Já está claro que as mudanças climáticas deixaram de ser pauta apenas de quem atua na área ambiental, para entrar na agenda de governos e empresas. E nunca antes se debateu tanto os efeitos do clima extremo no setor de energia elétrica. Com a possível chegada de um “Super El Niño”, incidência mais forte do fenômeno caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, as empresas de energia não só iniciaram preparações para os impactos como querem tornar essa operação mais resiliente, desde a decisão de investimentos.
O El Niño causa secas severas no Norte e Nordeste, enchentes no Sul e altas temperaturas no Sudeste e Centro-Oeste. Institutos de meteorologia preveem a incidência do fenômeno já a partir de agosto, com efeitos mais perceptíveis na primavera e no verão. Isso significa, segundo as previsões, que o El Niño pode se estender até o fim do primeiro trimestre de 2027, entrando pelo período úmido, como ocorreu nos anos de 2001, 2014, 2015 e 2021.
São anos simbólicos: em 2001, o país viveu o último e maior racionamento de energia elétrica da história. Entre 2014 e 2015, a crise hídrica causou alta nas tarifas de energia, desequilíbrio financeiro de geradoras hidrelétricas e elevado uso de térmicas com alto custo de combustível. Em 2021, o governo contratou térmicas em regime emergencial, que custaram dezenas de bilhões de reais aos consumidores de energia.
Sobre o setor de energia, os reflexos do El Niño são vários. O aumento da temperatura eleva o consumo de energia elétrica, o que expõe as redes a sobrecargas e desligamentos, em casos extremos. Também há riscos de desligamentos por causa de queimadas sob linhas de transmissão, agravadas pelo tempo seco.
As secas também impactam as hidrelétricas localizadas no Norte e no Nordeste, especialmente usinas a fio d’água, aquelas cujos reservatórios não têm capacidade de acumular água por longos períodos, como Belo Monte, Santo Antônio e Jirau. Além disso, exige uma operação que preserve os reservatórios das usinas, como Paulo Afonso e Sobradinho, antiga Chesf, atual Axia Energia.
No Sul, o risco é de enchentes que obrigam as hidrelétricas a abrirem vertedouros, para evitar danos às barragens. Além disso, onde há chuvas fortes também incidem ventos que têm registrado com frequência velocidades cada vez mais elevadas, acima de 120 quilômetros por hora, derrubando torres de transmissão e deixando milhares de pessoas sem energia elétrica.
O diretor de operações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Valter Cardeal, diz que o país está vivendo um cenário que não se verificava antes, com frequência cada vez maior de tornados e ciclones extratropicais, eventos meteorológicos marcados por ventos com velocidades muito elevadas, além das enchentes. Para ele, é preciso construir conhecimento em tempo recorde para melhorar os sistemas de transmissão e distribuição a fim de suportar o clima extremo.
Na mesma linha, o diretor de planejamento do ONS, Alexandre Zucarato, ressalta que, no último El Niño registrado no país, pôde-se verificar as hidrelétricas do Rio Madeira (Santo Antônio e Jirau) parando de operar por causa da seca no Norte do país. Na visão dele, é preciso pensar em meios de investir em resiliência das redes contra o clima extremo, como novos requisitos técnicos para equipamentos e instalações e em novas medidas operativas.
O diretor financeiro e de relações com investidores da Energisa, Maurício Botelho, afirma que os investimentos para melhorar a resiliência da rede da empresa em preparação ao fenômeno climático não devem ficar restritos ao segundo trimestre.
O El Niño também pode afetar a geração térmica a biomassa, uma vez que a seca pode reduzir a qualidade da cana-de-açúcar, matéria-prima do etanol, refletindo também na produção de bagaço — seja na quantidade de cana moída, em função de haver chuvas ou secas, seja no potencial energético do bagaço.