A região Sul concentra 20,6% das mil maiores empresas do país — mais do que Nordeste (6,4%), Centro-Oeste (6%) e Norte (1,4%) somados, ficando atrás apenas do Sudeste (65,5%). É uma posição de destaque que reflete décadas de diversificação produtiva. Na construção desse número, estão três Estados em momentos diferentes.
Da receita líquida gerada pelas empresas da região Sul, o Paraná responde por 44,7%, Santa Catarina, por 29,4%, e o Rio Grande do Sul, por 26%. Essa hierarquia é resultado, no plano empresarial, de uma mudança observada no levantamento mais recente do Produto Interno Bruto (PIB) divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — em 2025, com dados de 2023: a economia catarinense teve o segundo maior crescimento no país e a gaúcha, o segundo pior. “O Paraná ultrapassou o Rio Grande do Sul, que historicamente era o quarto maior PIB entre as unidades federativas, enquanto Santa Catarina superou a Bahia e ocupou o sexto lugar”, diz Juliana Trece, coordenadora do núcleo de contas nacionais do FGV Ibre. “O fato de nenhuma empresa gaúcha figurar entre as seis maiores da região reforça o diagnóstico de desaceleração do Estado”, diz.
A lista de seis maiores empresas ajuda a entender o avanço de Santa Catarina e do Paraná. Numa região ligada à produção agrícola — responsável por 27% do valor adicionado da agropecuária no Brasil entre 2002 e 2022 —, os dois Estados estão diversificando e agregando valor às suas economias. As duas companhias de maior receita líquida no Sul são catarinenses: a Bunge, gigante americana do agronegócio, e a WEG, gigante brasileira da indústria mecânica, fundada em Jaraguá do Sul. Em solo paranaense destacam-se Coamo, Lar e C. Vale, ligadas ao agro, além da Copel, de energia elétrica.
WEG e Copel não têm a maior receita líquida na região Sul, mas, entre as seis maiores, registram as maiores margens líquidas (16,6% e 10,3%, respectivamente). É sinal de que conseguem agregar valor a seus produtos e serviços, mesmo em cenários desafiadores. “A WEG conseguiu pela primeira vez superar a marca de R$ 40 bilhões de faturamento. Conseguimos resultados históricos, apesar da elevação de tarifas por parte dos Estados Unidos, de falta de contêineres e de ter atrasos por conta das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio”, afirma Alberto Kuba, CEO da empresa. “A empresa segue bem, porque gera mais de 60% de sua receita no exterior. O Brasil é um desafio, devido ao patamar alto de juros.”
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A taxa Selic, no nível mais alto das últimas duas décadas, afetou o consumo das famílias e os investimentos em bens de capital. “A fabricação de máquinas e equipamentos está muito relacionada a investimentos. Quando os juros estão mais elevados, as empresas tendem a investir menos”, explica Trece. Nos primeiros meses de 2026, esse cenário favoreceu a economia do Rio Grande do Sul. O PIB gaúcho cresceu 2,2% no primeiro trimestre, na comparação com os últimos três meses de 2025 — acima do crescimento de 1,1% do Brasil, de 0,5% do Paraná e da estabilidade de Santa Catarina. Comparado ao mesmo período do ano passado, o Estado avançou 4,4%, ante a média de 1,6% no biênio 2024-2025. O motor foi a agropecuária: o valor adicionado do setor cresceu 23,7% no trimestre.
Estimativas do IBGE apontam expansão de 34,6% na sojicultura gaúcha em 2026, a maior taxa esperada entre os Estados. A safra excepcional arrastou consigo a indústria de transformação, impulsionada pela produção de alimentos, e a área de transportes, voltada ao escoamento da produção. “Quando a agropecuária vai bem, impulsiona os outros segmentos”, diz Trece.
Paraná e Santa Catarina tiveram um início de 2026 mais modesto que o Rio Grande do Sul. Na indústria paranaense, segmentos como fabricação de produtos químicos, máquinas e equipamentos e produtos de madeira — que representam 18% da atividade de transformação — registraram queda. Na catarinense, as retrações foram ainda mais disseminadas, atingindo veículos automotores, máquinas e equipamentos e confecção de vestuário.