Questionado sobre o nível de capital do Banco do Brasil (BB), o vice-presidente financeiro Geovanne Tobias afirmou que o acúmulo de capital orgânico está sendo impactado pelo resultado da carteira da instituição, “enfraquecido pelas provisões”. Segundo ele, o banco já está no nível mínimo de “payout”, ou seja, a fatia do lucro líquido distribuída aos acionistas em forma de proventos. O executivo afirmou ainda que o banco está trabalhando para enfrentar “esse meteoro” que está caindo no agronegócio e afetando os resultados do BB.
O capital principal do BB caiu para 11,27% no segundo trimestre de 2026, de 11,59% no primeiro trimestre e 10,97% há um ano.
“A gente está tracionando outros negócios do conglomerado BB para ajudar a amortecer, e, cá entre nós, para quem absorveu R$ 37 bilhões de provisão só neste primeiro semestre e está entregando lucro de R$ 7 bilhões, tudo bem que é muito aquém do que a gente consegue entregar e que nós gostaríamos de estar entregando para os nossos investidores”, afirmou, em teleconferência com analistas sobre os resultados do segundo trimestre. “Mas a gente acredita que a gente vai passar por essa tormenta, por esse meteoro que está caindo no agro, e a gente vai sim retomar esse essa lucratividade do banco.”
Segundo Tobias, parte do capital foi consumido por ajustes prudenciais, para atender exigências do Banco Central (BC). “Se não estivéssemos enfrentando o que estamos enfrentando no agro, não estaríamos tendo essa conversa. Mas nada que nos desespere. Muito pelo contrário, está dentro do nosso planejamento e a gente sabe exatamente quais variáveis mexer para eventualmente melhorar esse índice de capital lá na frente.”
O executivo também afirmou que o banco não vê recessão econômica no próximo ano, prevendo um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 1%.
A Medida Provisória (MP) 1.376/2026, que permite a criação de linhas de crédito para ajudar produtores rurais a pagar ou renegociar dívidas, deve gerar um impacto de R$ 150 milhões a R$ 200 milhões no lucro do Banco do Brasil (BB) a cada R$ 1 bilhão renegociado. A estimativa foi compartilhada por Felipe Prince, vice-presidente de Riscos do BB, durante a teleconferência.
Esse efeito é esperado porque a renegociação gera melhora nas despesas de provisão para devedores duvidosos (PDD) e nas receitas. “Vão ser operações com entrada, vão ser operações com reforço de garantia, para que a gente, inclusive, possa fazer as migrações de estágio”, pontuou Prince. “E aí começam os efeitos positivos. Um efeito de reversão de provisão, um efeito de eu poder voltar a acruar essas operações, lembrando que grande parte dessas operações já não estão acruando.”
O vice-presidente de agronegócios do BB, Gilson Bittencourt, afirmou que, do potencial de R$ 100 bilhões em renegociações para o banco, serão priorizados R$ 36 bilhões em créditos já inadimplentes. “A gente consegue reverter parte dessa provisão [relativa ao crédito inadimplente]. Então, são várias ações ao mesmo tempo.”
Tobias também afirmou que a expectativa para a inadimplência da carteira de pessoas físicas é que ela retorne para patamares inferiores, e que o salto é “pontual” de ajustes feitos em relação ao risco da carteira. “A gente acredita que, para 2027, a gente tem a tendência, sim, na medida que a gente tem focado o crescimento muito no consignado público e no consignado privado, de trazer de volta essa inadimplência dessa carteira para os patamares que a gente via antes.”
Um dos fatores que deve contribuir para a queda da inadimplência é o vínculo automático das operações de crédito consignado quando o trabalhador troca de emprego. “Vai ser implementado, a princípio, a partir do final deste mês, e o processo vai ser automático. […] Isso tenderá a reduzir bastante a nossa inadimplência, permitindo, com essa reestruturação, trazer para um patamar que a gente entende que é aceitável”, disse Bittencourt.
Tobias também afirmou que hoje o custo de risco do BB está acima de 5%, mas o banco irá mirar 3,5% no futuro. “Em média, nossos pares estão trabalhando com esse nível de custo de crédito, mas isso vai depender de como o 2027 vai se desdobrar”, ponderou.
Ainda na teleconferência, Tobias afirmou que o lucro do banco deve ficar na ponta mais baixa das projeções (“guidance”) da instituição para este ano. O “guidance” do BB de lucro líquido para 2026 é entre R$ 18 bilhões e R$ 22 bilhões. No primeiro semestre, atingiu R$ 7,3 bilhões.
“Existe o risco de furar [para baixo]? Sim, mas no pior dos cenários é coisa de 5%, 6%. Por enquanto, trabalhamos para atingir o guidance”, comentou. Já o guidance para provisões ele voltou a afirmar que deve ficar mais perto do topo do intervalo, que vai de R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões, sendo que no primeiro semestre somou R$ 37,3 bilhões.
Sobre a inadimplência em cartões, que saltou de 7,12% para 14,58% do primeiro para o segundo trimestre, Tobias explicou que houve essa “estilingada” especialmente em função de uma política de parcelamento automático de fatura nas classes D e E que o banco havia adotado, mas que essa política já foi alterada e, agora, para fazer o parcelamento, é preciso antes dar uma entrada. “Já vemos uma melhora em julho”, comentou a presidente do banco, Tarciana Medeiros.
Bittencourt foi questionado pelos analistas se não está preocupado com os efeitos do El Niño. Ele disse que o BB está, sim, preocupado, mas também apontou que, historicamente, a perda efetiva na produção agrícola brasileira com o fenômeno é pequena, embora o impacto possa ser mais forte em determinadas regiões e culturas específicas. “Estamos atentos, mas nem por isso vamos deixar de financiar a produção”.