O valor das importações totais do país em agosto cresceu 9,2%, em relação ao mesmo mês de 2025, mas a alta foi puxada por aumento de preços, de 11%. Já a quantidade importada caiu 2%, puxada por bens intermediários (insumos e matérias-primas) e combustíveis, com quedas de 6,1% e 9,9% no volume desembarcado, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Os intermediários representam mais da metade (56,5%) de toda a compra externa do país e sua queda reflete a desaceleração da economia e da produção industrial, apontam analistas. No segundo trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,5% em relação aos três meses anteriores, feito o ajuste sazonal, depois de avançar 1,1% no primeiro trimestre.
Para a segunda metade do ano, é esperada uma perda de fôlego adicional. José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exteriordo Brasil (AEB), ressalta que, no caso de intermediários, o ritmo já vem sendo ditado no decorrer de 2026.
No acumulado de janeiro a agosto, a quantidade importada de insumos e matérias-primas caiu 6,8%, ante iguais meses de 2025. Em valor a queda é menor, de 0,6%, porque houve uma alta de 6,9% em preços.
O aumento de preços médios de importados, explica Castro, vem principalmente do impacto da alta de petróleo e combustíveis nas diversas cadeias produtivas. Essa pressão altista sobre preços nas importações, diz, tem limitado superávits maiores na balança comercial.
Em agosto, a balança comercial brasileira teve superávit de US$ 7,4 bilhões, resultado de US$ 33,2 bilhões em exportações e US$ 25,8 bilhões em importações. Em valores, os embarques cresceram 12,2% e as importações, 9,2%. Nas vendas externas também houve efeito preço, com alta de 9,3%, mas os volumes também cresceram, em 2,2%, sempre em variações contra agosto de 2025.
No acumulado do ano o superávit comercial alcançou US$ 55,3 bilhões, resultado de US$ 250,9 bilhões em exportações, com alta de 10,3%, e US$ 195,5 bilhões em importações, com aumento de 6,1%. As exportações brasileiras têm sido beneficiadas por soja, que deve ter safra recorde no ano, e petróleo, com cotações mais altas em razão do conflito no Oriente Médio.
Em relatório sobre a balança comercial de agosto, Luiza Pinese, economista da XP, avalia que as importações devem desacelerar, à frente. “A desaceleração da atividade doméstica deve reduzir cada vez mais os volumes importados”, diz. A XP projeta superávit comercial de US$ 84,5 bilhões em 2026.
Castro lembra que, do lado das importações, os bens intermediários costumam ser o primeiro grupo dentre as grandes categorias econômicas que sentem o enfraquecimento da produção indústrial e da desaceleração em curso da economia.
Nos dados do PIB relativos ao segundo trimestre de 2026, a indústria mostrou perda de fôlego ao desacelerar para alta de 0,1% ante os três meses anteriores, com ajuste sazonal. De janeiro a março, o PIB do setor cresceu 1,2%. Olhando para a indústria de transformação, a fraqueza já veio desde o primeiro trimestre, com alta de 0,1%. De abril a junho, esse ramo específico foi para o campo negativo, com queda de 0,4%.
O PIB como um todo também mostrou franca desaceleração, saindo de elevação de 1,1% no primeiro trimestre para alta de 0,5% nos três meses seguintes, sempre na variação trimestral.
Os dados do volume de produção industrial do país também mostram que o setor enfrenta desafios. A Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM – PF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que, em julho, a produção física da indústria geral cresceu 0,2%, contra o mês anterior, com ajuste sazonal, sem compensar a queda nos dois meses anteriores, de 1% em maio e 1,6% em junho, sempre na variação mensal.
Com juros ainda altos, endividamento elevado das famílias e menor fluxo de estímulos, o quadro para o segundo semestre é de maior desaceleração da atividade como um todo e da indústria, o que pode levar o setor a ter crescimento zero no ano no cenário traçado por alguns economistas.