Ter a agenda cheia é sempre bom? O que esse sinal de sucesso pode esconder

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Marcar uma consulta hoje é diferente de fazer isso alguns anos atrás. Antes de escolher um profissional, o paciente pesquisa na internet, lê avaliações, procura informações sobre a formação, observa onde ele atende e, muitas vezes, passa pelas redes sociais. Quando chega ao consultório, portanto, já traz alguma impressão sobre quem está do outro lado.

Mas a mudança não acontece apenas na relação entre paciente e profissional. Para quem vive da própria agenda, a rotina também passou a ser questionada. Afinal, horários preenchidos podem representar reconhecimento e estabilidade financeira, mas também significam menos tempo livre, mais mensagens, mais decisões e uma carreira cada vez mais dependente da presença daquele profissional.

Foi a partir dessa percepção que o neurocirurgião Isaac Bertuol começou a rever a própria trajetória. Depois de 23 anos na medicina, 19 deles dedicados à neurocirurgia, ele passou a olhar não apenas para o trabalho que fazia, mas também para a maneira como queria exercer a profissão.

À frente de uma clínica em Lajeado, no Rio Grande do Sul, Bertuol começou a prestar mais atenção a questões que costumam ficar em segundo plano na rotina de quem atende: organização, equipe, finanças, comunicação e divisão de responsabilidades.

A mudança, para ele, não está apenas relacionada ao crescimento profissional. Tem a ver também com qualidade de vida.

Quando a agenda cheia deixa de ser sinônimo de sucesso

Ter horários disputados costuma ser associado a reconhecimento. Quanto mais pessoas procuram determinado profissional, maior a sensação de que a carreira está no caminho certo. O problema é que uma rotina cheia também pode esconder uma carga de trabalho difícil de sustentar.

Quanto tempo sobra depois de uma sequência de consultas? É possível se afastar por alguns dias sem que tudo pare? Até que ponto o profissional precisa estar disponível para resolver cada questão da rotina?

São perguntas que aparecem quando o crescimento começa a ocupar espaços que antes pertenciam à vida pessoal. Para Isaac, organizar a estrutura por trás do atendimento foi uma forma de deixar de concentrar todas as responsabilidades em si. A ideia, segundo ele, é permitir que o profissional tenha mais clareza sobre o próprio trabalho e consiga exercer a medicina sem que todas as decisões dependam de sua presença.

“Empreender é estruturar. É garantir que o médico tenha clareza financeira, tempo e sustentabilidade para exercer a profissão com tranquilidade”, afirma.

A relação com o paciente também mudou

A consulta deixou de ser o único momento em que o paciente entra em contato com um profissional. A relação pode começar muito antes, durante uma pesquisa na internet, uma visita às redes sociais ou uma tentativa de marcar horário.

Informações sobre formação, especialidade, localização e formas de atendimento passaram a fazer parte desse primeiro contato. A maneira como o paciente consegue tirar uma dúvida ou encontrar um horário disponível também pode influenciar a percepção sobre aquele profissional.

Isso não significa, necessariamente, transformar o consultório em uma extensão das redes sociais. Para a psicóloga Fernanda Tochetto, fundadora do Tittanium Club, a presença pública de um profissional de saúde precisa estar associada à coerência entre o que ele comunica e a forma como conduz o próprio trabalho.

“A credibilidade médica não nasce da exposição. Ela nasce da organização da identidade profissional e da consistência nas decisões”, diz a empresária.

Na prática, detalhes que antes pareciam secundários passaram a fazer parte da experiência: pontualidade, acolhimento, facilidade para marcar uma consulta, clareza nas informações e retorno às mensagens.

Para quem procura um atendimento, esses pontos ajudam a formar uma percepção antes mesmo de entrar no consultório.

E quanto tempo sobra para quem está trabalhando?

Essa talvez seja uma das questões mais difíceis quando a carreira começa a crescer. Mais pacientes podem significar mais renda, mas também mais horas de trabalho. Mais visibilidade pode trazer oportunidades, mas aumenta a exposição. Uma clínica maior pode representar expansão, mas também exige mais decisões, responsabilidades e pessoas envolvidas.

O crescimento, portanto, não acontece isoladamente. Ele modifica a rotina. Depois de anos associando sucesso a uma agenda cheia, profissionais de diferentes áreas começam a olhar para outra medida: quanto daquela carreira cabe na vida que desejam levar.

No caso de Bertuol, repensar a estrutura de trabalho foi uma maneira de não deixar que a profissão determinasse sozinha o ritmo dos dias.

“Agenda lotada não significa negócio saudável. Sem organização estratégica, o profissional continua financeiramente vulnerável e sobrecarregado”, avalia Fernanda.

A discussão, no fim, vai além da medicina. Em uma cultura que costuma associar produtividade a reconhecimento, ter mais compromissos nem sempre significa ter uma vida profissional melhor.

Depois de mais de duas décadas de carreira, Isaac passou a enxergar essa relação de outra maneira. “Eu sei o que é viver apenas de agenda. Também sei o que muda quando você estrutura a carreira”, conta.

Talvez a mudança esteja justamente aí: deixar de perguntar apenas como trabalhar mais para pensar em como construir uma carreira que também deixe espaço para viver.

Isaac Bertuol fala sobre a nova ideia de sucesso profissional — Foto: Divulgação

[Fonte Original]

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