmes de todos os tempos? Sem dúvida. Pelo menos até amanhã.
01
Lawrence da Arábia
1962 · David Lean

“Lawrence da Arábia” é o melhor filme de todos os tempos. Por quê? Não é uma obra inovadora que revolucionou a linguagem do cinema, mas acertou em tudo a que se propôs, realizando cada um dos aspectos com excelência, elevando o nível do que foi feito até então e se tornando o padrão para tudo o que seria realizado posteriormente. Magnífico em todos os aspectos técnicos e artísticos, “Lawrence da Arábia” é, ao mesmo tempo, uma biografia romantizada, uma aventura épica, um filme histórico e um sofisticado estudo de personagem. Até os momentos cômicos funcionam. Praticamente todas as cenas são memoráveis, dignas de se tornarem quadros na parede. Podendo ser interpretado sob os mais diversos aspectos, se “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, é um livro catedral, “Lawrence da Arábia” é um filme catedral.
02
2001: Uma Odisseia no Espaço
1968 · Stanley Kubrick

Kubrick conseguiu a façanha de transformar um filme de arte em ícone pop. A cena do buraco de minhoca espacial é o mais próximo que um cinéfilo nerd pode chegar de uma viagem de LSD.
03
Cidadão Kane
1941 · Orson Welles

Durante décadas, “Cidadão Kane” liderou a lista dos melhores filmes de todos os tempos, até ser superado por “Um Corpo que Cai” (que nem mesmo é o melhor filme de Hitchcock) e, em algumas seleções menos influentes, por “O Poderoso Chefão”. Certamente, é o filme mais influente e revolucionário entre os primeiros colocados em qualquer lista, embora não seja perfeito, como demonstrou a decana da crítica americana Pauline Kael, no livro “Criando Kane e Outros Ensaios”. Seja como for, “Cidadão Kane” é uma obra de mestre, surpreendentemente realizada por um jovem de vinte e cinco anos que se tornaria o mais colossal fracassado da história do cinema. Quem começa no auge só pode cair.
04
O Poderoso Chefão
1972 · Francis Ford Coppola

As respostas para todas as perguntas estão na Bíblia, em “O Poderoso Chefão” e no número 42.
05
Andrei Rublev
1966 · Andrei Tarkóvski

Outro filme catedral, “Andrei Rublev” representa a quintessência da arte do mestre russo Andrei Tarkóvski. Contém a poesia visual e sonora de “O Sacrifício”, “O Espelho” e “Nostalgia”, o rigor estético de “Solaris” e “Stalker”, e ainda narra muito bem sua história, como em “O Rolo Compressor e o Violinista” e “A Infância de Ivan”. A sequência da construção do sino concentra em si alguns dos mais belos momentos da história do cinema. Para assistir ajoelhado.
06
Os Sete Samurais
1954 · Akira Kurosawa

O cinema de Kurosawa, diferente de, digamos, Ozu ou Kinoshita, é a ponte perfeita entre a arte oriental e a ocidental. Não por acaso, alguns de seus trabalhos foram refilmados com sucesso. “Yojimbo”, por exemplo, inspirou “Por um Punhado de Dólares”, de Sergio Leone, e “O Último Matador”, estrelado por Bruce Willis. Esse “Os Sete Samurais” inspirou “Sete Homens e um Destino”. O faroeste com Yul Brynner e sua turma é bom, mas o original é obra de mestre. Jamais será igualado. Cenas como a batalha na chuva e o incêndio permanecem gravadas na imaginação de quem as assistiu.
07
O Sétimo Selo
1956 · Ingmar Bergman

Um cavaleiro cruzado jogando xadrez com a morte. Uma ideia seminal, traduzida em uma imagem imortal.
08
O Anjo Exterminador
1962 · Luis Buñuel

A natureza animal do ser humano, exposta com crueza.
09
A Doce Vida
1960 · Federico Fellini

