BC eleva a 90% a chance de a inflação furar o teto da meta no fim deste ano

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O Banco Central (BC) elevou de 79% para 90% a probabilidade de a inflação superar o limite superior do intervalo de tolerância da meta no último trimestre deste ano. A revisão consta do Relatório de Política Monetária (RPM) divulgado nesta quinta-feira, primeiro documento em que a autoridade monetária detalha suas projeções depois de o Comitê de Política Monetária (Copom) reduzir a taxa Selic para 13,75% ao ano, na reunião dos dias 15 e 16.

A meta de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos — o teto, portanto, está em 4,5%. A probabilidade é calculada a partir de intervalos construídos ao redor do cenário de referência do próprio BC.

“A partir de intervalos de probabilidade construídos ao redor do cenário de referência, estima-se que a probabilidade de a inflação ultrapassar o limite superior intervalo de tolerância no último trimestre de 2026 subiu de 79% para 90%”, diz o relatório.

A piora veio apesar de a inflação corrente ter surpreendido para baixo de forma seguida. O IPCA acumulado em doze meses recuou de 4,72% em maio para 4,22% em agosto, dentro do intervalo. Entre junho e agosto, o índice ficou 0,90 ponto percentual abaixo do que o Copom projetava em junho — no acumulado em doze meses, a surpresa baixista chegou a 0,94 ponto, segundo tabela do próprio relatório.

O BC trata esse alívio como temporário. Pelas projeções mensais de curto prazo do relatório, o IPCA acumulado em doze meses volta a passar do teto já em outubro, quando chegaria a 4,61%, avançaria para 4,85% em novembro e fecharia dezembro em 5,21%.

“As projeções mensais de curto prazo indicam elevação da inflação acumulada em doze meses, que deve voltar a exceder o limite superior do intervalo de tolerância ao redor da meta de inflação”, afirma o documento.

No cenário de referência, a inflação acumulada em quatro trimestres cai para 4,4% no terceiro trimestre deste ano, sobe para 5,2% no quarto e fica “dois trimestres consecutivos acima do limite superior do intervalo de tolerância”, segundo o relatório. A projeção só volta para próximo ao centro da meta no primeiro trimestre de 2028 — atual horizonte relevante da política monetária —, quando o BC espera 3,2%, mesmo número do relatório anterior.

Três fatores explicam a piora no curto prazo, segundo o documento: o efeito do El Niño sobre alimentos in natura, a reversão em setembro do bônus de Itaipu na conta de luz e o choque nos preços do petróleo. A projeção também trabalha com a manutenção da bandeira tarifária amarela até dezembro, hipótese que o próprio BC classifica como “mais restritiva do que a indicada pelos cenários correntes do setor elétrico”.

O BC ressalva que os 90% não medem risco de descumprimento formal da meta. Pela sistemática de meta contínua, em vigor desde janeiro de 2025, a meta só é considerada descumprida se a inflação em doze meses ficar fora do intervalo por seis meses consecutivos, em qualquer mês do ano. Nesse caso, o presidente do BC precisa escrever carta aberta ao ministro da Fazenda.

Para os anos seguintes, a probabilidade de a inflação furar o teto cai para 33% em 2027 e 16% em 2028. A chance de a inflação ficar abaixo do piso de 1,5% é nula neste ano e de 4% em 2027.

O cenário parte de uma taxa de câmbio de R$ 5,15 e de um preço médio do petróleo Brent de US$ 90 no terceiro trimestre, com pico no quarto trimestre e queda até cerca de US$ 84 no segundo trimestre de 2027. A trajetória de juros usada é a da pesquisa Focus, com a Selic em 13,75% no fim de 2026, 12% em 2027, 10,50% em 2028 e 10% em 2029 — sempre acima da taxa de juro real neutra de 5% considerada pelo BC, o que significa política monetária contracionista em todo o horizonte.

As expectativas de inflação continuam se afastando da meta nos prazos mais longos. Na pesquisa Focus, a mediana para 2026 recuou de 5,30% para 4,90% desde o relatório anterior, mas a de 2027 subiu de 4,10% para 4,30% e a de 2028, de 3,68% para 3,80%. Para 2029, ficou em 3,5%. O Copom classifica a desancoragem das expectativas como o primeiro dos riscos de alta para a inflação.

No mesmo relatório, o BC reduziu a projeção de crescimento do PIB deste ano de 2% para 1,8%, sob influência da composição do crescimento do segundo trimestre e de indicadores mais fracos no terceiro. Para 2027, a estimativa é de 1,4%. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, após alta de 1,1% no primeiro.

Choque do petróleo ainda não contaminou preços e salários

O Banco Central avaliou ainda que a alta dos preços do petróleo e derivados provocada pelo conflito no Oriente Médio ainda não se espalhou pelo resto da economia. “As evidências analisadas neste boxe sugerem que o recente choque nos preços do petróleo e derivados ainda não gerou propagação inflacionária relevante por meio de efeitos de segunda ordem na economia brasileira”, diz boxe do Relatório de Política Monetária.

Na Pesquisa Firmus, do próprio BC, 77% das empresas relataram aumento de custos com derivados de petróleo e 86%, com frete e logística — mas apenas 43% disseram ter elevado os preços de venda, o que indica compressão de margens.

No lado dos salários, a média dos reajustes nominais registrados em convenções coletivas caiu de 5,7% em fevereiro para 5,1% em agosto, e o rendimento médio nominal desacelerou de 9,6% para 8,0% na comparação interanual.

O BC faz ressalvas. As expectativas de inflação das próprias empresas subiram em todos os horizontes entre fevereiro e agosto, e a expectativa das firmas para o crescimento do custo de mão de obra passou a ficar acima do patamar de 2025. “Os riscos de propagação não podem ser descartados”, conclui o documento.

[Fonte Original]

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