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quinta-feira, maio 21, 2026

Regulações e escala desafiam startups

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Em 2011, quando se candidatou para uma bolsa de iniciação científica no Instituto de Química da Universidade de Brasília (UnB), Carime Vitória da Silva Rodrigues não imaginava que sua pesquisa em nanotecnologia seria o embrião de uma startup. Fundada em 2019, dentro do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da UnB, por Rodrigues e o professor Marcelo Oliveira, a Krilltech Nanotecnologia Agro iniciou suas operações com um único produto, derivado da aplicação de nanopartículas de carbono para potencializar o metabolismo das plantas. Hoje a empresa tem patente depositada no Brasil, cinco produtos no portfólio e projeta faturar em torno de R$ 15 milhões em 2026.

Marcelo Oliveira, doutor em química inorgânica e professor da UnB, diz que, diferentemente de outras “deep techs” – startups que inovam a partir de pesquisas científicas – a Krilltech cresceu por transpor barreiras regulatórias. Outro diferencial é o cuidado na obtenção de licenças. Os produtos da Krilltech são soluções líquidas desenvolvida com nanopartículas de carbono em formato esférico (com diâmetro aproximadamente 56,5 milhões de vezes menor do que uma bola de futebol) e aplicados em plantas ou no solo. A tecnologia torna o desenvolvimento das plantas mais eficiente e saudável.

“O maior desafio de ‘deep techs’, em qualquer segmento, é romper barreiras regulatórias, principalmente em setores em que essas exigências são muito altas, sobretudo em obtenção de licenças”, ressalta Oliveira, que também é o CEO da Krilltech.

O nível da maturidade de uma inovação para ser considerada operacional em ambiente comercial é medido pelo modelo TRL (do inglês Technology Readiness Level), que tem nove níveis. Na avaliação de Oliveira, o período mais crítico da startup é atingir as fases TRL 7, 8 e 9, em que os produtos precisam vencer testes de escala comercial.

Instalada em uma fábrica de 1,2 mil metros quadrados em Brasília, a Krilltech iniciou, em 2025, as exportações de seus produtos para países da União Europeia, Peru e Uruguai. No fim de abril deste ano, a empresa foi uma das seis selecionadas no desafio Al Miyah, realizado nos Emirados Árabes Unidos para solucionar questões de escassez hídrica na agricultura. A Krilltech disputou com 846 equipes de 54 países, e o vencedor do desafio será conhecido no fim deste ano.

Iniciada em 2021, a produção comercial da Krilltech ganhou escala a partir de um acordo de comercialização firmado com a Casa Bugre em dezembro de 2022. Distribuidora de insumos agrícolas de alto desempenho no mercado brasileiro de agronegócio há mais de quatro décadas, a Casa Bugre investiu R$ 7 milhões na Krilltech em 2024.

“Nossa produção em 2025 foi 30 vezes maior que a registrada em 2021, quando éramos startup. Esperamos crescer 26% este ano”, diz Carine Rodrigues, doutora em química pela UnB e diretora da área de pesquisa e desenvolvimento da Krilltech.

Ultrapassar barreiras regulatórias desafia também quem desenvolve inovações na área financeira. Esse cenário motivou a criação do Programa de Aceleração Jurídica para Startups do Pinheiro Neto, que está completando dez anos de atuação. Coordenado pelo advogado Bruno Balduccini, sócio do Pinheiro Neto, o programa assessorou 46 startups – 17 delas conseguiram captar financiamento ou colocar o negócio na mira de investidores para realizar uma venda. Empresas como Pier Seguradora e a Caju, de benefícios corporativos, passaram pelo programa.

Setores mais regulados demandam ciclos mais longos”

— Bruno Balduccini

Balduccini observa que o tempo de maturação para a startup atingir faturamento anual acima de R$ 20 milhões pode levar até oito anos. Esse período varia em função do setor, do fôlego de capital e da capacidade de execução da empresa. “Empresas de software B2B, fintechs e SaaS [software as a service] normalmente conseguem atingir escala mais rapidamente por conta da recorrência de receita e maior escalabilidade operacional. Setores mais regulados ou intensivos em operação física – como logística, saúde e ‘clima tech’ – costumam demandar ciclos mais longos”, afirma.

O advogado percebeu dificuldades de empresas inovadoras em segmentos como finanças e seguros em cumprir a regulação sem um suporte jurídico. “O programa assessora quem tem uma boa ideia e não consegue pagar nossos horários. O pagamento acontece quando a startup capta recursos, recebemos em dinheiro parte do que ela captar”, detalha.

Um dos exemplos de caso bem-sucedido do programa do Pinheiro Neto é a Exato Digital, empresa de tecnologia que faz verificação de antecedentes de pessoas físicas e jurídicas. A startup surgiu de uma empresa de consultoria de software, fundada por André Takitani Pires e Leandro Villani Cambraia Casella, profissionais da área de tecnologia amigos desde o curso na Escola Técnica Estadual Professor Camargo Aranha, na Mooca, no fim da década de 1990.

A Exato foi fundada em 2019 a partir da demanda dos clientes da consultoria por um serviço automatizado para a verificação de documentos, certificações, certidões. Os sócios perceberam que tinham um produto com possibilidade de escalar, que rodava muito bem, do ponto de vista tecnológico. Porém, com a promulgação da Lei Geral de Dados Pessoais (Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018), conhecida como LGPD, a Exato precisou investir em assessoria jurídica.

“Na época não tínhamos verba para contratar um escritório do porte do Pinheiro Neto. O programa caiu como uma luva, porque poderíamos pagar com parte dos investimentos que ainda seriam captados”, diz Casella.

Com a participação no programa do escritório de advocacia, iniciada em 2020, a Exato atraiu clientes, como o Bradesco, que se tornou um dos investidores da startup. Em abril, o faturamento da empresa foi R$ 2,5 milhões. A projeção é fechar dezembro deste ano com R$ 5 milhões mensais. A Exato tem na carteira de clientes, empresas como Uber, Bradesco, Stone, JBS, Fleury, Habib’s, McDonald’s, Banco BMG, Drogaria São Paulo, Espaçolaser.

No último trimestre de 2025, em uma rodada Series A, liderada pela Quartzo Capital e Bradesco, a Exato levantou R$ 20 milhões de investimentos. Casella diz que a empresa atingiu o ponto de equilíbrio entre gastos e consegue reinvestir o que fatura. “Temos crescido no ‘break-even’, não ficamos mais no negativo, o que é excelente para o momento, porque mercado de venture capital depende muito do comportamento dos juros”, observa Casella.

[Fonte Original]

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