Análise: Eleição testa o preço do risco institucional no mercado

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O ciclo eleitoral já está entre os principais vetores de precificação dos mercados brasileiros. A disputa presidencial começou a ser incorporada aos preços antes mesmo da definição formal das candidaturas e vai ganhando intensidade à medida que pesquisas, alianças e propostas econômicas se tornam mais claras. O processo ocorre em meio a uma crise institucional sem precedentes entre os Poderes, com o Supremo Tribunal Federal (STF) no centro das tensões, e a uma situação fiscal que deixa pouco espaço para novas incertezas.

Relatórios e cartas de gestão de fundos multimercados registraram recentemente a consolidação desse chamado “trade eleitoral” neste ano. A mudança das pesquisas em direção a uma disputa equilibrada ponto a ponto coincidiu com uma forte reprecificação dos ativos: o Ibovespa superou os 185 mil pontos e o dólar recuou para a faixa de R$ 5,08 a R$ 5,10. O movimento mostra como a percepção sobre o cenário político passou a interferir diretamente na formação dos preços, sobretudo em bolsa, câmbio e juros.

As ações de empresas estatais também estão entre as mais sensíveis à mudança das expectativas eleitorais. Petrobras e Banco do Brasil, por exemplo, carregam exposição particular ao debate sobre a autonomia de suas administrações, política de preços, crédito e uso das empresas como instrumentos de política econômica. Por isso, acabam funcionando como referências importantes para o mercado na leitura do risco de interferência estatal.

Ainda assim, há um dado que chama atenção. Apesar da presença crescente do risco eleitoral na formação dos preços, a volatilidade da bolsa em 2026 permanece relativamente baixa quando comparada a outros ciclos presidenciais. Levantamento da Quantum Finance mostra que a volatilidade diária acumulada do Ibovespa até o início de setembro estava em cerca de 19%, abaixo dos níveis registrados nos três ciclos anteriores: 25% em 2014, 22% em 2018 e 21% em 2022.

A comparação sugere que o mercado vem incorporando o risco eleitoral sem reproduzir, até agora, a intensidade de estresse observada em outros pleitos. A explicação pode estar menos na ausência de incerteza do que na forma como ela vem sendo distribuída entre os ativos e incorporada aos preços.

A atividade de fusões e aquisições também mostra um ambiente corporativo mais cauteloso. No primeiro semestre, foram registradas 593 operações, uma queda de cerca de 35% em relação ao mesmo período do ano anterior. O recuo reforça a percepção de que empresas e investidores vêm adiando decisões de maior porte diante de um ambiente de juros ainda elevados, incerteza macroeconômica e aproximação do calendário eleitoral.

A comparação com os ciclos anteriores mostra por que o calendário eleitoral, isoladamente, diz pouco sobre o comportamento dos ativos. Nos sete ciclos presidenciais de 1998 a 2022, o Ibovespa caiu em três anos e subiu em quatro: -33,5% em 1998, -17% em 2002, +32,9% em 2006, +1,0% em 2010, -2,9% em 2014, +15,0% em 2018 e +4,7% em 2022. A média aritmética desses sete resultados foi de aproximadamente +2,9%, com ampla dispersão entre os períodos.

A variedade dos resultados acompanha a natureza de cada disputa. Em 1998, a eleição ocorreu sob o impacto da crise financeira internacional e da turbulência cambial. Em 2002, a transição política elevou fortemente o prêmio de risco e produziu uma reação importante no câmbio, seguida de reversão. Em 2006, o cenário foi muito diferente, com forte valorização dos ativos. Em 2014, a deterioração fiscal e a perda de confiança dominaram parte relevante da precificação. Em 2018, a perspectiva de mudança econômica ajudou a sustentar uma forte recuperação. Em 2022, a polarização permaneceu elevada, mas a bolsa encerrou o ano em alta.

Neste ano, a polarização e o receio com o quadro fiscal a partir de 2027 ganham uma dimensão adicional diante da crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e os demais Poderes. A evolução desse conflito influencia a percepção sobre governabilidade e previsibilidade institucional justamente quando a disputa eleitoral concentra cada vez mais a atenção dos investidores. O mercado, portanto, não acompanha apenas quem lidera as pesquisas, mas também a capacidade de cada eventual governo de executar sua agenda e preservar a estabilidade das instituições.

O trade eleitoral atravessa, naturalmente, momentos distintos. O primeiro é a formação das expectativas antes do primeiro turno, fase em que pesquisas, alianças e propostas econômicas produzem mudanças sucessivas nas probabilidades atribuídas aos candidatos. O mercado reage a esse movimento especialmente no câmbio e nos juros, que incorporam rapidamente as primeiras avaliações sobre risco político e orientação econômica.

A janela entre o primeiro e o segundo turnos tende a concentrar outra rodada de ajustes. O resultado da primeira votação reduz o número de combinações possíveis e permite aos investidores recalibrar suas apostas a partir dos dois candidatos que permanecem na disputa. É nesse período que as diferenças entre programas econômicos, composição política e perspectivas fiscais passam a ter peso maior na precificação.

O segundo turno, por sua vez, elimina a principal incerteza eleitoral, mas não necessariamente encerra a volatilidade. A definição do vencedor abre uma nova etapa: a avaliação sobre a composição do governo, a relação com o Congresso, a equipe econômica e, sobretudo, a capacidade de entregar uma trajetória fiscal considerada sustentável. Em outras palavras, o prêmio eleitoral pode diminuir depois das urnas, mas o prêmio de risco econômico permanece condicionado às primeiras decisões do novo governo.

A situação fiscal dá peso adicional às escolhas que estarão em disputa. O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta déficit do governo geral equivalente a 8,2% do PIB em 2026 e dívida bruta de 97,8% do PIB. No cenário-base, a dívida chegaria a cerca de 106% do PIB em 2035. Para colocar essa trajetória em queda, o Fundo estima uma necessidade de ajuste fiscal de aproximadamente 3 pontos percentuais do PIB entre 2026 e 2031.

A dimensão desse ajuste ajuda a explicar por que as propostas econômicas têm peso crescente na campanha. O próximo governo encontrará uma combinação de dívida elevada, necessidade de contenção fiscal e juros ainda restritivos. A percepção sobre a disposição e a capacidade de enfrentar esse quadro vem sendo incorporada aos preços antes mesmo da posse. Os ciclos anteriores mostram, no entanto, que esse processo pode mudar rapidamente.

O cenário externo continuará interferindo nessa dinâmica. Dólar, juros americanos, commodities e China podem ampliar ou conter os movimentos domésticos, como ocorreu em diferentes intensidades nos ciclos anteriores. A dinâmica internacional poderá reforçar ou amortecer o impacto das variáveis eleitorais sobre os ativos brasileiros.

A combinação de fatores torna o pleito de 2026 particularmente interessante para se observar a volatilidade. Há uma disputa presidencial competitiva, uma crise institucional em curso e uma situação fiscal exigente. O ponto em comum entre as diferentes leituras do ambiente atual por instituições financeiras é que o mercado entrou neste ciclo eleitoral com “valuations” ainda relativamente baixos, mas também com uma sensibilidade elevada às expectativas sobre juros, quadro fiscal e governabilidade.

A eleição pode produzir uma reprecificação importante dos ativos, mas o tamanho e a direção desse movimento dependerão menos do simples resultado das urnas do que da credibilidade da agenda econômica que vier depois dela.

[Fonte Original]

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