Cada parte do filme representa um dos sete pecados capitais? Tudo bem, Anita Ekberg vale uma temporada no purgatório.
10
Blade Runner, O Caçador de Androides
1982 · Ridley Scott

Mais forte, mais ágil, mais inteligente do que os filmes comuns.
Clássicos essenciais
11–20
11
Ladrões de Bicicleta
1948 · Vittorio De Sica

Um filme neorrealista italiano do pós-guerra que consegue agradar e emocionar qualquer público.
12
Laranja Mecânica
1972 · Stanley Kubrick

13
Apocalypse Now
1979 · Francis Ford Coppola

O filme antibelicista por definição e um estudo profundo sobre a psique humana em situações extremas. É um dos casos no qual a versão do diretor piorou a obra original. A versão “redux” de “Apocalypse Now” é um elefante branco.
14
O Leopardo
1963 · Luchino Visconti

Um dos raros casos em que o filme é tão bom quanto o livro.
15
Janela Indiscreta
1954 · Alfred Hitchcock

Comparo esse filme com um tapete persa. A tradição dos tecelões persas defende que se deve sempre deixar um fio solto em seus maravilhosos tapetes, como forma de testemunho de que apenas Alá é perfeito. Só há um plano “imperfeito” em todas as centenas de cenas de “Janela Indiscreta” e dura apenas uns dois segundos. Veja o filme com atenção e tente descobrir qual é.
16
Cantando na Chuva
1952 · Gene Kelly e Stanley Donen

Tente não sorrir assistindo ao número musical na chuva.
17
Metrópolis
1927 · Fritz Lang

Nosso futuro, se os nazistas tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial.
18
Aurora
1927 · F. W. Murnau

Uma das mais notáveis realizações estéticas da era do cinema mudo.
19
O Terceiro Homem
1949 · Carol Reed

O melhor final infeliz da história do cinema.
20
A Regra do Jogo
1939 · Jean Renoir

