O presidente chinês, Xi Jinping, anunciou nesta quinta-feira, na Casa Branca, que um casal de pandas-gigantes, mamíferos emblemáticos da diplomacia chinesa, chegará “em poucos dias” ao zoológico de Atlanta, no sudeste dos EUA. O envio ocorre em um momento em que as duas maiores economias do mundo buscam manter a estabilidade nas relações, apesar das disputas sobre comércio, tecnologia, Taiwan e a guerra contra o Irã.
— O panda-gigante sempre foi um símbolo da amizade entre China e Estados Unidos — declarou Xi. — Dentro de poucos dias, dois pandas, Ping Ping e Fu Shuang, se instalarão em seu novo lar no zoológico de Atlanta e conhecerão o público americano.
A prática de usar os animais como instrumentos de aproximação diplomática é conhecida como “diplomacia dos pandas”. Nativos da China, os pandas-gigantes se tornaram ao longo das décadas uma espécie de símbolo da boa vontade de Pequim e foram enviados a diferentes países em momentos de aproximação política ou econômica. Por outro lado, os animais também já foram usados para sinalizar descontentamento com governos estrangeiros.
Uma tradição diplomática
A República Popular da China utiliza os pandas para fins diplomáticos desde a sua fundação, em 1949. Inicialmente, Pequim presenteava outros países com os animais como gesto de amizade.
Em 1957, o então líder chinês Mao Tsé-Tung presenteou a União Soviética com um panda chamado Ping Ping para marcar o 40º aniversário da Revolução de Outubro. Dois anos depois, outro animal foi enviado aos soviéticos. Entre 1965 e 1980, cinco pandas também foram enviados à Coreia do Norte, em uma tentativa de estreitar os laços com os aliados socialistas.
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Um dos episódios mais simbólicos ocorreu em 1972, quando Pequim presenteou os EUA com dois pandas, Ling Ling e Hsing Hsing, após a histórica visita do então presidente americano Richard Nixon à China. O gesto acompanhou a aproximação entre os dois países e a normalização das relações diplomáticas.
A partir daí, outros países, como Japão, França, Reino Unido e Espanha, também receberam pandas chineses.
O modelo mudou em 1984. Com a redução da população de pandas, a China deixou de presentear os animais e passou a emprestá-los a zoológicos estrangeiros. Os acordos costumam envolver dois animais por períodos de dez anos, mediante o pagamento de uma taxa anual que pode chegar a cerca de US$ 1 milhão (aproximadamente R$ 5,1 milhões, na cotação atual).
Para os zoológicos, o custo é compensado pelo potencial de atração dos animais. A presença de pandas costuma aumentar o interesse do público e, consequentemente, a receita das instituições.
Os animais normalmente retornam à China quando o contrato termina. O mesmo ocorre com os filhotes nascidos no exterior: eles são enviados ao país, geralmente entre os 2 e 4 anos de idade, para integrar programas chineses de reprodução.
O modelo também permite que Pequim mantenha maior controle sobre os animais mesmo quando eles estão em outros países. Na prática, os pandas continuam vinculados à China durante o período de empréstimo.
Animais e política externa
Além de promover aproximações, os pandas também podem servir como sinal diplomático. Um estudo da Universidade de Oxford publicado em 2013 apontou que os períodos em que a China fechou contratos para enviar pandas ao Canadá, à França e à Austrália coincidiram com acordos envolvendo urânio e outros contratos comerciais.
Os pesquisadores também identificaram coincidências entre acordos de empréstimo de pandas e a assinatura de tratados de livre-comércio com países como Singapura, Malásia e Tailândia.
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A relação entre os animais e a política externa chinesa também pode funcionar no sentido contrário. Em 2010, Pequim chamou de volta dois pandas nascidos nos EUA, Tai Shan e Mei Lan, depois de advertir Washington contra uma reunião entre o então presidente Barack Obama e o Dalai Lama, considerado pelo governo chinês um separatista.
Mais recentemente, Ya Ya, que estava emprestada aos EUA havia duas décadas, foi devolvida à China em abril de 2023. O retorno ocorreu em meio à deterioração das relações entre os dois países e a preocupações com a saúde do animal, que alimentaram críticas ao zoológico de Memphis nas redes sociais chinesas.
No mês seguinte, outros três pandas deixaram os EUA. Naquele momento, Xi Jinping sinalizou que estava disposto a enviar novos animais ao país após se reunir com o então presidente Joe Biden na Califórnia. O gesto foi interpretado como um sinal da disposição de Pequim de melhorar as relações com Washington.
Agora, com Ping Ping e Fu Shuang a caminho de Atlanta, os pandas voltam a ocupar um lugar simbólico na relação entre as duas maiores potências econômicas do mundo.