Está numa espécie de kit antienvelhecimento feito de DNA o segredo de Jonathan, um jabuti-gigante-de-aldabra (Aldabrachelys gigantea) que aos 194 anos é o animal terrestre mais velho do mundo. Ele tem um século a mais, ou cerca do dobro, da expectativa de vida de sua espécie, conhecida por viver muito. Sua longevidade extraordinária era um completo mistério que o sequenciamento de seu genoma, recém-anunciado, começa a decifrar.
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As descobertas contribuem para a compreensão do processo de envelhecimento humano. Pois, muitos dos mecanismos que fazem Jonathan desafiar a morte existem em outros animais, inclusive o ser humano.
A expectativa de vida dos jabutis-gigantes-de-aldabra é semelhante à humana, entre 80 anos e 93 anos. Mas Jonathan, cuja vida tem sido documentada há quase dois séculos, tem se mantido vivo e saudável. Sua idade é estimada também por medidas de sua concha.
Para descobrir o que está por trás de tamanha resiliência, o geneticista Benjamin Vaisvil, da Fundação Kallel e da empresa de biotecnologia americana Igenbio, e seus colegas de um consórcio de pesquisa internacional sequenciaram o genoma de Jonathan.
Num estudo publicado na Science Advances, eles relatam que Jonathan ganhou na loteria da natureza e nasceu com uma combinação de variantes genéticas que o tornam resistente a falhas associadas ao envelhecimento. Ele tem um kit da longevidade, ao que se saiba, único.
Os pesquisadores descobriram que Jonathan tem 287 genes com variantes genéticas exclusivas e outros 770 genes com modificações naturais associadas à longevidade.
— Não se trata de uma característica, mas de uma combinação de centenas delas. É realmente extraordinário — afirma a geneticista Mayana Zatz, do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP), e líder do principal estudo com centenários no Brasil.
Zatz observa que ninguém vai viver mais copiando essa receita de jabuti, mas ela ilumina aspectos interessantes dos mecanismos moleculares do envelhecimento.
À medida que se envelhece, o DNA sofre falhas associadas ao desgaste natural causado por fatores variados, como doenças, estresse e ao próprio funcionamento do organismo. Mas Jonathan tem variantes que o ajudam a reparar o DNA. Outras variantes de genes tornam sua regulação de insulina mais eficiente.
Ele tem ainda algumas variantes que o fazem driblar o desenvolvimento de câncer. Por exemplo, Jonathan possui 10 cópias do gene da perforina (Prf1), enquanto outros jabutis e tartarugas possuem menos cópias ou até deleções (não têm o gene). A perforina é usada por células de defesa T e NK para destruir células cancerígenas e células senescentes (velhas).
Ele também nasceu com mitocôndrias (as usinas de energia das células) turbinadas.
Os cientistas descobriram ainda que Jonathan possui os telômeros de um jovem. Os telômeros são, a grosso modo, as extremidades dos cromossomos que costumam encurtar à medida que se envelhece e que funcionam como indicadoras do desgaste do DNA.
Exigências do jabuti-rei
Não foi fácil chegar ao genoma de Jonathan. Nem tanto pela tecnologia genética. Mas porque Jonathan impõe dificuldades.
Primeiro, porque o rei dos jabutis (ele é um jabuti, e não uma tartaruga porque é estritamente terrestre. Tartarugas são aquáticas) é um ícone da conservação, precioso demais para que seu sangue possa coletado. Ninguém quer correr o risco de lhe causar o menor dano, nem que seja a coleta de algumas gotas de sangue.
Por isso, Vaisvil e seus colegas precisaram extrair o material genético de Jonathan a partir de raspagens de saliva e mucosa da bochecha em vez de uma coleta de sangue. E ninguém pode obrigar Jonathan a abrir a boca, caso ele não queira. Os cientistas tiveram que seduzi-lo com comida para que abrisse a boca de bom grado.
E, além de se fazer de difícil, Jonathan mora longe. Ele vive no jardim da residência oficial do governador da Ilha de Santa Helena. Essa ilha, conhecida por ter sido o local do derradeiro exílio de Napoleão Bonaparte, que morreu lá em 1821, é um território ultramarino do Reino Unido no meio do Oceano Atlântico.
A ilha fica a aproximadamente 2 mil quilômetros de distância da África e a 3 mil quilômetros da costa do Brasil. Mas Jonathan não nasceu lá e sim nas Ilhas Seychelles, no Oceano Índico, de onde sua espécie é nativa.
Biólogos estimam que Jonathan nasceu por volta de 1832 e que cinco décadas depois foi levado para Santa Helena. O motivo para isso é desconhecido.
Quando finalmente conseguiram o DNA do superjabuti, os cientistas o compararam com os de outros quatro jabutis de Aldabra, variando em idade de jovens a adultos mais velhos.
Vaisvil e seus colegas também investigaram o metiloma de Jonathan. O metiloma é o panorama da metilação do genoma, isto é, da forma como ele é expressado.
A metilação regula onde, quando, a velocidade e a intensidade com que um gene se expressa. É a forma como os genes se comportam. É a metilação que faz com que um gene se expresse no lugar e no momento certos.
Com o tempo, a metilação sofre falhas. É um sinal de envelhecimento. Mas a análise do metiloma de Jonathan mostrou que ele tem menos falhas que jabutis décadas mais jovens.
— O padrão de metilação é muito importante para o estudo da longevidade. Aqui no Brasil vamos estudar esse padrão em nossos centenários — diz Zatz.
Ninguém se arrisca a estimar até quando Jonathan viverá. Mas ele já garantiu seu lugar na História.