Um filme para damas, cavalheiros e criadagem. A sequência da caçada entra no panteão das melhores.
O cânone ampliado
21–50
21
Amadeus
1984 · Milos Forman
Quem não assistiu a essa obra-prima pode se considerar cúmplice do assassinato de Mozart.
22
Rastros de Ódio
1956 · John Ford
Esse é o maior faroeste de todos os tempos? Talvez “O Homem que Matou o Facínora” seja mais bem escrito. Talvez “Johnny Guitar” seja mais instigante. Talvez “Os Brutos Também Amam” seja mais empolgante. Talvez “Meu Ódio Será Sua Herança” seja mais realista. Talvez “A Face Oculta” seja mais profundo. Enquanto os mortais discutem, John Wayne cavalga magnânimo pelo Monument Valley.
23
Encouraçado Potemkin
1925 · Sergei Eisenstein
Eisenstein era fã do Mickey Mouse. Achei que deveria lembrá-los desse fato.
24
Era Uma Vez em Tóquio
1953 · Yasujiro Ozu
Lento e belo como a vida.
25
Olympia
1938 · Leni Riefenstahl
Segundo a crítica de cinema Pauline Kael, “Leni Riefenstahl é um dos cerca de doze gênios criativos que trabalharam com a mídia cinema”. O que a coloca ao lado de figuras como Orson Welles, Hitchcock e Eisenstein. Ela era nazista? Segundo a própria Leni, não era, mas apenas uma artista fascinada pela beleza. No documentário “Olympia”, ela colocou todo o seu talento para fazer o maior de todos os registros dos jogos olímpicos, retratando as competições como balés de corpos em movimento. A política aqui é mero detalhe. Contudo, o mesmo não pode ser dito com relação a “O Triunfo da Vontade”, documentário sobre o congresso do partido nazista de 1934. Por suas escolhas artísticas e más companhias, Leni já foi sentenciada em Nuremberg, mas nunca mais deixou de ser julgada.
26
Ben-Hur
1959 · William Wyler
Um dos melhores filmes bíblicos. A sequência da corrida de quadrigas é a maior cena de ação de todos os tempos. E é apenas uma pequena parte desse filme excepcional, digno de ser admirado por cristãos, pagãos e ateus.
27
O Mágico de Oz
1939 · Victor Fleming
Assista ouvindo “The Dark Side of the Moon”, de Pink Floyd.
28
O Crepúsculo dos Deuses
1950 · Billy Wilder
Comparando esse clássico com a maioria da produção contemporânea, fica a sensação de que Norma Desmond tem razão: os filmes de hoje estão mesmo ficando pequenos demais.
29
Rashomon
1950 · Akira Kurosawa
Um diz que esse filme é bom. Outro que é ótimo. Um terceiro defende que é uma obra-prima. Enquanto isso chove lá fora.
30
Psicose
1961 · Alfred Hitchcock
Hitchcock filmou “Psicose” em preto e branco para não chocar o público. Não foi o suficiente. Até hoje.
31
Amarcord
1973 · Federico Fellini
Um filme para ficar e sair da memória, simultaneamente.
32
Era Uma Vez no Oeste
1968 · Sergio Leone
Esse filme é uma ópera.
33
Morte em Veneza
1971 · Luchino Visconti
O poder avassalador da beleza.
34
A General
1926 · Buster Keaton e Clyde Bruckman
No filme “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolluci, dois personagens discutem quem é melhor: Chaplin ou Buster Keaton? Para um — não por acaso francês —, Chaplin é insuperável, enquanto o outro — um americano — defende que Keaton era um cineasta de verdade, enquanto Chaplin só se preocupava com sua própria performance. Questão de opinião. Pessoalmente, coloco Keaton um degrau acima.
35
Em Busca do Ouro
1925 · Charles Chaplin
O crítico Paulo Emílio Salles Gomes, no ensaio “Chaplin é cinema?”, relativizou a habilidade de cineasta do eterno Carlitos. Chaplin seria um diretor apenas mediano, mas uma grande figura cinematográfica. Nesse “Em Busca do Ouro” temos um Chaplin despido de sentimentalismos ou proselitismo político, preocupado apenas em ser engraçado. Atingiu seu auge, mostrando que poderia ter sido ainda maior do que foi.
