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sexta-feira, agosto 21, 2026

Crítica | Gatos de Rua de Ricky Gervais – 1ª Temporada – Plano Crítico

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Dentre “todos” os gatos laranjas gorduchos e preguiçosos da cultura pop, Gus, o líder de gatos vira-latas criado e dublado por Ricky Gervais, é, sem a menor sombra de dúvida, o menos interessante de longe. Mas de muito longe mesmo. Em sua mais nova empreitada, dessa vez na capacidade de criador, showrunner, diretor, roteirista e ator de voz, Gervais cria um grupo de gatos de rua em uma animação feita para chocar, mas que não consegue sequer levantar sobrancelhas, com uma desculpa de história para lá de simples – achar a casa de uma gatinha perdida – que sequer consegue ser palco para uma narrativa que lembre a pegada usualmente esperta e ácida do comediante. É, para todos os efeitos, uma animação desanimada, sem graça e, quando encontra algo minimamente interessante para dizer, repete a lição infindavelmente como um disco quebrado.

Gatos de Rua (vou tomar a liberdade de não usar o “de Ricky Gervais” no título em português do Netflix) poderia facilmente ser mais um veículo para Gervais destilar seu humor depressivo, niilista, sarcástico e politicamente incorreto, como ele fez de maneiras diferentes e originais em The Office, Derek e, mais recentemente, em After Life, mas tudo o que ele consegue entregar são diálogos verborrágicos repetitivos e passivos, que mais parecem fruto da leitura em mesa do roteiro por ele e pelos demais membros do elenco. A inação é regra, o que não seria problema algum se o humor não fizesse esforço supremo para chocar, só conseguindo mesmo criar uma atmosfera de constrangimento, como quando seu tio-avô aparece em um jantar de família para contar as piadas que para ele são as mais engraçadas do mundo, para desespero de todos ali.

E, diferente de After Life, que consegue magistralmente lidar com uma abordagem acridoce que alia humor rasgado com emoção genuína, em Gatos de Rua o humor é como a linha assistólica de um monitor cardíaco e, somado a isso, toda as tentativas de se criar emoção invariavelmente caminham pelo didatismo extremo que “ensina” os espectadores a sentirem o que o roteiro quer que eles sintam. Mesmo que sutileza não seja a marca de Gervais, ele nunca deixou de conseguir transmitir sentimentos efetivos, mas, pelo visto, sempre há a proverbial exceção para confirmar a regra. Ver o processo de amolecimento do coração duro de Gus a partir do momento em que precisa lidar com a gatinha perdida é de se esperar, mas a execução desse tropo é pouco inspirada ao ponto de tornar infinita a duração diminuta dos episódios. E não ajuda em nada que os demais gatos que gravitam ao redor do protagonista sejam meros estereótipos que funcionam exclusivamente para marretar a mesma gag incontáveis vezes, como é o caso, por exemplo, do desgrenhado Puke que só fala e faz barbaridades sexuais ou Ponce, o fleumático gato elitista castrado, que é alvo de bullying constante por seus amigos.

Não vou afirmar aqui que nada funciona, pois o design dos personagens é muito bom, assim como a animação que, mesmo simples, evoca bem a atmosfera do submundo felino de Londres ou seja lá a cidade britânica em que a história se passe. Da mesma forma, os trabalhos originais de voz são excelentes e até Gervais, daquele seu jeito arrastado e rápido de falar, consegue tornar-se compreensível constantemente. No entanto, mesmo que a série seja visualmente aquilo que podemos esperar, seu conteúdo é vazio, repetitivo e, pior ainda, sem graça e emocionalmente tépido. Gervais tenta inserir seus comentários críticos na base de “psicologia reversa”, mas aquilo que funciona em boa parte em seus shows de stand-up e principalmente em suas séries live-action não parece ter a mesma força com o filtro da animação por cima, o que é uma pena, já que as possibilidades de se chutar o pau da barraca com a técnica eram infinitas.

Com isso, Gatos de Rua acaba sendo um experimento falho que não tem muito mais do que uma mera sombra do potencial que Ricky Gervais sempre demonstrou ter na televisão. Garfield continua sendo – em sua versão de tiras de jornal, só para ficar claro, já que, no audiovisual, não tem nada que preste – o ponto alto em termos de felinos laranjas preguiçosos e com sobrepeso. Uma pena que a inesquecível criação de Jim Davis não tenha encontrado eco na versão pálida do comediante britânico.

Gatos de Rua de Ricky Gervais (Alley Cats – Reino Unido, 07 de agosto de 2026)
Criação: Ricky Gervais
Direção: Ricky Gervais
Roteiro: Ricky Gervais
Elenco: Ricky Gervais, Tom Basden, Andrew Brooke, David Earl, Kerry Godliman, Jo Hartley, Diane Morgan, Natalie Cassidy, Tony Way
Duração: 102 min.



[Fonte Original]

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