O salto nos investimentos voltados à indústria extrativa na economia brasileira foi 15 vezes maior do que a expansão dos recursos alocados na indústria da transformação em 27 anos. A conclusão consta do estudo “O destino dos investimentos”, dos pesquisadores Claudio Considera, Bruno Tozzi Grandidier e Ana Letícia Branco, da Fundação Getulio Vargas (FGV).
De 1997 a 2024, os investimentos na indústria extrativa cresceram 1.366,42%, enquanto os da indústria da transformação subiram 88,02%. Nem mesmo o crescimento dos investimentos totais na economia foi tão expressivo. De 1997 a 2024, foi de 60,02%.
Outras atividades também tiveram altas mais modestas no mesmo período comparativo. São os casos dos aumentos nos investimentos nos segmentos de máquinas e equipamentos (88,61%), de construção (26,62%) e na categoria “outros” (141,99%) – ativos tangíveis e intangíveis, como produtos de propriedade intelectual (softwares e bancos de dados).
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Para os pesquisadores, os dados comprovam que a aplicação de investimentos na economia nas últimas décadas foi setorialmente desigual. A ausência de equilíbrio na destinação de investimentos nas principais atividades econômicas do país tem impedido um crescimento robusto e contínuo da taxa anual de investimento na economia, que opera há 12 anos abaixo de 20%, alerta Claudio Considera.
No estudo, os pesquisadores calcularam uma média da taxa de investimento de 17,9% do PIB entre 1996 e 2025. A pesquisa mapeia um período de longo prazo para melhor mensurar tendências. O objetivo do estudo é identificar quais atividades econômicas receberam investimentos nesse período. Para isso, os técnicos usaram dados do Monitor do PIB, da FGV; das Contas Nacionais, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); e de pesquisas anuais setoriais do IBGE. Foram usadas a Pesquisa Industrial Anual (PIA), que abrange as indústrias extrativa e de transformação; a Pesquisa Anual da Indústria da Construção (Paic); a Pesquisa Anual do Comércio (PAC); e a Pesquisa Anual de Serviços (PAS).
Como os anos-base finais das pesquisas utilizadas diferem, os pesquisadores optaram por deflacionar os números de investimento a preços constantes de 1995. As edições mais recentes das pesquisas anuais do IBGE vão até 2024. Na pesquisa, o total de investimentos na atividade econômica, delineado pela formação bruta de capital fixo (FBCF), componente das Contas Nacionais que representa os investimentos na economia, ficou em R$ 251,4 bilhões em 2024.
Em 2025, foi de R$ 258 bilhões. Para esse dado total, há informações oficiais do ano passado, visto que o PIB de 2025 já foi divulgado pelo IBGE. Porém, no detalhamento setorial para a indústria, só há dados até 2024, ano mais recente da PIA. Os investimentos, naquele mesmo ano, somente na indústria extrativa, foram de R$ 9,4 bilhões.
Para a indústria da transformação, por sua vez, foram R$ 41,2 bilhões. Embora o volume de recursos para a transformação ainda seja maior do que o da extrativa, chamou a atenção a mudança de patamar dos recursos no segmento extrativo, notou Considera. Em 1997, eram R$ 630,2 milhões. Já os da transformação foram de R$ 21,9 bilhões naquele mesmo ano.
Mudança de cenário também se repete na produtividade da indústria extrativa e de transformação
“A indústria da transformação, em algum momento, parou de investir, de alocar mais recursos, principalmente em novas tecnologias”, disse Considera. Essa menor cadência de investimento na transformação também diminuiu a fatia do segmento no total do Produto Interno Bruto (PIB). “A transformação chegou a ter fatia de 35% do PIB [nos anos 80] e atualmente tem 13% [13,7% até 2025]”, comentou.
Alta carga tributária para a indústria da transformação, juros elevados e pouca exposição ao mercado externo foram algumas das razões que inibiram o investimento na transformação, segundo Considera. Para ele, a indústria poderia ter avançado mais em investimentos caso tivesse demanda direcionada a mercados específicos no exterior.
Em contrapartida, o setor extrativo, nos últimos anos, tornou-se fortemente conectado com mercados globais, principalmente de commodities, como no caso do minério de ferro. Caminho semelhante foi percorrido pela agropecuária brasileira. O estudo da FGV não mapeou investimentos na agropecuária, disse Considera, mas foi possível calcular a produtividade, em um horizonte de longo prazo, de algumas atividades econômicas.
Esse cálculo foi feito por meio do valor adicionado (a riqueza gerada) em volume por pessoal ocupado, encontrado nos dados das Contas Nacionais, com séries de 1995 a 2021. Os pesquisadores da FGV estimaram que a produtividade da agropecuária mais que triplicou entre 1995 e 2021, com alta de 216,8%, enquanto a da indústria recuou 5,3%. E, por dentro da indústria, no mesmo período de comparação, a produtividade da transformação caiu 7,2%, e a da construção, 16,7%.
Em sentido oposto, a produtividade da indústria extrativa cresceu 120,2%. Para os pesquisadores, esse crescimento acelerado da produtividade da indústria extrativa também comprova o ritmo maior de investimentos alocados na área ao longo dos anos. “O que direciona o investimento é o lucro”, disse Considera. “Por que está se plantando muita soja? Porque você está ganhando muito dinheiro plantando soja. Você investe no que está dando lucratividade. Temos demanda externa enorme por nossas commodities”, lembrou, ponderando que não há demanda externa forte pelos produtos da indústria da transformação brasileira, “porque ela não consegue competir com o exterior”.
Todo esse contexto impede que a taxa de investimento, síntese do ritmo de investimentos na economia, cresça mais, resumiu. “É uma taxa muito baixa”, disse.