36
Meu Tio
1958 · Jacques Tati
Chaplin ou Keaton? Tem gente que prefere Tati. O francês tem o lirismo do primeiro, porém sem seu gosto pelo melodrama, e a habilidade técnica do segundo.
37
Pulp Fiction: Tempo de Violência
1994 · Quentin Tarantino
Quentin Tarantino é o cineasta favorito de oito entre dez jovens cinéfilos descolados. Andar com camisetas tarantinescas é cool! Dono de um toque de Midas pop, grande parte de sua reputação se deve a “Pulp Fiction”. O próprio Tarantino reconhece que jamais conseguirá igualar o que realizou nesse trabalho. “Pulp Fiction” é o seu “Cidadão Kane”. O que não deixa de ser um bom negócio, afinal, Zed is dead, baby, Zed is dead.
38
Manhattan
1979 · Woody Allen
Woody Allen reinventou a comédia romântica com “Annie Hall”. Em “Manhattan” ele foi além, mostrando que também pode ser um grande cineasta quando se dá ao trabalho. “Crimes e Pecados” pode ser mais ambicioso, “Zelig” mais inventivo e “A Rosa Púrpura do Cairo” mais sensível, mas “Manhattan” ainda é seu trabalho mais sofisticado, com enredo mais bem resolvido e tecnicamente irrepreensível. Alguns podem preferir “Match Point”, mas parece-me que outro cineasta poderia filmar o mesmo roteiro com resultados igualmente satisfatórios, ao passo que somente Woody Allen poderia dirigir e estrelar “Manhattan”. É um filme assinatura e uma bela homenagem a Nova York.
39
Taxi Driver
1976 · Martin Scorsese
Você está falando comigo? Não tem mais ninguém aqui. Você está falando comigo?
40
Último Tango em Paris
1972 · Bernardo Bertolucci
É possível ficar melancólico em Paris, sendo o Marlon Brando e não sendo existencialista? Tem solução para isso? Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
41
Teorema
1968 · Pier Paolo Pasolini
Acho que entendi. Tenho certeza que gostei.
42
Roma, Cidade Aberta
1945 · Roberto Rossellini
Anna Magnani é a atriz mais chata de todos os tempos, mas até isso funciona no filme.
43
O Nascimento de Uma Nação
1915 · D. W. Griffith
A certidão de nascimento do cinema enquanto linguagem. Afinal, nem tudo o que é bom e belo é necessariamente justo (KKK! WTF?).
44
No Tempo das Diligências
1939 · John Ford
O primeiro faroeste realmente sério e ainda um dos melhores.
45
A Marca da Maldade
1958 · Orson Welles
Indico o plano sequência na abertura desse filme como forma de aprender a diferença entre realmente ver ou simplesmente olhar uma cena.
46
A Felicidade Não se Compra
1946 · Frank Capra
Um irresistível hino ao otimismo. Nunca foi tão bom ser ingênuo.
47
Stalker
1979 · Andrei Tarkóvski
Em “Stalker”, Tarkóvski apurou sua visão de ficção científica apresentada em “Solaris”. Minha tese sobre esse filme: corpos humanos percorrendo telas expressionistas abstratas.
48
Trinta Anos Esta Noite
1963 · Louis Malle
Um filme existencialista.
49
Sindicato de Ladrões
1954 · Elia Kazan
O deus Brando em sua melhor atuação.
50
Casablanca
1942 · Michael Curtiz
Umberto Eco escreveu certa vez que a força de “Casablanca” está no feliz acúmulo de vários clichês do cinema. Um clichê sozinho incomoda. Vários clichês, com sorte, podem gerar um conjunto harmonioso. É uma explicação. Seja como for, tenho uma longa amizade com esse filme.
51
A Ponte do Rio Kwai
1957 · David Lean
Quem nunca tentou assobiar a marchinha “Colonel Bogey”?
52
Morangos Silvestres
1957 · Ingmar Bergman
O personagem de Woody Allen em “Manhattan” afirmou que Bergman é o único gênio do cinema. Exagero, considerando que o próprio Allen é um gênio do cinema. Em todo caso, “Morangos Silvestres”, assim como “Gritos e Sussurros”, “Persona” e “Fanny e Alexander” são mesmo obras de gênio. Woody Allen fez sua versão de “Morangos Silvestres” em “Desconstruindo Harry”.
53
