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quarta-feira, abril 22, 2026

Pressão de grandes clientes impulsiona descarbonização

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O avanço das exigências regulatórias relacionadas à mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e o cumprimento das metas de redução de emissões de carbono ampliam a necessidade de adoção de medidas por um universo maior de empresas. Neste ano novas regras entraram em vigor, como a obrigatoriedade de reporte das oportunidades e riscos relacionados à sustentabilidade (IFRS S1) e os efeitos de riscos climáticos nos resultados financeiros (IFRS S2) das empresas abertas, e o Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM), no qual empresas de países da União Europeia são obrigadas a declarar e pagar taxas sobre as emissões de carbono emitidas na produção de importados, como aço, alumínio, cimento, fertilizantes, hidrogênio e eletricidade.

Além disso, empresas de grande porte comprometidas com metas de descarbonização têm o desafio de abranger também o chamado escopo 3, das emissões na cadeia de fornecimento. “As emissões de escopo 3 chegam a representar 88% do total de emissões de uma empresa”, afirma a sócia de estratégia em sustentabilidade da Deloitte, Maria Emília Perez. Ela acrescenta que a perspectiva da regulação do mercado de carbono e a CBAM criam uma pressão estrutural sobre quem exporta ou fornece para cadeias na Europa.

A pressão das grandes empresas que passaram a exigir dados e planos de ações em suas cadeias de suprimentos é decisiva para que as médias empresas busquem formas para medir e gerir suas emissões. Além da manutenção de contratos com grandes clientes, a descarbonização dá acesso a linhas de crédito atreladas a critérios ambientais e com condições mais vantajosas, reduz custos operacionais e aumenta a competitividade.

Maurício Colombari, sócio e líder de ESG da PwC Brasil, afirma que “empresas com estratégias climáticas robustas também têm menos barreiras para exportar e atrair talentos, o que reforça o valor econômico da agenda climática no médio e longo prazo”.

O acesso a linhas de financiamento verde, como o certificado Selo Casa Azul + Caixa, é a principal motivação para investimentos em descarbonização no setor de construção e incorporação, no qual 95% das emissões decorrem de materiais fornecidos por terceiros. “O setor trabalha com a obrigatoriedade de medir e gerir as emissões do escopo 3 desde o início, já que ele é responsável por, praticamente, a totalidade delas”, diz Lilian Sarrouf, coordenadora técnica do comitê de meio ambiente do SindusCon-SP.

Dos materiais utilizados no canteiro de obras, aço, alumínio, cimento e vidro são maiores emissores e reduzir sua pegada é difícil. Foi nessa complexa equação que a Reciaço, então uma empresa familiar dedicada à coleta e revenda de diversos materiais, viu a oportunidade de dar um passo adiante na cadeia de valor.

A evolução veio com a chegada da terceira geração à gestão do negócio. A empresa passou a processar a sucata metálica recolhida e transformá-la em novos insumos para a indústria, o que reduz a necessidade de extração mineral e o consumo energético.

“Com a mudança, reposicionamos nosso negócio e nos tornamos um agente de transformação comprometido com a redução da pegada de carbono”, afirma Manoel Patrício Neto, sócio-diretor da empresa do Rio Grande do Norte. Segundo ele, a rota convencional, que usa minério de ferro e carvão para produção dos insumos siderúrgicos, emite cerca de 2,2 toneladas de CO 2 equivalente por tonelada de aço, enquanto a rota baseada em sucata emite aproximadamente 12 kg de CO 2 equivalente por tonelada.

No processo industrial, 100% da energia usada pela Reciaço tem origem eólica e solar, tirando proveito da vocação do Rio Grande do Norte na geração de renováveis. A empresa agora busca obter certificações internacionais para conquistar mercado no exterior, especialmente na Europa. Em março, foi uma das vencedoras do Prêmio Nacional de Inovação, realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pelo Sebrae, na categoria descarbonização, que abrangia médias companhias.

Patrício Neto destaca ainda a importância de contar com parcerias estratégicas com startups e consultorias, além de instituições para capacitar colaboradores, para o sucesso da empreitada.

Relatório de 2025 do Fórum Econômico Mundial destaca que a agenda de sustentabilidade muitas vezes ignora as realidades das pequenas e médias empresas, que enfrentam desafios como prioridades na alocação de recursos e limitações financeiras. “Muitas delas têm dúvidas quanto ao retorno dos investimentos e pouca capacidade de influenciar seus próprios fornecedores. Sem apoio e iniciativas colaborativas, esse segmento tende a avançar mais lentamente, apesar do papel importante na redução das emissões”, resume Colombari, da PwC.

Os primeiros passos na jornada de descarbonização das médias empresas são a mensuração, elaboração de inventários de emissões, busca de eficiência energética, adoção de energia renovável, por meio de geração solar ou fotovoltaica própria ou contrato de compra de energia limpa e, em alguns casos, compensação por meio da aquisição de créditos de carbono. São ações que demandam menos capital, têm retorno mais rápido e resultado mensurável, dizem os especialistas.

A Elera, especializada na geração e comercialização de energia renovável, registrou avanço na participação de empresas de médio porte no ambiente de contratação livre, após a abertura desse mercado para novos perfis de consumidores. A partir de janeiro de 2024, o volume de migrações triplicou em relação a 2023. Hoje 26% de sua base de clientes é composta por médias companhias.

Mas as iniciativas que promovem ações mais significativas no perfil de emissões envolvem mudanças estruturais, como o redesenho de processos produtivos, a substituição de matérias-primas e equipamentos, e a eletrificação de frotas. São ações mais complexas, que exigem investimentos maiores e visão de longo prazo.

A compra de créditos de carbono para compensar emissões, mesmo que de forma voluntária para empresas de médio porte, é uma alternativa para atender exigências de cadeias de suprimentos de grandes empresas ou melhorar as práticas de sustentabilidade. Por sua vez, a implementação do mercado regulado de carbono, tornando compulsória e compensação de emissões que ultrapassarem o limite estabelecido para cada setor de atuação, pode abrir novas perspectivas de negócios para companhias de médio porte como a Marca Ambiental.

Negativa em emissões, a empresa opera no mercado de créditos de carbono desde 2022. A captura do biogás gerado em suas oito unidades, localizadas em municípios nos quais faz a coleta e o tratamento de 5 mil toneladas de resíduos por dia (residenciais, comerciais e industriais), é usada para abastecer uma usina termelétrica com potência instalada de 5 MW e o excedente é transformado em CO2 e convertido em créditos comercializáveis. Em 2024, foram evitadas emissões de 200 mil toneladas de CO2 equivalente, que correspondem a 200 mil certificados de créditos de carbono.

[Fonte Original]

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