A desaceleração da economia da China se agravou no início do segundo trimestre em ritmo fraco, renovando a pressão sobre as autoridades para apoiar o crescimento, à medida que o boom do setor de tecnologia não consegue impulsionar segmentos que ficaram à margem da expansão global da inteligência artificial.
A produção industrial cresceu 4,5% em julho na comparação anual, desacelerando pela primeira vez em três meses e ficando abaixo das estimativas, segundo dados divulgados na segunda-feira pelo Escritório Nacional de Estatísticas. Em contraste, a produção de equipamentos eletrônicos disparou mais de 19%.
Divisão semelhante surgiu nos investimentos em ativos fixos, que, no total, registraram queda de 6,7% nos primeiros sete meses do ano — maior do que a prevista. O crescimento das vendas no varejo desacelerou para 0,6%, também abaixo das expectativas, enquanto a taxa de desemprego urbano apurada por pesquisa subiu para 5,2%.
Economistas do Société Générale, entre eles Wei Yao, afirmaram que o ritmo de crescimento do país está “desmoronando” fora do setor de tecnologia. “Os dados econômicos da China continuam decepcionando, com um padrão cada vez mais em forma de K: força na tecnologia e fraqueza em quase todo o restante”, disseram em relatório.
Enquanto um superciclo global de investimentos em inteligência artificial impulsiona a demanda por exportações chinesas, o avanço da manufatura de alta tecnologia ajuda a mascarar a estagnação do consumo interno. No segundo trimestre, o crescimento econômico ficou abaixo da meta anual do governo, de 4,5% a 5%.
A demanda interna fraca e os transtornos provocados por condições climáticas extremas prejudicam uma economia já enfraquecida por meses de austeridade fiscal. Chuvas intensas e ventos fortes atingiram grandes áreas da China no mês passado, interrompendo temporariamente as atividades de fábricas e portos, além de provocar apagões e a retirada de dezenas de milhares de pessoas para locais seguros.
Jacqueline Rong, economista-chefe para China do BNP Paribas, afirmou que os números de julho indicam que o crescimento do PIB provavelmente desacelerou para cerca de 4,1%, abaixo dos 4,3% de que Pequim precisa para atingir sua meta anual. As quedas do investimento total e dos gastos de capital em infraestrutura se intensificaram em relação a junho, com recuo de dois dígitos no mês passado, segundo a especialista.
Embora o impacto possa ser temporário, as autoridades devem acompanhar os dados de perto para avaliar se será necessário ampliar o apoio à economia para manter a meta de crescimento sob alcance no restante do ano.
“O conjunto de dados parece decepcionante em todas as frentes”, disse Lynn Song, economista-chefe para a Grande China do ING Bank. “Mais um mês de deterioração aumenta as chances de algum apoio nas próximas semanas e meses para ajudar a estabilizar o crescimento.”
Chang Shu e David Qu, economistas da Bloomberg Economics, acrescentaram que todos os principais indicadores de julho ficaram abaixo das expectativas, mostrando que o ritmo da economia perdeu ainda mais força no início do terceiro trimestre.
“Pelo lado da demanda, o consumo privado se enfraqueceu moderadamente, enquanto a contração dos investimentos se aprofundou de forma acentuada. Isso sugere que os gastos fiscais não se recuperaram do ritmo fraco observado no primeiro semestre”, disseram eles.
O Escritório Nacional de Estatísticas afirmou que, embora a economia tenha permanecido “estável” até agora neste ano, o ambiente externo é “complexo e volátil” e a demanda interna continua fraca. “Algumas empresas enfrentam dificuldades operacionais, e a base para a estabilização e melhora da economia ainda precisa ser consolidada”, disse o órgão em nota que acompanhou a divulgação.
A crise do setor imobiliário chinês, apontada por muitos economistas como um dos principais fatores que prejudicam a confiança das famílias, não dá sinais de arrefecimento. Os preços de imóveis novos caíram em ritmo mais intenso em julho, enquanto o investimento imobiliário despencou 19,2% nos primeiros sete meses do ano, na comparação anual — um novo recorde de baixa.