Trilogia de Apu
1955/1956/1959 · Satyajit Ray
Esqueçam o oscarizado épico “Gandhi” ou mesmo o “Mahabharata” de Peter Brook. Se pretende conhecer algo sobre a Índia, o conjunto formado por “A Canção da Estrada”, “O Invencível” e “O Mundo de Apu” é a melhor porta de entrada. A principal lição que aprendemos com esses filmes é que os indianos não são nem os paspalhos da novela da Globo nem os seres iluminados que muitos hippies de butique imaginam. São gente como a gente.
54
Fahrenheit 451
1966 · François Truffaut
A morte precoce de Truffaut, com apenas 52 anos, foi uma das maiores perdas da história do cinema. Diretor de obras-primas como “Os Incompreendidos”, “Jules e Jim” e “A Noite Americana”, Truffaut ainda produziria muito. Assistindo a “Fahrenheit 451”, fico imaginando que magnífico “livro” desapareceu quando o perdemos.
55
Acossado
1960 · Jean-Luc Godard
Gênio? Louco? Charlatão? Esfinge banguela? Caricatura de si mesmo? O Jean-Luc Godard de hoje tornou-se um fetiche dos cinéfilos PIMBA (Pseudointelectuais metidos a besta), mas ninguém pode lhe tirar a glória de ter sido um verdadeiro “enfant terrible” do cinema entre as décadas de 1960 e 1980. Godard verdadeiramente revolucionou o cinema. Poucos podem dizer isso. “Acossado” foi seu cartão de visitas.
56
12 Homens e Uma Sentença
1957 · Sidney Lumet
Tema espinhoso e polêmico. Cenário praticamente único. Ótimo time de atores, capitaneado por um astro, Henry Fonda. Roteiro muito bem escrito. Fotografia discreta e eficiente. Direção segura. Parece simples, mas fazer o simples bem feito é sempre o mais difícil.
57
Napoleão
1927 · Abel Gance
A era do cinema sonoro ainda deve uma versão definitiva da saga de Napoleão Bonaparte. Esse foi um dos projetos abandonados por Kubrick na década de 1970. Por hora, a melhor realização cinematográfica sobre o imperador francês ainda é esse imponente longa-metragem mudo, repleto de experiências estéticas e sem medo de ser grandioso. Exatamente como seu personagem título.
58
O Exorcista
1973 · William Friedkin
Friedkin é um dos menos reconhecidos entre os cineastas do primeiro time. Fez alguns trabalhos menores, mas tem em sua filmografia obras poderosas, como “Comboio do Medo”, “Operação França” e “Parceiros da Noite”. Merece um resgate. Em seu melhor e maior filme, “O Exorcista”, realizou não apenas a quintessência do terror, mas um drama psicológico dos mais sofisticados. Veja a versão de 1973, o relançamento com efeitos especiais digitais tirou muito da sutileza do filme original.
59
Asas do Desejo
1987 · Wim Wenders
Discutindo o sexo dos anjos, literalmente.
60
Juventude Transviada
1955 · Nicholas Ray
Alguns cínicos afirmam que quando Marlon Brando vestiu suas calças jeans em “O Selvagem”, produziu uma revolução muito maior na juventude do que todos os livros de Marx juntos. Talvez seja um exagero. Mas se somarmos nessa equação a jaqueta vermelha que James Dean usou em “Juventude Transviada”, aí sim teremos algo.
61
A Paixão de Joana D’Arc
1928 · Carl Theodor Dreyer
O mestre Nicholas Ray costumava dizer que o cinema é a “magia dos olhares”. Essa máxima nunca foi tão verdadeira quanto em “A Paixão de Joana D´Arc”, nos magníficos closes em Renée Maria Falconetti.
62
Era Uma Vez na América
1984 · Sergio Leone
Depois de fazer história com seus “faroestes espaguete” na Itália, Sergio Leone foi para a América fazer “filmes de gangster espaguete” no melhor estilo americano. Se não fosse a trilogia do “Chefão”, esse “Era Uma Vez na América” seria o melhor exemplar de um gênero que conta com pérolas como os dois “Scarface”, “Os Bons Companheiros” e “Inimigo Público Número 1”.
63
O Atalante
1934 · Jean Vigo
