Que aceno Lula fará ao PIB?

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Em dezembro, o clima no Planalto e no PT era de “já ganhou”. Jair Bolsonaro, condenado e preso, havia esnobado Tarcísio de Freitas e apontado um dos filhos, Flávio, que não era a primeira escolha nem na prole, como seu candidato a presidente. A reforma do Imposto de Renda havia sido aprovada, Lula havia surfado bem a onda do tarifaço, sua popularidade se recuperava de forma que parecia consistente.

Não demorou três meses para a maré virar. Os ganhos de avaliação obtidos no semestre anterior rapidamente se esvaíram. O bem-estar econômico sumiu das pesquisas. E Flávio, mesmo diretamente envolvido no escândalo do Banco Master, chega à reta finalíssima empatado com Lula no primeiro e no segundo turnos.

Depois de um período de negação da própria dificuldade, o presidente parece ter entendido o risco real de derrota. Tanto que encerrou seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU falando que isso representaria uma vitória do autoritarismo contra a democracia.

Na semana passada, a mudança de estratégia já havia ficado clara com a decisão de reajustar o Bolsa Família depois de quatro anos, às vésperas do pleito. Mas não é só. Outros gestos em costura poderão ser feitos na direção de setores mais refratários à sétima candidatura e à possibilidade de um quarto mandato de Lula. A dúvida é se ainda há tempo e se há com que acenar que não soe mera reedição do apelo à frente ampla de 2022.

A decisão de Lula se reunir na sexta-feira com um grupo de empresários ligados ao grupo Esfera, com organização do grupo Prerrogativas, vem da constatação de que é preciso propor pontes e defender a política econômica e fiscal. Ele estará acompanhado do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, do atual, Dario Durigan, e de outros ministros como Bruno Moretti (queridinho do empresariado) e Miriam Belchior. Insistirá em dizer que herdou de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes um estado de descontrole fiscal e entregará a meta do atual arcabouço cumprida. Entre uma coisa e outra, existem várias nuances, a depender do indicador e do recorte, mas será esse o tom.

Lula dirá que foi presidente três vezes e nunca cometeu despautérios econômicos, menos ainda atentou contra a democracia, a ciência, a educação ou a defesa do meio ambiente, como Bolsonaro. Lembrará os dados de crescimento desta sua gestão, das anteriores e os riscos contidos nas declarações que Flávio já deu de capitulação aos interesses americanos. A ideia é sensibilizar o setor produtivo, que predomina no Esfera em relação ao financeiro.

O quórum confirmado é de quase 300 empresários, então a chance é o encontro reverberar mais que o frio jantar de semanas atrás no Alvorada, em que um Lula ainda em negação não se conformava com a avaliação negativa de seu governo. Mas esse roteiro pode ser insuficiente. Empresários que confirmaram presença no encontro esperam compromissos mais concretos. Sonham que Lula possa anunciar o futuro ministro da Fazenda e arriscam até o nome: Luiz Carlos Trabuco Cappi, ex-presidente do Bradesco. Esta, sim, seria uma cartada capaz de balançar o extremo ceticismo que existe hoje não só no mercado, mas também no empresariado, com mais quatro anos de Lula no poder.

Equivaleria, na avaliação de interlocutores do presidente que olham para as pesquisas com preocupação crescente, ao calmante dado com a nomeação de Henrique Meirelles para o Banco Central em 2002 e com a surpreendente escolha de Geraldo Alckmin para vice, 20 anos depois. Ambos foram tiros certeiros e alianças exitosas, lembram.

Lula tirou uma carta da manga ao reajustar o Bolsa Família, mas ela foi destinada a quem já vota nele. Fazer um gesto de impacto como esse seria descer do salto, admitir a chance de derrota, alertar quem tem o dinheiro sobre o risco da volta da instabilidade bolsonarista e comprometer-se com mudanças profundas — cuja necessidade ainda não reconheceu — para conter gastos e a expansão da dívida. Não se sabe, porém, se ele está disposto a ir tão longe.

[Fonte Original]

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