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domingo, setembro 6, 2026

Um retrocesso para as mulheres e para a música contemporânea: Jocy de Oliveira comenta o cancelamento de sua ópera no Theatro Municipal – Revista Cult

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No último dia 24 de agosto, a compositora e pianista Jocy de Oliveira, reconhecida internacionalmente por sua atuação pioneira no campo da música eletroacústica, veio a público por meio de uma carta aberta para denunciar o cancelamento unilateral de sua ópera Medea e o direito de ser diferente.

A ópera inédita faria parte de um projeto de longa duração, iniciado em 2005, com Medea, a estrangeira, que resgata o mito de Eurípides para pensar questões de nosso tempo associadas a uma mirada política sobre a condição da mulher.

“Quem poderia imaginar que, após uma longa trajetória inteiramente dedicada à música, sem qualquer mancha em meu percurso, ao celebrar meus noventa anos de contínua criação e realizações, eu seria vítima de um preconceito que resultou na rejeição de minha obra dessa forma?”, questiona Jocy na carta aberta, publicada em suas redes sociais.

O cancelamento ocorre após a alteração da gestão do Theatro Municipal, que, em junho deste ano, passou a ser administrado pelo Instituto Baccarelli.

Em entrevista à Cult, Jocy afirma não ter sido comunicada do cancelamento de sua apresentação e acredita que a atitude do Theatro Municipal representa “um retrocesso que abre precedentes graves” para artistas, que acreditam pactuar contratos e que se disponibilizam para a criação de seus projetos. “Obviamente essa gestão não aceita ‘o direito de ser diferente’”, ela argumenta.

 

Pode contar como recebeu a notícia do cancelamento de Medea e o direito de ser diferente?

Não recebi a notícia. A direção do Theatro Municipal não teve nem mesmo essa consideração. Como não tive nenhuma notícia oficial da nova administração do Theatro, escrevi duas cartas formais perguntando sobre o que se passava. Não obtive resposta. Eles simplesmente me ignoraram. Só obtivemos uma resposta por meio de meu advogado.

Você acredita que o cancelamento dessa ópera se deve ao conteúdo ou à forma que você adotou para a encenação? Pode falar um pouco sobre Medea e o direito de ser diferente?

Não sei se a decisão partiu de pessoas ligadas ao pensar ou à reflexão sobre o contexto, roteiro ou significado de uma postopera, ou se bastou o meu nome para gerar algum desconforto.

Partindo de minha postopera Medea, a estrangeira (2005-2007), resgato o mito de Medea sob um ângulo político da mulher desterrada, que retomo hoje em meu roteiro Medea e o direito de ser diferente.

Essa postopera aborda conflitos eternos, questões do nosso tempo e preocupações primordiais do ser humano sobre a relação entre os homens e do homem consigo mesmo, numa reflexão sobre um mito da Antiguidade que se transporta à realidade cultural e política do mundo em que vivemos hoje.

Medea e o direito de ser diferente enfoca o mito atemporal de Medea sob o aspecto político da personagem mulher emigrante, bárbara, discriminada, do mundo chamado terceiro!

O que esse cancelamento indica sobre a nova posição do Theatro Municipal após ser transferido para a administração do Instituto Baccarelli?

Um retrocesso que abre precedentes graves de vulnerabilidade e quebra de expectativas legítimas dos artistas, que acreditam pactuar contratos e que se disponibilizam para a criação de seus projetos, além do público, que aguardou e comprou ingressos para um evento cancelado de forma unilateral. Creio também que seja um retrocesso para toda a coletividade, no que se refere à representatividade de mulheres e à inserção da música contemporânea brasileira nos teatros expoentes de uma cidade.

Você considera o ocorrido como um caso de censura? Qual o interesse da atual gestão em descumprir sua promessa de realizar os espetáculos anteriormente programados?

Quem sabe são eles. Mas, obviamente, essa gestão não aceita “o direito de ser diferente”. Mesmo as questões que parecem ser “argumentos” técnicos e financeiros apresentados por eles podem ser resolvidas e reorganizadas, a fim de que se cumpra a agenda pactuada, respeitando minha trajetória e minha criação.

Como você vê o futuro do Theatro Municipal?

Um Theatro sem inovação, sem criatividade e sem uma concepção artística que vise ao desenvolvimento da cultura, com uma gestão morna. Sou muito grata à imensa repercussão desse fato nas redes sociais — mais de 95.600 visualizações e comentários — no Brasil e no exterior. Entidades culturais, movimentos artísticos e artistas representativos da nossa cultura, da música popular, erudita e contemporânea às artes plásticas, vieram a público me apoiar e repercutir o caso em suas redes, criticando o direcionamento da atual gestão. Eles temem um ataque à pluralidade estética, à diversidade cultural e à inovação. Isso causa não só a perda da credibilidade do Theatro Municipal de São Paulo frente à sociedade civil e a outras instituições de fomento, como também uma crescente judicialização, enquanto o público gostaria de se sentir “em casa” nessa instituição, que sempre foi um dos importantes símbolos de São Paulo.



[Fonte Original]

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