Nada mais pesado do que a leveza do cotidiano.
64
O Tesouro de Sierra Madre
1948 · John Huston
65
O Bebê de Rosemary
1968 · Roman Polanski
Quem aí não acredita piamente que viu o bebê capiroto? Eu vi, eu vi, sim, eu vi…
66
Touro Indomável
1980 · Martin Scorsese
Martin Scorsese estava convicto que esse seria seu último filme. Por isso concentrou nele todo seu talento. Felizmente, não foi seu último trabalho. Felizmente, Scorsese pensou que seria.
67
Blow Up – Depois Daquele Beijo
1966 · Michelangelo Antonioni
Só uma obra-prima pode ter o mestre Jimmy Page, do Led Zeppelin, como figurante.
68
Tubarão
1975 · Steven Spielberg
Spielberg é um grande cineasta em obras como “A Lista de Schindler”, “A Cor Púrpura” e “O Império do Sol”, mas outros diretores poderiam fazer esses mesmos trabalhos tão bem quanto ele, e talvez até os melhorassem, diminuindo o melodrama. Seu verdadeiro gênio, sua assinatura mais destacada, se manifesta em filmes aventurescos e divertidos, mas nem por isso menos inteligentes, como “Encurralado”, “E.T.” e a série Indiana Jones. Dessa leva, o melhor é “Tubarão”, não por acaso o primeiro “blockbuster” da história.
69
Os Imperdoáveis
1992 · Clint Eastwood
“Todos vão saber que Clint Eastwood é o maior covarde do oeste” (fala de “De Volta Para o Futuro III”).
70
Patton
1970 · Franklin J. Schaffner
O comunistinha covarde que não apreciar a grandeza patriótica desse filme vai levar uns tapas. Em tempo: se fosse um sujeito bonito, George C. Scott teria sido o maior astro de cinema de todos os tempos.
71
Rio Vermelho
1948 · Howard Hawks e Arthur Rosson
O maior exemplo de conflito de gerações da história do cinema.
72
Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas
1967 · Arthur Penn
Nada menos que o filme marco da Nova Hollywood.
73
Um Estranho no Ninho
1975 · Milos Forman
Um filme tão impactante que Jack Nicholson nunca mais conseguiu sair dele.
74
O Silêncio dos Inocentes
1991 · Jonathan Demme
Recomendo que leiam o profundo e complexo ensaio escrito por, acreditem, Olavo de Carvalho. Depois da leitura nunca mais verão “O Silêncio dos Inocentes”, nem o Olavo, da mesma forma.
75
Os Excêntricos Tenenbaums
2002 · Wes Anderson
A prova de que nem todos os escritores que fazem cinema estão traindo a arte.
76
Deus e o Diabo na Terra do Sol
1964 · Glauber Rocha
Lembrando o bom e velho Paulo Francis: o filme é uma porcaria, mas o diretor é um gênio.
77
O Rei Leão
1994 · Roger Allers e Rob Minkoff
(…) Desculpe, não posso escrever nada agora, estou ocupado dançando e cantando “Hakuna Matata”…
78
Veludo Azul
1986 · David Lynch
Existe algo de podre no reino do “american way of life”.
79
O Senhor dos Anéis
2001 / 2002 / 2003 · Peter Jackson
Um filme para dominar a todos.
80
Batman: O Cavaleiro das Trevas
2008 · Christopher Nolan
Por mais que, por exemplo, o “Super-Homem: O Filme”, de Richard Donner, seja icônico e nos tenha feito acreditar que “um homem poderia voar”, ainda está preso no gênero “filmes de super-heróis”. “O Cavaleiro das Trevas” transcende esses limites. É um ótimo filme de super-heróis, mas também é um policial instigante e um suspense de primeira linha. E, claro, apresentou o Coringa definitivo.
81
Os Caçadores da Arca Perdida
1981 · Steven Spielberg
Indiana Jones não faria diferença no desenrolar da história?! Se isso for verdade, então, é como na vida real. Só torna o filme melhor.
82
O Império Contra-Ataca
1980 · Irvin Kershner
“Guerra nas Estrelas” mudou o cinema. Não fosse a canhestra direção de atores de George Lucas, estaria na lista. Essa honra cabe à sua continuação, uma aventura de ficção científica perfeita.
83
Os Intocáveis
1987 · Brian De Palma
