As moedas de países produtores de commodities estão divergindo, com investidores buscando aquelas fortemente ligadas à China, diante de preocupações com a economia dos Estados Unidos.
A alta dos preços do petróleo impulsionou o real brasileiro e o dólar australiano em relação ao dólar americano, enquanto o dólar canadense e o peso mexicano ficaram para trás.
“O sentimento dos investidores em relação às moedas de países produtores de commodities é geralmente positivo, mas a resiliência do real brasileiro, em particular, tem sido notável”, disse Toru Nishihama, economista-chefe do Instituto de Pesquisa Dai-ichi Life.
O real subiu para cerca de 4,90 por dólar na segunda-feira, nível mais valorizado desde março de 2024. O dólar australiano atingiu a maior cotação em quatro anos em 17 de abril.
Enquanto isso, o dólar canadense está cotado em torno de 1,30 em relação ao dólar americano, desvalorizando-se ligeiramente em comparação com a taxa de 27 de fevereiro, um dia antes do ataque conjunto entre Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Apesar do Canadá ser um grande produtor de petróleo, sua moeda não conseguiu sustentar os ganhos, mesmo com a alta dos preços do petróleo bruto. No mesmo período, o peso mexicano permaneceu praticamente inalterado em relação ao dólar.
Essa divergência de desempenho reflete os blocos econômicos aos quais os países pertencem.
Para o Brasil e a Austrália, a China é o maior parceiro comercial, consolidando fortes laços econômicos. Takuya Kanda, analista sênior de câmbio do Gaitame.com Research Institute, afirmou que a China parece relativamente mais estável do que os Estados Unidos em termos de riscos no Oriente Médio e tensões comerciais com outras economias, impulsionando moedas intimamente ligadas à economia chinesa.
A Noruega, produtora de petróleo, também está registrando um aumento no comércio com a China. Segundo o Instituto Norueguês de Estatística, as importações e exportações para a China de itens importantes praticamente dobraram entre 2015 e 2025.
O Departamento Nacional de Estatísticas da China informou na semana passada que o Produto Interno Bruto (PIB) real do país cresceu 5% em relação ao ano anterior durante o trimestre encerrado em março. A demanda externa sustentou o crescimento, com as exportações para os países do Sudeste Asiático e para a Europa registrando ganhos notáveis.
Mesmo com a alta dos preços do petróleo causada pela guerra no Oriente Médio, o comércio da China — excluindo os Estados Unidos — continuou a se expandir, reforçando as expectativas de que os efeitos econômicos indiretos beneficiarão as economias parceiras.
Por outro lado, os mercados estão cada vez mais cautelosos com as perspectivas econômicas dos Estados Unidos após as políticas tarifárias da administração Trump e a guerra com o Irã. Os dados de emprego dos Estados Unidos em março superaram as expectativas do mercado, mas os sinais ainda apontam para uma desaceleração do mercado de trabalho, enquanto os preços mais altos da gasolina também ganharam destaque.
Os investidores temem os potenciais efeitos indiretos negativos sobre o Canadá e o México, já que ambos estão profundamente integrados à economia dos Estados Unidos.
Os dois países também estão se preparando para uma revisão do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA) em julho. Embora os Estados Unidos tenham iniciado negociações formais com o México, as tensões com o Canadá persistem. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, insinuou a possibilidade de se retirar do acordo, aumentando a incerteza.
“O dólar canadense, o iene japonês e o won sul-coreano — todas moedas atreladas aos Estados Unidos — apresentaram quedas notáveis”, disse Kyugo Hasegawa, economista de mercado do Mizuho Bank. “Do ponto de vista da proteção contra riscos, as expectativas estão aumentando para moedas que se desvalorizam fora do bloco econômico dos Estados Unidos.”
Os Estados Unidos e a China têm uma cúpula agendada para meados de maio. Embora muitos esperem conversas aparentemente tranquilas, Nishihama afirmou que o encontro pode proporcionar à China uma oportunidade de aprofundar a cooperação econômica com países que demonstraram crescente desconfiança em relação a Washington.