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domingo, abril 19, 2026

Derretimento do gelo marinho na Antártida altera ecossistemas e preocupa cientistas

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A rápida redução do gelo marinho na Antártida está provocando mudanças profundas na vida marinha da região, segundo um estudo financiado pela Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês). Os impactos atingem especialmente espécies fundamentais da base da cadeia alimentar, como o plâncton, e podem redefinir o equilíbrio ecológico do Oceano Austral.

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A diminuição do gelo é um dos sinais mais visíveis das mudanças climáticas, frequentemente associada ao Ártico. No entanto, dados recentes indicam que a Antártida passou a enfrentar transformações igualmente dramáticas.

Degelo na Antártida preocupa

  • Há cerca de dez anos, a extensão do gelo marinho ao redor do continente antártico sofreu uma queda abrupta;
  • Após décadas de relativa estabilidade, uma área oceânica quase do tamanho da Groenlândia perdeu sua cobertura sazonal de gelo em poucos anos;
  • Inicialmente, cientistas acreditavam que a redução poderia ser temporária. Hoje, entretanto, o fenômeno é interpretado como o início de uma nova “era de baixo gelo”;
  • As consequências ecológicas são significativas. A velocidade da perda registrada entre 2016 e 2017 surpreendeu tanto modelos climáticos quanto pesquisadores em campo, que tiveram pouco tempo para observar diretamente como os organismos da região estavam reagindo às mudanças.

Monitoramento por satélite revela mudanças na Antártida

Diante da dificuldade de coleta de dados em campo, uma equipe liderada pelo Plymouth Marine Laboratory, no Reino Unido, utilizou tecnologia de satélite para investigar o fenômeno.

O estudo integrou o projeto Biodiversity in the Open Ocean, da ESA, e analisou dados do Ocean Colour Project, parte da Climate Change Initiative da agência. Essas medições captam como a luz solar é refletida na superfície do oceano em diferentes comprimentos de onda, permitindo inferir condições biológicas a partir do espaço.

Com base nesses sinais ópticos, os cientistas classificaram o Oceano Austral em diferentes “paisagens marinhas”, cada uma refletindo características biológicas específicas.

Essas classificações revelam informações sobre o fitoplâncton — algas microscópicas que formam a base da cadeia alimentar antártica. As variações na luz refletida indicam tanto a quantidade quanto os tipos predominantes dessas algas.


Os resultados, publicados na revista Marine Ecology Progress Series, surpreenderam os pesquisadores. Regiões extensas e remotas passaram de níveis extremamente baixos de fitoplâncton para níveis moderados de produtividade.

Em média, cerca de 70% da região apresenta hoje concentrações mais elevadas de fitoplâncton no verão em comparação com o período anterior à redução do gelo.

Proliferação de fitoplâncton na Antártida – Imagem: Divulgação/ESA

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Impactos sobre krill e salpas

Para compreender os efeitos sobre a fauna, os pesquisadores combinaram os dados de satélite com o banco histórico KRILLBASE, que reúne informações sobre krill e salpas.

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O krill antártico, um pequeno crustáceo semelhante a camarões, é uma das espécies mais importantes do Oceano Austral. Estima-se que existam cerca de 800 trilhões de indivíduos (excluindo ovos e larvas), distribuídos por toda a região e em diferentes profundidades.

Esses organismos são fonte de alimento para diversas espécies, de estrelas-do-mar a grandes baleias. Ao se alimentar de fitoplâncton, o krill desempenha papel central nos ciclos de carbono, nitrogênio e outros elementos essenciais.

Já as salpas, organismos gelatinosos que se alimentam por filtração, podem viver isoladamente ou formar longas cadeias. Elas tendem a prosperar quando o krill diminui e podem se tornar mais abundantes com as mudanças climáticas.

O aumento do fitoplâncton poderia, à primeira vista, indicar um cenário positivo. No entanto, o gelo marinho desempenha funções essenciais, como fornecer abrigo e áreas de reprodução, além de favorecer o crescimento de diatomáceas — algas maiores que transferem energia de forma mais eficiente na cadeia alimentar.

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Os dados indicam que a maior disponibilidade de alimento está beneficiando mais as salpas do que o krill. Isso representa um problema, já que as salpas possuem menor teor de carbono e contribuem menos para o transporte desse elemento para o fundo do oceano, um processo importante para a regulação do clima global.

Nova realidade ecológica

Os cientistas ainda estão começando a compreender os efeitos dessa nova fase de baixo gelo. Como as salpas não são exploradas comercialmente, armazenam carbono de forma diferente e sustentam cadeias alimentares distintas, uma mudança prolongada no equilíbrio entre salpas e krill pode alterar ciclos de nutrientes e relações ecológicas em todo o Oceano Austral.

As evidências apontam que a redução do gelo antártico não é apenas um indicador físico das mudanças climáticas, mas também um fator que impulsiona uma reorganização biológica profunda em um dos ambientes marinhos mais importantes do planeta.

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O uso de dados de satélite tem se mostrado essencial nesse contexto, permitindo monitoramento contínuo, em larga escala e de longo prazo.

Segundo o estudo, essas ferramentas são fundamentais para entender como a perda acelerada de gelo está transformando os habitats de alimentação de espécies-chave do plâncton e quais serão os impactos sobre toda a cadeia alimentar polar.

Com a provável consolidação dessa nova era de baixo gelo, os dados gerados pela ESA devem desempenhar papel importante na orientação de pesquisas futuras, estratégias de conservação e políticas climáticas globais.

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.


[Fonte Original]

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