Engana-se quem pensa que esse filme é sobre a investigação e captura de Al Capone pelo lendário agente federal Eliot Ness e seus companheiros incorruptíveis. “Os Intocáveis” é um filme sobre cinema.
84
Trainspotting
1996 · Danny Boyle
Foi anunciado como o “A Laranja Mecânica” da nova geração. Agora que a nova geração tornou-se veterana, sabemos que não é. Mas é um dos mais incisivos retratos sobre o mundo contemporâneo produzido pelo cinema.
85
Beleza Americana
1999 · Sam Mendes
Quanto o produtor Steven Spielberg entregou o roteiro para o diretor Sam Mendes, recomendou enfático: “não mude uma linha”. Felizmente, foi obedecido.
86
E o Vento Levou
1939 · Victor Fleming
Esse filme é um novelão. Mas quem disse que uma boa novela não pode ser ótima?
87
Matrix
1999 · Lana Wachowski e Andy Wachowski
Fico imaginando se o filme “Matrix” não é um recurso da matrix para distrair-nos do fato de estarmos todos confinados na matrix, assistindo às duas péssimas continuações de “Matrix”. Se for, a ignorância é mesmo uma benção.
88
Ligações Perigosas
1988 · Stephen Frears
Você vai adorar a sofisticação, refinamento e inteligência desse filme. Quer apostar?
89
Clube da Luta
1999 · David Fincher
Regra número um: Você não fala sobre o clube da luta. Regra número dois: Você NÃO fala sobre o clube da luta.
90
Faça a Coisa Certa
1989 · Spike Lee
Spike Lee tornou-se um patrulheiro insuportável. Felizmente, nesse filme conseguiu fazer a coisa certa ao tratar da questão do racismo sem radicalismo, condescendência ou pieguice.
91
Fale com Ela
2002 · Pedro Almodóvar
Esse Almodóvar me arrepia os cabelos do… (sim, isso é uma citação).
92
Ondas do Destino
1996 · Lars Von Trier
O Dogma 95 em seu momento áureo. Com um final que rasga todas as regras do manifesto Dogma 95. Lars Von Trier é mesmo um cínico, no melhor dos sentidos.
93
Cinzas no Paraíso
1978 · Terrence Malick
Antes de ficar obcecado em colocar meninas bonitas girando sem parar sobre o próprio eixo em projetos pretensiosos e mal acabados, como “Árvore da Vida”, “O Novo Mundo” e “Amor Pleno”, Terrence Malick realmente foi um projeto de gênio. Pena que voltou de seu autoexílio de duas décadas. Funcionava mais como mito recluso do que como cineasta na ativa.
94
Cidade de Deus
2002 · Fernando Meirelles e Kátia Lund
“Favela movie” no melhor estilo chiclete com banana.
95
O Segredo de Seus Olhos
2009 · Juan José Campanella
O pior defeito do cinema brasileiro é o descaso com o roteiro. A maior qualidade do cinema argentino é o cuidado com o roteiro.
96
Viagem de Chihiro
2001 · Hayao Miyazaki
Um filme para ser visto com humildade, ciente de que não basta fazer yoga e comer sushi para achar que entende alguma coisa sobre a riquíssima cultura oriental.
97
Herói
2002 · Zhang Yimou
Existe uma longa tradição de filmes de Kung Fu no cinema. As coreografias são sempre um espetáculo por si só, mas o que torna “Herói” especial, para além do pano de fundo histórico, é o fato de que foi dirigido por um cineasta de verdade. Imaginem se o homem que dirigiu o sensível “Lanternas Vermelhas” tivesse tido a chance de trabalhar com o mestre Bruce Lee. “Herói” é o mais próximo que se pode chegar dessa utopia.
98
Sangue Negro
2008 · Paul Thomas Anderson
Fé, ambição e petróleo. O mais próximo que se chegou de Kubrick após a morte do mestre.
99
Cinema Paradiso
1988 · Giuseppe Tornatore
Uma ode ao cinema. Tudo o que o melodramático “Cine Majestic” tentou ser e não conseguiu. O que prova que talento é mais importante que orçamento.
100
Um Sonho de Liberdade
1995 · Frank Darabont
Figura em algumas seleções de voto popular como o primeiro da lista. Não se justifica, embora seja um ótimo filme. Fica na digna posição de centésimo. Os últimos serão os primeiros?