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quarta-feira, setembro 9, 2026

Crítica | Marvel Dimensions – Plano Crítico

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Em 2022, a Abrams ComicArts iniciou a publicação de graphic novels originais a partir de material da Marvel Comics com Quarteto Fantástico: Ciclos, de Alex Ross, que serviu tanto para inaugurar o selo Marvel Arts, como para introduzir o novo estilo artístico do mestre. Quatro anos depois, o selo recebe Ross novamente, desta vez com uma HQ que é uma estranha publicação três-em-um, com o roteirista e desenhista reunindo estilos e estruturas diferentes que não exatamente se comunicam ou formam um conjunto coeso e harmônico que realmente faça sentido narrativo e artístico. Continua sendo, como tudo que ele faz desde que estreou no mundo dos quadrinhos com Exterminador do Futuro: Terra em Chamas, um deleite visual, não tenham dúvida, mas Marvel Dimensions infelizmente é menos do que a soma de suas partes.

Como a vistosa arte da capa principal da graphic novel (essa que usei no destaque) dá a entender, Marvel Dimensions parece ser a versão da Marvel de LJA: Origens Secretas, em que Alex Ross usou sua arte para contar, em belos painéis horizontais de duas páginas, versões concisas das origens dos principais heróis da Liga da Justiça. Sem dúvida um marco em sua época, ainda que, como meu colega Luiz Santiago bem apontou em sua crítica, não muito mais do que um exercício de forma sobre substância. E, de fato, é exatamente isso que os leitores ganham ao longo das primeiras 20 e poucas páginas da publicação, começando com o Tocha Humana original em um reaproveitamento do que ele já havia feito anteriormente, continuando com Namor, Capitão América, Quarteto Fantástico, Hulk, Thor, Homem-Aranha, Homem-Formiga (e suas variações), Homem de Ferro, X-Men, Vingadores, Doutor Estranho, Demolidor, Viúva Negra, Surfista Prateado Pantera Negra e Wolverine e terminando com a Fênix, a única que ganha sua origem na orientação vertical. O estilo é o mesmo de Origens Secretas, com uma cor predominante nos quadros fluidos que levam ao personagem final com todas as suas cores, com a diferença de que o narrador de cada história varia muito, como John Jonah Jameson para o Homem-Aranha, Toro para o Tocha Humana, Loki para os Vingadores e alguns pelo próprio personagem, como nos casos do Demolidor e do Surfista Prateado.

Como disse, considero a arte de Alex Ross absolutamente incrível e, como ele usa seu estilo clássico para essas origens, elas são visualmente impressionantes e um grande prazer para os olhos, ainda que sejam, muito sinceramente, mais do mesmo e sem maiores objetivos para além de ser palco para ele fazer o que faz de melhor. Alex Ross faz esforço para justificar as origens dentro de um contexto maior, mas ele falha nessa sua missão, pois ele emoldura essas páginas duplas dentro de uma história narrada por X-51, o Homem-Máquina na forma transparente e na função de Vigia que vemos em Terra X, obra concebida por Ross, mas com roteiro de Jim Krueger e arte de John Paul Leon criando uma conexão nostálgica com a maxissérie de 1999/2000 que, porém, não vai além disso. E o melancólico personagem isolado na lua, também desenhado no estilo clássico de Ross, mas invocando a criação de Leon, é utilizado como mera ponte para a introdução de uma HQ dentro da graphic novel (sim, é assim que o conjunto foi “marketeado”) desenhada no estilo novo de Ross (o mesmo da citada Ciclos) em que ele nos apresenta ao seu In-Verso que é, como o esperto título indica, um universo alternativo em que tudo é o inverso do que conhecemos.

Mas a esperteza do In-Verso fica só no título mesmo, pois o conceito é tão batido que chega a ser cansativo, com páginas e mais páginas em que Ross nos apresenta às suas versões malignas dos heróis da Marvel. Novamente, a arte e a imaginação do artista são incríveis e esse seu novo estilo é também lindíssimo, ainda que eu prefira o fotorrealismo clássico dele, mas a premissa é tão clichê que é um espanto imaginar que ele tenha achado isso uma novidade tão grande a ponto de usar o In-Verso como a “grande e incrível” surpresa de Marvel Dimensions. Para começo de conversa, não há nada que não tenhamos visto antes em incontáveis universos paralelos explorados muito além do limite do razoável pela Marvel Comics. Depois, a conexão das origens normais que antecedem o In-Verso e a tentativa de transição que X-51 faz são patéticas, pois o que a graphic novel acaba sendo são duas obras completamente diferentes ciceroneadas pelo Homem-Máquina e não mais do que isso. E, como se isso não bastasse, o fiapo de história a que somos apresentados no In-Verso, história essa que só serve mesmo como desculpa para a apresentação das versões malvadas dos Vingadores, Quarteto Fantástico e X-Men, além de alguns outros heróis individuais, sequer chega a seu fim, sendo interrompida por X-51 sem nenhuma cerimônia. Se a ideia é continuar o In-Verso em uma HQ própria, Ross pelo menos deveria ter sido honesto e criado algo fechado ou que tivesse um arco narrativo bem marcado. Mas não, ele simplesmente decidiu parar e pronto, os leitores que se virem.

Em alguns raros casos, a forma pode compensar parcialmente a falta de substância e a arte de Alex Ross normalmente consegue cumprir esse papel com louvor. Aqui, porém, o artista – que é um roteirista fraco, temos que admitir – fiou-se demais nela e se esqueceu de todo o restante, criando uma obra que muito claramente começou de um jeito e foi modificada no meio do caminho, mas sem uma reflexão maior para criar algo estruturalmente coeso e fluido. Marvel Dimensions é um lindo monstro de Frankenstein, sou o primeiro admitir, mas a graphic novel passa longe de sequer poder ser chamada verdadeiramente de graphic novel.

Marvel Dimensions (EUA, 2026)
Roteiro: Alex Ross
Arte: Alex Ross
Cores: Alex Ross, Josh Johnson, Jason Millet
Letras: Ariana Maher
Editoria: Charles Kochman, Lydia Nguyen, Andre Forte (Abrams), Tom Brevoort, C.B. Cebulski (Marvel)
Editora original: Abrams ComicArts (Marvel Arts)
Data original de publicação: 1º de setembro de 2026
Páginas: 112



[Fonte Original]

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