As autoridades chinesas enfrentam agora a difícil tarefa de reativar os gastos de empresas e famílias. A queda desses gastos deixou a economia dependente das exportações para sustentar o crescimento. Evidenciando o forte desequilíbrio da demanda interna, a inflação ao consumidor e ao produtor desacelerou mais do que o esperado em julho, com a redução do choque nos preços do petróleo provocado pela guerra no Irã, alimentando preocupações de que as pressões deflacionárias possam voltar em breve.
As compras de veículos de passeio caíram 21% em julho, um sinal preocupante para o setor automotivo, que responde sozinho pela maior fatia de bens nas vendas totais do varejo, cerca de 8%. Ao mesmo tempo, as montadoras chinesas continuam vendo suas margens comprimidas pelos altos custos de matérias-primas e pelos descontos persistentes, em meio à acirrada guerra de preços com concorrentes.
E, em mais um sinal de deterioração das vendas no mercado interno, um indicador de novos pedidos no índice oficial de gerentes de compras do setor manufatureiro voltou ao terreno de contração em julho, ao cair ao menor nível em mais de três anos — mau presságio para a produção industrial.
As autoridades dispõem de alternativas, como novas cotas para a emissão de títulos especiais do governo central e de governos locais, além de recursos adicionais que podem ser liberados por meio de novos instrumentos de financiamento de políticas públicas, caso os 800 bilhões de yuans (US$ 119 bilhões) previstos sejam utilizados até o fim do próximo mês, segundo Rong, do BNP. Se a economia estiver “em risco” de crescer menos de 4,5%, piso da meta oficial, novas medidas poderão ser adotadas já no fim de setembro.
“A economia doméstica está fraca”, disse Sheana Yue, economista sênior da Oxford Economics. “A demanda reduzida por crédito, os gastos moderados das famílias e a crise imobiliária limitam os efeitos positivos da recuperação industrial sobre o restante da economia.”
A produção industrial cresceu 4,5% no mês passado em relação ao mesmo período do ano anterior, em comparação com 5,3% em junho, segundo dados divulgados nesta segunda-feira pelo Escritório Nacional de Estatísticas (NBS), ficando abaixo da previsão de 4,8% de crescimento em pesquisa da Reuters.
“O desempenho fraco se deve, em parte, ao uso ineficaz das medidas disponíveis. Os gastos fiscais ficaram aquém, por exemplo”, disse Xu Tianchen, economista sênior da Economist Intelligence Unit. “É um apelo para que as autoridades sejam mais ousadas ao gastar o que têm.”
“Deve-se dar atenção ao investimento, cuja queda acentuada não é, de forma alguma, aceitável para Pequim”, acrescentou ele.
O investimento em ativos fixos contraiu 6,7% nos primeiros sete meses de 2026, em comparação com uma queda esperada de 6%. Ele caiu 5,7% no período de janeiro a junho.
Fu Linghui, porta-voz do escritório de estatísticas, afirmou em uma coletiva de imprensa que as autoridades intensificarão os ajustes nas políticas anticíclicas para impulsionar a demanda interna.
Fazer com que a população de cerca de 1,4 bilhão de chineses volte a gastar não será fácil enquanto o setor imobiliário do país permanecer em recessão, com os preços das casas novas em julho apresentando queda de 3,2% em relação ao ano anterior e de 0,1% ante junho.
Economistas estimam que cerca de 52% da riqueza das famílias esteja atrelada ao setor imobiliário, uma parcela que vem diminuindo nos últimos anos, à medida que a prolongada crise imobiliária tem levado os investidores a buscar o ouro e outros ativos.
As vendas no varejo cresceram 0,6%, desacelerando em relação ao aumento de 1% registrado em junho, apesar dos gastos com turismo nas férias de verão. Analistas previam expansão de 1,5%.
A queda foi “em parte apenas uma correção do programa de troca de bens de consumo, que impulsionou as vendas há um ano ao antecipar a demanda”, disse Julian Evans-Pritchard, chefe de economia chinesa da Capital Economics.
As autoridades também estão tendo que lidar com fatores além de seu controle, como o clima.
A produção industrial e as vendas no varejo provavelmente foram prejudicadas por condições climáticas extremas e incomuns no mês passado, com três tufões atingindo o continente e milhões de pessoas sendo realocadas nos centros industriais do leste e do sul da China.